“A música pode ser um excelente instrumento para promover a conexão e a confiança entre alunos e professores, criando um ambiente de acolhimento e segurança, e contribuindo para que as crianças se sintam mais confortáveis e dispostas a conversar sobre o tema”, diz o professor de uma escola privada de Nilópolis (RJ), que viralizou nas redes sociais ao usar canções para abordar o abuso sexual infantil com alunos do Ensino Fundamental.
Leonardo Henrique Grenha dos Santos, de 20 anos, conhecido como Tio Léo e morador de Mesquita (RJ), acumulou, até a publicação deste texto, cerca de 2,3 milhões de visualizações em uma postagem no Instagram publicada em 17 de maio.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
No vídeo, o jovem educador, apaixonado por ensinar, utiliza uma ilustração do corpo humano para ensinar, cantando uma música da Boneca Juju.
Enquanto canta os versos, os alunos o acompanham com naturalidade, atentos à mensagem: partes do corpo não devem ser tocadas por outras pessoas. “A música pode ser uma excelente aliada para tratar desse tema tão complexo, pois facilita a compreensão de forma simples, lúdica e leve”, afirma.
O sonho de ensinar
Tio Léo é estudante do segundo período de Pedagogia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Desde a infância, sonha em estar na sala de aula. “Mesmo sem ter inspiração em parentes próximos, sempre admirei meus professores e quis ser como eles”, conta o jovem.
Durante a adolescência, Leonardo passou a conviver mais de perto com educadores e lideranças comunitárias em atividades com crianças em situação de vulnerabilidade. Foi nesse contexto que sua vontade de ensinar se conectou a uma preocupação social ainda mais urgente: proteger a infância.
“Ao começar a estudar sobre esse tema [abuso sexual infantil], me deparei com situações e pesquisas que me deixaram indignado e inconformado”, diz ele, referindo-se aos altos índices de violência sexual contra crianças, especialmente negras.

Só para se ter uma ideia, em 2023, o Brasil contabilizou aproximadamente 84 mil ocorrências de estupro, segundo dados do 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A maioria dessas vítimas era do sexo feminino, representando 88,2% dos casos. O levantamento também evidencia que mais de 50% das vítimas eram meninas negras.
Apesar de reconhecer que o assunto ainda é um tabu, Leonardo defende que o silêncio precisa ser rompido. “Enquanto nos calamos e fechamos os olhos para essa realidade, a cada hora, três crianças são vítimas de abuso. Precisamos deixar claro que todo e qualquer tipo de carinho que deixa a criança com raiva, tristeza ou desconforto é abuso!”.
Após a repercussão positiva de seu vídeo, ele se sente ainda mais certo da escolha que fez ao apostar na docência. “Fiquei muito feliz; foi a certeza de que eu estava fazendo o trabalho certo, mesmo em meio a tantas cobranças e dificuldades que, às vezes, nos fazem desacreditar do nosso trabalho.”
Para Leonardo, ver sua mãe expressar orgulho tem um significado ainda maior: “É esse orgulho que sinto… de não ser um jovem negro preso, morto, roubado, etc.”