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Saravá a Ibeijada: os ancestrais do futuro manifestados no terreiro de umbanda

A presença das crianças na Umbanda nos obriga a refletir sobre a forma como a sociedade insiste em lhes roubar a infância
Celebração em terreiro no Dia dos Ibejis.

Celebração em terreiro no Dia dos Ibejis.

— Tiago Torres

27 de setembro de 2025

É chegado o mês de setembro e, com ele, não há terreiro que deixe de cultuar os espíritos infantis da Umbanda. Crianças, Erês, Ibeijada são diferentes formas de nomear os espíritos que se manifestam para celebrar a vida e a possibilidade de aprender com a infância.

Os ritos dessa celebração ressoam no terreiro muito além de uma simples festa. São convites à alegria, à renovação e ao encantamento que os Erês trazem a todos os que, nesse dia, se agraciam com doces, balas, frutas, sucos e refrigerantes espalhados pelo espaço coletivo.

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Na Umbanda, porém, cada culto carrega também reflexões culturais, sociais e políticas e, como não poderia ser diferente, essa data nos convida a pensar sobre o lugar das crianças em nossa sociedade, já que um dos princípios fundamentais da afroespiritualidade é a indissociabilidade entre o mundo dos vivos e o mundo dos que permanecem vivos depois da morte.

A presença das crianças na Umbanda nos obriga a refletir sobre a forma como a sociedade insiste em lhes roubar a infância. Em tempos em que a adultização das crianças, sobretudo negras e periféricas, se manifesta nas escolas, nas ruas e até nas instituições do Estado, o terreiro responde de forma contrária: protegendo, acolhendo e garantindo às crianças o direito de viver plenamente sua fase de crescimento.

Ao passo que as crianças espirituais ensinam leveza e brincadeira, o terreiro também se compromete com as “crianças vivas”, oferecendo-lhes um espaço onde podem se expressar, aprender e ser cuidadas sem pressa de crescer. Nesse processo, o terreiro devolve a noção de família ampliada, tornando-se um lugar seguro de convivência e proteção, onde a identidade de axé é cultivada com orgulho.

Ali, as crianças encontram um escudo contra o racismo, se relacionam com seus ancestrais, aprendem de forma lúdica, se envolvem nos ritmos dos tambores e se reconhecem como parte de uma rede que garante dignidade e pertencimento. Dessa maneira, o terreiro não apenas preserva a infância contra a adultização precoce, mas constrói caminhos para que cada criança cresça fortalecida em sua identidade e respeitada em seus direitos.

No terreiro, não existe a ideia de um espaço infantil apartado, isolado do convívio coletivo. As crianças fazem parte do cotidiano do axé, presentes nas festas de Exús e Pombagiras, gingando entre Pelintras e Padilhas, dançando ao som dos atabaques, convivendo com os animais que serão imolados e partilhando do alimento previamente consagrado. Essa experiência revela uma pedagogia própria, em que nada se ensina, mas tudo se aprende. Desse modo, o terreiro se distancia da noção convencional de religião e se afirma como uma organização da sociedade civil, capaz de reconstruir o lugar da família e do pertencimento na vida das pessoas.

Para o povo de terreiro, o ápice do mês de setembro é a gira das crianças. Diferente das giras de caboclos, pretos-velhos ou boiadeiros, a relação com os Erês exige outra postura: é preciso se despir das defesas adultas, abandonar bloqueios e se permitir rir, brincar, rodear-se de bexigas, sentar no chão, aceitar um doce colorido ou um apelido inventado na hora.

É nesse movimento de entrega à simplicidade da infância que o axé se manifesta, não como orientação direta, mas como um recado que vem de longe e afirma: a vida pode ser reinventada entre sorrisos e lágrimas. Ou, como diz Emicida, “clareza na ideia; pureza no coração; sentimento como guia; honestidade como religião.”

Ainda assim, participar de uma gira de Erês é mais do que assistir a uma festa. É mergulhar em um chamado profundo para revisitar aquilo que, em muitos de nós, foi silenciado ou roubado no tempo da infância.

No riso espontâneo dos Erês, nas músicas que embalam seus passos ou ainda na vontade de chorar um choro que não se explica, cada pessoa encontra a oportunidade de resgatar pedaços de si mesma que ficaram esquecidos nas encruzilhadas da vida. Para aqueles que não puderam viver plenamente a experiência de serem crianças, a gira oferece uma segunda chance: brincar sem medo, rir sem vergonha, acreditar que a vida também pode ser leve.

Essa experiência não é apenas simbólica, mas eminentemente transformadora, pois abre espaço para que cada corpo adulto reencontre sua criança interior e, nesse encontro, cure feridas que o tempo não apagou. Ao se permitir esse retorno, cada pessoa descobre que o axé dos Erês não se limita à proteção das crianças, mas se estende como convite a todos nós: reaprender a sonhar, rir, brincar e celebrar a vida em sua forma mais simples e verdadeira, até porque os Erês nos lembram que os ancestrais do futuro já caminham entre nós.

Saravá a Ibeijada!

Viva as crianças!

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Sacerdote e Pai-de-Santo de Umbanda do Terreiro Aruanda, em São Paulo. Mestre em Ciência da Religião pela (PUC-SP) e doutorando em Ciências pela USP (FFLCH). Pesquisa o sincretismo nas religiões de matrizes africanas, sobretudo as sequelas provocadas nos terreiros de Umbanda. É autor do livro "Sincretismo na Umbanda - pactos e impactos na identidade dos povos de terreiro". Apresenta o podcast “Atina pra Isso!”, onde promove um mergulho em saberes tradicionais de terreiros e cultura afro-brasileira.

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