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Kalemie: cidade congolesa vive na rota da guerra e à espera do acordo de paz

Capital da província de Tanganyika fica a 386 km de Uvira, cidade que enfrenta ataques do grupo rebelde M23 com apoio de Ruanda no fim do mês passado. Acordo de paz pode ser assinado nesta sexta-feira (27).
Pedro Borges/Alma Preta

Refugiada congolesa em Kalemie, cidade que corre o risco de ser o próximo alvo do grupo rebelde M23.

— Pedro Borges/Alma Preta

26 de junho de 2025

Na fronteira da República Democrática do Congo (RDC) com a Tanzânia, na região leste, moradores da cidade de Kalemie vivem entre a esperança e o medo. 

Esperança porque um novo acordo de paz entre a RDC e Ruanda deve ser assinado na próxima sexta (27), sob a supervisão dos EUA. Medo pelo fato de a capital da província de Tanganyika ser a próxima grande parada na rota de expansão do M23, grupo rebelde apoiado por Ruanda que avança em direção ao sul do país. 

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Kalemie fica distante 386 quilômetros de Uvira, segunda grande cidade da província Kivu do Sul que enfrenta ataques do grupo M23 desde o fim de maio. Na última semana, aconteceram combates entre o grupo rebelde e o exército congolês, que está sendo apoiado pelos Wazalendoo, milícia armada pró-Kinshasa.  

O objetivo do M23 é chegar a Lubumbashi, cidade mais rica da RDC, que sedia as maiores empresas de mineração do país.

Os diálogos de paz estão fundamentados no conceito de soberania territorial, e a expectativa é que as tropas de Ruanda se retirem do território congolês em breve.

Esse, contudo, não é o primeiro acordo de paz feito para a região, que convive com conflitos desde 1996, quando se iniciou o que ficou conhecida como a Primeira Guerra do Congo. Em julho do ano passado, Angola mediou um tratado que foi assinado pela RDC e por Ruanda, mas foi ignorado.

Combates em Uvira afetam a vida em Kalemie

Os conflitos em Uvira assustam os moradores de Kalemie. Um mototaxista entrevistado descreveu a cidade como insegura: “A guerra em Uvira é próxima”, disse. Desconfiado das perguntas, disse acreditar que o exército congolês é capaz de vencer o conflito.

Especialista ouvido pela reportagem não tem a mesma opinião. Kaganda Mulume-Oderhwa Philippe Doudou, diretor do Centro de Pesquisa e Estudos sobre Conflito e Paz, diz duvidar que o exército congolês, mesmo com o apoio dos Wazalendoo, tenha a capacidade de derrotar o M23 e Ruanda em Uvira. 

“Falta organização, falta coordenação entre o exército congolês e os Wazalendoo, para além do suporte de Ruanda para o M23″, explica Doudou.

A avaliação dele é que o exército congolês não tem capacidade de recuperar via forças armadas as cidades de Goma e Bukavu, onde existem bases mais sólidas de Ruanda.

Lembrando que Goma, capital do Kivu do Norte, foi tomada em 27 de janeiro; Bukavu, capital do Kivu do Sul, em 17 de fevereiro.

Atualmente, o exército de Ruanda está presente na região, em parte da vila de Katogota, na fronteira com a cidade de Kamanyola, ocupado pelo M23. Os dois locais são próximos de Uvira.

A vila de Katagota vive conflitos, de um lado o M23, com aliados de Ruanda, e uma outra área com exército de Burundi, aliados dos congoleses.

A vida continua em Kalemie

A despeito dos conflitos e das ameaças, a vida segue normalmente às margens do imenso Lago Tanganyika, que tem 1,8 quilômetros de largura. Pessoas tomam banho em suas praias, outras bebem nos pequenos quiosques à beira das águas do segundo maior lago africano. 

Mulheres lavam roupas às margens do Lago Tanganyika, que avançou sobre os trilhos do trem – Pedro Borges/Alma Preta.

No domingo, 15 de junho, foi possível ver um casamento ao ar livre. Os noivos estavam propriamente vestidos e posavam para uma sessão de fotos junto dos padrinhos, todos de roupas sociais. Atrás dos fotógrafos, algumas pessoas celebravam, com copos de bebidas nas mãos.

O ambiente em Kalemie é o de uma cidade de médio porte, com cerca de 150 mil habitantes em 2012, de acordo com diversas fontes consultadas pela reportagem. Comerciantes caminham pelo centro da cidade, homens trabalham na pesca, mulheres limpam roupas às margens do lago, crianças brincam nas águas. 

A cidade tem um centro comercial agitado, com pessoas vendendo sobretudo alimentos, como frutas, peixes, amendoim e mandioca. Pelas vias, as pessoas circulam principalmente em motocicletas, como também se observava na capital Kinshasa.

Mama Bibi Mwayuma, 53 anos, é comerciante na cidade de Kalemie e tem mantido sua rotina. Chega em sua loja entre as 7h30 e 8h e volta para a casa por volta das 18h. Apesar da aparente normalidade, a comerciante sente uma grande diferença desde o início do conflito, a inflação.

“Os preços das coisas subiram muito. Eu vejo as pessoas comprarem os alimentos com muita dificuldade”, afirma.

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Mwayuma contou que diversos alimentos básicos vinham da cidade de Bukavu, hoje tomada pelo M23. Com isso, houve uma maior dificuldade de transportar os alimentos para a região de Kalemie. Os ataques também paralisaram a produção de agricultores.

Como exemplo, o leite. Antes, em janeiro, um saco de 25 quilos custava US$ 100, hoje a mesma quantia é US$ 150. Um saco de açúcar de 50 quilos era vendido a US$ 50 e hoje está no valor de US$ 80. Uma embalagem com 20 litros de óleo custava US$ 30 e hoje está a US$ 50. Itens menos básicos, como cerveja, também vêm da cidade do Kivu do Sul e aumentaram de preço.

Dados das Nações Unidas mostram que, em 2025, 27 milhões de pessoas (aproximadamente um quarto da população congolesa) enfrentam severa insegurança alimentar. Os mais afetados vivem justamente no leste do país, segundo o documento. 

Tropas circulam e lembram que há guerra

O que chama atenção e quebra o cenário bucólico em Kalemie é a constante movimentação de tropas do exército congolês pela cidade.

Caminhões abertos com militares são vistos pelas ruas a todo momento, com a presença de barreiras nos arredores da cidade. Eles são mais presentes nas estradas que conectam a cidade e na região central. Em cada um dos caminhões tem mais de 10 militares, todos com fuzis.

Em pouco mais de dois meses, o M23 conquistou duas grandes cidades no leste só no início deste ano. Mas, nos últimos meses, o M23 passou a ter vitórias mais tímidas.

Segundo militares congoleses, a tomada das duas capitais contou com a participação mais ativa do exército de Ruanda, enquanto nos combates seguintes, como no ataque à Uvira no fim de maio, a atuação do país vizinho foi menos direta.

Refugiados creem na paz após saída do M23 de Bukavu e Goma

O campo de refugiados Tanganyika fica no limite da cidade de Kalemie, em uma região que tem características mais rurais do que urbanas. Lá, habitam 1.627 mil famílias, de acordo com a Comissão Nacional de Refugiados da RDC.

A refugiada Bade Wa Munga Virginie, 70, ex-moradora de Bukavu. – Pedro Borges/Alma Preta.

Bade Wa Munga Virginie, uma mulher de 70 anos e antiga habitante de Bukavu, tomada pelo M23 em 17 de fevereiro, contou que a chegada da milícia à cidade foi um momento difícil.

“Não tinha a possibilidade de procurar comida. A gente ficou trancado dentro de casa. Se a gente tivesse seguido lá, talvez tivéssemos morrido de fome. Por isso tomamos a decisão de sair de Bukavu e ir para um lugar onde dá para encontrar comida”, contou.

“Eu quero que os rebeldes deixem a cidade de Bukavu. Assim que saírem, a paz vai voltar, e eu poderei voltar para a minha casa”, anseia Bade.

Emmanuel Guy Dadeje, membro da Comissão Nacional de Refugiados, acompanha os campos de deslocados internos e refugiados da cidade e conta que existem aqueles que preferem por se integrar à vida local e comunitária, enquanto outros optam por retornar ao local de origem assim que possível. 

Ele ainda sinaliza para a existência de uma divisão de tarefas, com a presença de outras ONGs que oferecem suportes complementares ao Estado.

“Promoveremos o acesso à água. Outros promoverão o acesso à educação e à saúde. E construiremos uma vila. Chamamos isso de vila de retorno ou de reintegração”, contou.

Conflitos étnicos persistem em Tanganyika

O acordo de paz e a possível retirada das tropas de Ruanda e mesmo do M23 das cidades de Goma e Bukavu não significam a paz na região leste da República Democrática do Congo. 

O país convive com conflitos étnicos na região, alguns manipulados por países vizinhos, como Ruanda e Uganda, outros não. Há uma estimativa de mais de 100 grupos armados na região, segundo a Cruz Vermelha.

A província de Tanganyika convive com um conflito desde 2015 entre os pigmeus e os bantus. As acusações são de que os pigmeus não são produtores de alimentos, têm características de nômades e ocupam os territórios dos bantus como forma de conseguir alimentos.

Kyalwe Mudimba é um agricultor que mora no bairro Kahinda, a 5 quilômetros do centro da cidade. Desde janeiro, ele está sem acesso a sua produção agrícola. Ela está ocupada por homens armados da etnia pigmeu.

“Não tem nenhuma relação com o M23. Eles lutam há muito tempo”, afirma o agricultor.

Ele reclama, afirmando que eles fazem isso para tomar a produção agrícola da população local. “Eles costumam fazer isso nos campos de muitas pessoas. Eles não querem cultivar”, denuncia Mudimba.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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