O sacrifício animal, prática ancestral presente em diversas tradições espirituais do mundo, é comumente celebrado em alguns contextos e criminalizado em outros. Nas escrituras judaico cristãs, Deus pede a Abraão que sacrifique seu filho. No Islã, durante o Eid al-Adha, a Festa do Sacrifício, os fiéis recordam a submissão de Ibrahim (Abraão) a Allah, que, segundo a tradição islâmica, o pôs à prova pedindo que sacrificasse seu filho Ismael. No fim, o sacrifício recaiu sobre um animal, geralmente um cordeiro, um camelo, uma cabra ou um boi.
No hinduísmo védico, reis realizavam o aśvamedha, o sacrifício do cavalo, como forma de afirmar poder e renovar a prosperidade do reino. O animal era solto por um ano, percorrendo territórios e marcando domínio. Depois, era conduzido ao altar, onde seria sacrificado com cânticos e oferendas. Já no Ocidente, o banquete de Natal, celebração popular de fundamento religioso que marca o nascimento de Jesus Cristo, vem com tender, lombo, peru assado, tudo temperado pela lógica do consumo. A comida chega pronta, decorada, sem o mínimo rastro de morte.
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Nos terreiros de Umbanda, o rito do sacrifício se estabelece por meio da relação, do cuidado, do fundamento, do ponto cantado, do preparo, da partilha. É vínculo com a ancestralidade e com a comunidade. Não se realiza de qualquer jeito. Não se faz a qualquer hora. E mais: a dor é interdito, não faz parte do fundamento. Para além disso, o animal precisa estar saudável. O gesto precisa ser digno. Não há crueldade. Há ciclo. Há memória viva. O corpo do animal alimenta vivos e ancestrais. E sim, alimenta gente, muitas vezes gente que só tem acesso à proteína graças à comida do terreiro.
Por outro lado, no matadouro, a morte é em série. Sem nome, sem cuidado, sem canto. O animal vira produto. A carne, empacotada em bandeja, vem maquiada pela propaganda e disfarçada de afeto. Ninguém se indigna com a galinha do nugget, com o boi confinado à força no pasto, com o frango que nunca viu a luz do dia, com o couro nos bancos dos carros do ano, e muito menos ainda com o “couro” dos corpos que carregam a mochila vermelha pelas ruas, entregando esses alimentos já prontos, em seu estado final de consumo. E aí vem a pergunta que realmente importa: diante de tudo isso, por que é justamente a galinha preta da macumba que tanto incomoda?
Porque o incômodo não é com o bicho. É com a cor da cultura com a qual a carne desse animal será partilhada. É com o pai de santo, com o tambor, com a fumaça. É com a identidade do povo de axé. E quando essa prática se afasta do padrão branco de espiritualidade, vira caso de polícia, de ONG, de indignação seletiva. A régua não é ética. A régua é racial.
Há ainda aqueles que, no gesto de recusa, seja da própria identidade, seja da tradição que essa identidade carrega, afirmam que “Umbanda não faz sacrifício animal” ou que “não deveria fazer”. Isso não é apenas fruto da ignorância. É parte de um projeto mais amplo: o de embranquecimento da religião. Um projeto que tenta descolar a Umbanda de sua matriz africana, apagar sua raiz negra, transformar seus guias em “seres de luz” e seus ritos em metáforas domesticadas. Uma Umbanda de pele negra e máscaras brancas, suave, higienizada, genérica, universalista. Uma espiritualidade moldada para agradar o gosto místico-pop de quem prefere ignorar o valor e a tradição de uma cultura ancestral.
Não só a Umbanda, como também o Candomblé, a Quimbanda, o Batuque e tantas outras culturas pertencentes ao escopo da afroespiritualidade cumprem com a tradição do sacrifício animal como parte natural do relacionamento com o mundo do invisível. São tradições que cultuam a força vital, como descreve Nei Lopes, onde o sacrifício é ponto de encontro e comunhão com os mortos, com os ancestrais, com os orixás. É oferenda que alimenta o povo da banda de cá e da banda de lá. Um rito por onde a morte passa, mas não faz morada.
