Cuidar da primeira infância é responsabilidade coletiva, especialmente em contextos marcados pela desigualdade. Os primeiros anos de vida são essenciais para o desenvolvimento integral das crianças. Garantir vínculos, afeto e ambientes seguros é fundamental, sobretudo em contextos de desigualdade.
A partir desse entendimento, nasceu a campanha “Territórios do Cuidado”, que vem mobilizando comunidades periféricas em torno do desenvolvimento integral das crianças de zero a seis anos.
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Criada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, a iniciativa promove vínculos afetivos, escuta e brincadeiras como pilares essenciais para um início de vida saudável.
No centro dessa mobilização está Nelson, o Nenê, personagem criado em 2020, que se tornou símbolo do cuidado coletivo e da valorização da infância negra. Com uma linguagem lúdica e próxima da realidade das periferias, Nelson atua como ponte entre famílias, educadores e lideranças locais, reforçando o papel de cada pessoa na construção de ambientes seguros e afetivos.
O guia de replicação da campanha foi pensado para apoiar organizações sociais e lideranças comunitárias dispostas a levar essa transformação para seus territórios. Em 2024, a campanha se expandiu para cinco estados brasileiros — Alagoas, Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo — impactando mais de 3 mil pessoas e fortalecendo redes de cuidado já iniciadas em 2023, no projeto-piloto da Favela dos Sonhos (SP).
Ao promover ações territorializadas e baseadas na escuta e na participação comunitária, a campanha reafirma que o cuidado na primeira infância não é tarefa de poucos, mas um compromisso de todos com o presente e o futuro das crianças brasileiras.
Resultados concretos e fortalecimento das redes locais
O relatório final da iniciativa, em 2024, aponta um crescimento no número de pessoas envolvidas diretamente no cuidado das crianças, que passou de 16% para 20%, enquanto a proporção de quem não tinha contato com elas caiu de 14% para 10%.
As famílias também passaram a ser a principal fonte de consulta sobre cuidados infantis, substituindo o cenário anterior de pouca busca por informações. Atividades como o Papo de Responsa e a Oficina do Brincar reuniram mais de 1.255 participantes, reforçando valores essenciais ao desenvolvimento infantil, como acolhimento, conforto e segurança.
Além disso, ações culturais — cinema comunitário, grafite, oficinas de fotografia, pintura de muros e jantares coletivos — fortaleceram os laços locais, criando espaços de convivência que ampliam o alcance do cuidado.
Representatividade negra e educação antirracista permanente
A escolha de Nelson, o Nenê como personagem negro foi intencional, refletindo a realidade da maioria das crianças brasileiras. “O Nelson não é negro por acaso. Foi uma decisão consciente para representar a cara do Brasil, onde a maior parte das crianças é negra ou parda”, afirma Sarah Maia, líder de Sensibilização da fundação.
O projeto vai além do simbolismo, incorporando a educação antirracista como um tema constante, valorizando a ancestralidade e respeitando as diferenças ao longo do ano, e não apenas em datas comemorativas.
Essa abordagem integral reconhece os impactos negativos do racismo e do estresse na saúde emocional e no desenvolvimento infantil, destacando a importância do afeto e do cuidado para fortalecer a autoestima e o bem-estar das crianças.
Ainda segundo a líder, Nelson, o Nenê funciona como um instrumento de aproximação com as famílias, incentivando a reflexão sobre identidade racial desde os primeiros anos.
Construção coletiva e mediação do cuidado nos territórios
Nas ações da campanha, a escuta atenta às comunidades é um dos aprendizados centrais. Sarah Maia destaca o trabalho em conjunto com a professora Juliana Prates, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) para o desenvolvimento da iniciativa.
“A comunicação nos territórios é sensível ao que acontece em cada lugar”, explica Sarah, ressaltando que toda a campanha é cocriada com as lideranças locais, que conhecem profundamente sua realidade.
A diversidade permeia a equipe e o desenvolvimento dos conteúdos, garantindo o respeito às particularidades culturais e sociais. Essa construção coletiva, baseada no diálogo constante, é um dos grandes valores do projeto, permitindo ajustar as estratégias para que o cuidado à primeira infância seja efetivo.
Quanto à mediação do Nelson, o Nenê, Sarah enfatiza que, embora a fundação ofereça suporte, “quem mobiliza e faz acontecer são as lideranças comunitárias”. Elas identificam as mensagens e os meios mais adequados para alcançar as famílias, e o processo é avaliado continuamente para garantir os resultados.
O fortalecimento da responsabilidade coletiva pelo cuidado das crianças é um dos efeitos mais marcantes. “Em todos os territórios, ficou claro que a criança é responsabilidade de todos”, conta Sarah.
Uma pesquisa externa confirmou que as comunidades reconhecem a importância do cuidado compartilhado, que muitas vezes ultrapassa os muros das casas. Para que esse cuidado não recaia só sobre as mulheres, o projeto estimula a participação dos pais, promovendo uma paternidade afirmativa.
No Rio de Janeiro, por exemplo, camisetas com frases como “Sou um pai de responsa” foram usadas para engajar as famílias; em Fortaleza, rodas de conversa e passeios de caiaque fortaleceram esses vínculos. Cada território encontrou sua própria forma de mobilização, gerando engajamento real, como na Favela do Inferninho, onde a participação dos pais em apresentações culturais cresceu após a campanha.

Além disso, o projeto tem deixado um legado de novas ações. Em Minas Gerais, foi criada uma roda de mães atípicas para apoiar crianças neurodivergentes; outros territórios organizaram grupos de escuta infantil e redes de apoio para mulheres.
Para Sarah, o maior legado é essa “mosquinha” que desperta o olhar para a primeira infância, promovendo continuidade e reflexão sobre o cuidado integral. Sobre a atuação do Nelson, o Nenê, destaca que ele é a voz das mensagens construídas coletivamente, sendo presença constante em vídeos, áudios e materiais da campanha.
Maia ainda afirma que o nome, que homenageia o avô, reforça os vínculos familiares e a memória ancestral, tornando Nelson, o Nenê uma ponte poderosa para falar de cuidado, identidade e representatividade.
“Ele funciona como uma ponte para dialogar sobre temas essenciais ao desenvolvimento das crianças na primeira infância. A representatividade importa, e Nelson aborda essa questão com afeto, presença e propósito sempre que possível”, finaliza.
Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.
