Nesta quinta-feira (19), em visita ao campo de deslocados internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo (RDC), a Alma Preta se deparou com um cenário de desalento. Os refugiados da guerra que assola essa região do país — uma das mais letais do planeta — vivem em situação precária e aguardam esperançosos, apesar de traumatizados, um acordo de paz.
Com barracas feitas de palha e madeira, o campo de refugiados abriga cerca de 1,6 mil famílias e recentemente sofreu um incêndio. O campo de Tanganyika está localizado em uma província homônima, próximo à cidade de Kalemie e à província de Kivu do Sul, uma das regiões mais instáveis do país devido ao conflito entre o grupo rebelde M23, supostamente apoiado por Ruanda, e o Exército da RDC.
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A guerra, no entanto, pode estar próxima de uma trégua. Na quarta-feira (18), um comunicado conjunto de Estados Unidos, RDC e Ruanda apontou que um acordo de paz entre os países africanos deve ser assinado em 27 de junho, daqui a uma semana. Com idas e vindas, o conflito na RDC já dura décadas e estima-se que tenha vitimado milhões de pessoas.
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O acordo inclui medidas sobre integridade territorial e cessar-fogo, além de desarmamento, integração de grupos armados não-estatais, integração econômica regional e a facilitação do retorno de refugiados e deslocados internos, que aguardam o desfecho para voltar à vida normal.

Com dificuldades, refugiados esperam pela paz
À Alma Preta, Mukwamba, um homem de 43 anos, um dos refugiados do campo de Tanganyika, conta que vivia em Kivu do Sul — cuja capital, Bukavu, foi tomada pelo M23 em 16 de fevereiro — e afirma que aguarda o acordo de paz “independente das condições”. Essa visão é compartilhada por diversas pessoas ouvidas em suaíli pela reportagem em Tanganyika, que abriga uma maioria de jovens e mulheres, além de muitas crianças.
Vinda de Bukavu, a cerca de 500 km dali, Virginie conta à Alma Preta que a chegada do grupo M23 à sua cidade passou a impedi-la de conseguir comida. Com medo de morrer de fome, ela decidiu deixar o local e conseguiu abrigo no campo de refugiados.
Apesar de afirmar que não está a par das discussões, a congolesa apoia o avanço na direção de um acordo de paz para que possa voltar a ter uma vida normal. A mulher, que vendia legumes em tempos sem conflitos, hoje vende areia do lago Tanganyika para construtores.
No assentamento, diversas pessoas tentam achar ocupações em meio à situação de desalento. Há uma pequena plantação de mandioca e alimentos para subsistência no campo, mas os refugiados enfrentam dificuldades.
É o caso de Antoinette, que vive com cinco filhos no campo de Tanganika. À Alma Preta, a congolesa conta que vivia na cidade de Goma, a cerca de 700 km, mas foi obrigada a deixar tudo para trás com a chegada do M23 ao local, em fevereiro deste ano. A cidade foi tomada pelo M23 em 27 janeiro deste ano.

Antoinette relata que é difícil criar laços no campo de refugiados e conta que se perdeu do marido na fuga de Goma. Ela afirma que não tem mais contato com nenhuma pessoa conhecida.
A refugiada vendia farinha e espera o restabelecimento da paz para voltar a trabalhar nessa atividade. Para ela, a notícia de que há um acordo de paz em andamento é novidade e traz esperança de que possa viver melhor.
A congolesa afirma, no entanto, que esse é um problema do governo e que “assuntos políticos” não a interessam, uma vez que não confia em políticos.
“Quando eles precisam da população, vêm fazer campanha, e quando são eleitos, só pensam na própria família e esquecem das pessoas que os elegeram”, diz.
Antoinette é taxativa e diz que as únicas coisas que importam para ela são Deus e a vida de seus filhos.

Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025 (Foto: Pedro Borges/Alma Preta) 
Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025 (Foto: Pedro Borges/Alma Preta) 
Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025 (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)