Por isso, quando alguém sugere que se troque um animal por uma fruta, uma flor ou uma vela, cabe a pergunta: por que só os cultos africanos precisam ser “adaptados”? Por que os símbolos do altar branco são respeitados, mas os fundamentos do congá precisam ser negociados? Por que a tradição cristã é vista como intocável, enquanto os rituais de matrizes africanas precisam se adequar? Porque, de um lado, há reconhecimento. Do outro, há cobrança, julgamento e condenação. É assim que age o racismo, moderno, silencioso, à brasileira, como dizia Lélia Gonzalez.
É importante ressaltar que, aqui, a crítica não se dirige aos terreiros que, por diferentes motivos, aboliram tais práticas. Ainda que, muitas vezes, essa abolição se assemelhe àquela que a história oficial insiste em celebrar: desonesta, simbólica, incompleta, forçada. O alvo é outro. São os discursos que disfarçam o racismo sob a máscara da moral e do ambientalismo seletivo. São as falas colonizadoras, sobretudo quando vêm da boca de quem se diz umbandista, mas não reconhece a própria identidade negra dos territórios que ocupam, optando por reproduzir um modelo de espiritualidade branca, guiadas pelo desejo do pacto narcísico da edificação de um deus à sua imagem e semelhança.
Hoje, há quem, a partir de seus privilégios sociais, defenda que as culturas de afroespiritualidade, como a Umbanda, podem ser moldáveis, personalizadas, onde cada um inventa sua própria versão, uma Umbanda para cada um, onde se funda um terreiro da mesma forma que se abre um comércio. Como se fosse possível aplicar à espiritualidade de matriz africana a lógica da modernidade líquida de Zygmunt Bauman, onde tudo é fluido, adaptável e sem compromisso. Mas se a Umbanda é vínculo com a ancestralidade, e se esse vínculo passa pela partilha do alimento, então não há Umbanda possível sem o fundamento que sustenta esse elo. Até porque, no terreiro, o sacrifício não se resume à morte do animal, mas à partilha daquilo que se torna alimento e, consequentemente, comunhão.
No terreiro, o sacrifício não é sobre violência, é sobre fundamento. O animal não morre por acaso, morre com sentido. A carne não é lucro, é partilha. O gesto não é barbárie, é ancestralidade viva. E se a sua indignação só aparece diante do bode, do galo ou da galinha da macumba, mas não diante dos 6,2 bilhões de frangos abatidos no Brasil em 20231, nem diante dos Yanomami envenenados por mercúrio, nem diante dos trabalhadores escravizados na confecção da sua roupa3, talvez o seu problema não seja ético. Talvez seja só racismo disfarçado de sensibilidade.
É um fato: O que se corta é carne, mas o que se afirma é vida. Portanto, esse artigo não é sobre matar galinha. É sobre alimentar comunidades de tradição afroespiritual. Viva e morta. Humana e divina. É sobre a partilha que sustenta corpos, histórias e presenças. É sobre o vínculo com os que vieram antes, com os que caminham ao lado e com os que ainda virão. É sobre o alimento que atravessa o tempo e conecta mundos. É sobre comunidades vivas, de cá e de lá. É sobre tradição, memória e ancestralidade. E se, mesmo diante de tudo isso, ainda te parece demais, talvez o problema não seja a falta de sentido. Talvez seja por falta de escuta.
Saravá!
Referências
Segundo a Agência Brasil, em 2024 o Brasil abateu 6,46 bilhões de frangos, número recorde na série histórica do IBGE. Disponível aqui.
Estudo da Fiocruz em parceria com o Instituto Socioambiental revelou que 84% das amostras de cabelo coletadas em aldeias Yanomami do Alto Rio Mucajaí apresentaram níveis de mercúrio acima do seguro. Fonte: Agência Brasil. Disponível aqui.
Em 2022, 2.575 pessoas foram resgatadas de condições análogas à escravidão no Brasil, muitas delas no setor têxtil. Dados do Ministério do Trabalho, divulgados pela Agência Brasil. Disponível aqui.