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Livro de Cecília Olliveira expõe engrenagem política das milícias do Rio de Janeiro

Em entrevista à Alma Preta, a jornalista e fundadora do Instituto Fogo Cruzado fala sobre a expansão das milícias no Rio de Janeiro, tema de seu novo livro
A jornalista Cecília Olliveira.

A jornalista Cecília Olliveira.

— Reprodução / Cecíllia Oliveira

13 de junho de 2025

A jornalista investigativa Cecília Olliveira lança, na próxima segunda-feira (16), o livro “Como nasce um miliciano”, publicado pela editora Bazar do Tempo. A partir da trajetória do ex-policial militar Carlos Eduardo Benevides Gomes, o Cabo Bené, morto em uma operação, em 2020, a obra analisa as relações entre milícias, forças de segurança e estruturas de poder institucional.

Reconhecida por sua atuação no jornalismo investigativo com foco em segurança pública, Cecília Olliveira é fundadora do Instituto Fogo Cruzado e uma das principais especialistas no mapeamento de violência armada no Brasil.

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Utilizando a história do Cabo Bené, a publicação apresenta uma análise estrutural da política de segurança pública no estado do Rio de Janeiro, com base em documentos sigilosos, depoimentos inéditos e investigações que atravessam quase duas décadas.

Em entrevista à Alma Preta, a jornalista afirma que a milícia não deve ser tratada como um poder paralelo, mas como uma continuidade do próprio Estado. 

“A milícia não quer destruir o Estado. Ela quer usá-lo para lucrar, se proteger, eleger aliados e controlar territórios. Quando a gente entende que a milícia é o Estado operando de forma distorcida, a conversa sobre segurança pública precisa mudar completamente”, afirma.

Expansão territorial das milícias 

Segundo dados do livro, as áreas sob domínio de milícias na Região Metropolitana do Rio de Janeiro cresceram 387% em 16 anos. Atualmente, cerca de 10% do território da Grande Rio está sob controle desses grupos armados.

Para a jornalista, a expansão da atuação miliciana no território fluminense tem relação direta com a ineficiência das instituições do Estado. 

“O avanço desses grupos não se resume à corrupção dentro das corporações e é impulsionado pelas falhas institucionais. […] Do ponto de vista institucional, o controle interno da polícia é falho, o Ministério Público muitas vezes se omite e o Judiciário é seletivo. Muita investigação esbarra em blindagens internas ou simplesmente não vai para frente”, explica.

Olliveira defende que é necessário mudar o debate sobre segurança pública, a partir da compreensão de que os grupos milicianos não são um poder paralelo e sim uma “continuação do Estado operando de forma distorcida”. 

“Porque não se trata apenas de repressão ao crime — trata-se de responsabilizar estruturas que estão dentro das instituições. A milícia não quer destruir o Estado. Ela quer usá-lo para lucrar, se proteger, eleger aliados e controlar territórios. Isso significa que políticas de segurança não podem se limitar a operações pontuais”.

A especialista em segurança pública alerta para o risco de replicação do fenômeno das milícias no Rio em outros estados. 

“O modelo que começou no Rio já está em exportação há algum tempo. Estados como São Paulo, Bahia, Ceará, Amazonas, Pará, Pernambuco e Paraíba já identificam estruturas muito parecidas. Locais com ausência do Estado, com economia informal forte e com penetração de agentes públicos corruptos são terrenos férteis para a milícia crescer”.

‘Mais arriscado do que falar de tráfico’

A autora ressalta que a produção da obra exigiu cuidados específicos, tanto no processo de apuração quanto no tratamento das informações, com atenção especial aos deslocamentos, segurança digital e proteção das fontes. 

“Falar de milícia é muito mais arriscado do que falar de tráfico. Porque você está lidando com gente que tem acesso direto a informações internas, que circula dentro da política, da polícia, e que tem controle sobre o território e sobre as pessoas”, afirma

Além dos cuidados técnicos e operacionais, Cecília destaca que os riscos não se restringem à integridade física, mas também envolvem ameaças institucionais e simbólicas.

“Você está mexendo com estruturas que têm influência direta sobre forças de segurança, prefeituras, câmaras municipais e até setores do Judiciário. É um tipo de investigação que pode ser desacreditada, silenciada ou criminalizada antes mesmo de chegar ao público”, afirma

Sobre a expectativa em relação à recepção da obra, a autora espera que o livro contribua para deslocar o foco do debate público sobre segurança.

“A gente fala muito de violência armada, mas pouco sobre quem comanda essa violência, como ela se estrutura e quem lucra com ela. Se esse livro puder ajudar a desmontar a ideia de que milícia é ‘crime menor’ ou ‘alternativa ao tráfico’, já terá cumprido um papel”, completa. 

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

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