PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Para refugiados, acordo de paz entre Congo e Ruanda é motivo de esperança

O campo de Tanganyika abriga cerca de 1,6 mil famílias em barracas feitas de palha e madeira. Ele fica próximo à cidade de Kalemie e à província de Kivu do Sul, uma das regiões mais instáveis do país.
Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025

Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025

— Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025 (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

19 de junho de 2025

Nesta quinta-feira (19), em visita ao campo de deslocados internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo (RDC), a Alma Preta se deparou com um cenário de desalento. Os refugiados da guerra que assola essa região do país — uma das mais letais do planeta — vivem em situação precária e aguardam esperançosos, apesar de traumatizados, um acordo de paz.

Com barracas feitas de palha e madeira, o campo de refugiados abriga cerca de 1,6 mil famílias e recentemente sofreu um incêndio. O campo de Tanganyika está localizado em uma província homônima, próximo à cidade de Kalemie e à província de Kivu do Sul, uma das regiões mais instáveis do país devido ao conflito entre o grupo rebelde M23, supostamente apoiado por Ruanda, e o Exército da RDC.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

A guerra, no entanto, pode estar próxima de uma trégua. Na quarta-feira (18), um comunicado conjunto de Estados Unidos, RDC e Ruanda apontou que um acordo de paz entre os países africanos deve ser assinado em 27 de junho, daqui a uma semana. Com idas e vindas, o conflito na RDC já dura décadas e estima-se que tenha vitimado milhões de pessoas.

Crise humanitária na RD Congo:

O acordo inclui medidas sobre integridade territorial e cessar-fogo, além de desarmamento, integração de grupos armados não-estatais, integração econômica regional e a facilitação do retorno de refugiados e deslocados internos, que aguardam o desfecho para voltar à vida normal.

Refugiados jogam futebol no Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025
Refugiados jogam futebol no Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025 (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Com dificuldades, refugiados esperam pela paz

À Alma Preta, Mukwamba, um homem de 43 anos, um dos refugiados do campo de Tanganyika, conta que vivia em Kivu do Sul — cuja capital, Bukavu, foi tomada pelo M23 em 16 de fevereiro — e afirma que aguarda o acordo de paz “independente das condições”. Essa visão é compartilhada por diversas pessoas ouvidas em suaíli pela reportagem em Tanganyika, que abriga uma maioria de jovens e mulheres, além de muitas crianças.

Vinda de Bukavu, a cerca de 500 km dali, Virginie conta à Alma Preta que a chegada do grupo M23 à sua cidade passou a impedi-la de conseguir comida. Com medo de morrer de fome, ela decidiu deixar o local e conseguiu abrigo no campo de refugiados.

Apesar de afirmar que não está a par das discussões, a congolesa apoia o avanço na direção de um acordo de paz para que possa voltar a ter uma vida normal. A mulher, que vendia legumes em tempos sem conflitos, hoje vende areia do lago Tanganyika para construtores.

No assentamento, diversas pessoas tentam achar ocupações em meio à situação de desalento. Há uma pequena plantação de mandioca e alimentos para subsistência no campo, mas os refugiados enfrentam dificuldades.

É o caso de Antoinette, que vive com cinco filhos no campo de Tanganika. À Alma Preta, a congolesa conta que vivia na cidade de Goma, a cerca de 700 km, mas foi obrigada a deixar tudo para trás com a chegada do M23 ao local, em fevereiro deste ano. A cidade foi tomada pelo M23 em 27 janeiro deste ano.

Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025
Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025 (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Antoinette relata que é difícil criar laços no campo de refugiados e conta que se perdeu do marido na fuga de Goma. Ela afirma que não tem mais contato com nenhuma pessoa conhecida.

A refugiada vendia farinha e espera o restabelecimento da paz para voltar a trabalhar nessa atividade. Para ela, a notícia de que há um acordo de paz em andamento é novidade e traz esperança de que possa viver melhor.

A congolesa afirma, no entanto, que esse é um problema do governo e que “assuntos políticos” não a interessam, uma vez que não confia em políticos. 

“Quando eles precisam da população, vêm fazer campanha, e quando são eleitos, só pensam na própria família e esquecem das pessoas que os elegeram”, diz.

Antoinette é taxativa e diz que as únicas coisas que importam para ela são Deus e a vida de seus filhos.

  • Refugiados do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025
  • Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025
  • Pessoa refugiada do Campo de Deslocados Internos de Tanganyika, no leste da República Democrática do Congo, 17 de junho de 2025

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

  • Solon Neto

    Cofundador e diretor de comunicação da agência Alma Preta Jornalismo; mestre e jornalista formado pela UNESP; ex-correspondente da agência internacional Sputnik News.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano