Em 25 de julho é celebrado o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data convida à reflexão sobre a luta histórica das mulheres negras por direitos, equidade e respeito.
A celebração também propõe reimaginar narrativas, vivências e experiências das mulheres negras. A arte se torna linguagem capaz de resgatar a beleza, a ancestralidade e o cotidiano, rompendo com os estereótipos sobre o corpo e a vivência negra feminina.
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A Alma Preta conversou com Nina Satie e Mayara Amaral, duas artistas visuais brasileiras que, com suas telas, criam novos universos e subjetividades para o mulherismo negro brasileiro.
Com diferentes estilos e linguagens, ambas compartilham a ideia de reconstruir o imaginário, recusando os lugares-comuns e criando espaços simbólicos onde a delicadeza, o afeto e a introspecção ganham destaque.
Mayara Amaral
Natural da cidade de São Paulo, Mayara Amaral é uma artista visual, arte-educadora e trancista da Vila Mara, extremo leste de São Paulo.
Atuando em diferentes linguagens, suas obras são marcadas por uma paleta vibrante e personagens femininas com corpos diversos que, com sutileza, criticam os estereótipos impostos às mulheres negras.
Suas obras colocam mulheres negras no centro da narrativa, representadas com liberdade, diversidade de corpos e referências à ancestralidade afro-brasileira.Mayara conta que suas imagens transitam entre memórias pessoais, o cotidiano da periferia e as experiências de pessoas próximas.
“Minha arte fala um pouco sobre imaginários que já vivi e também sobre sonhos que anseio viver, mas trazendo essas imagens pro mais próximo possível da minha própria realidade”, destaca.

Mayara busca romper com o imaginário da “mulher negra forte” e outros padrões impostos às negras, sobretudo o estético. Com sensibilidade e senso crítico, ela busca apresentar narrativas que toquem o público e promovem reflexões sobre o tema.
“Acredito que na mesma proporção que mostro muita sensibilidade seja nos temas, títulos ou a própria obra em si também vou quebrando paradigmas sobre o estereótipo da mulher negra forte, sobre as vivências múltiplas dentro da periferia e sem perder meu eu político, entre outras questões que vão do pensar ao pintar”, conta.
Para a artista, é importante pintar novos horizontes sobre o cotidiano da comunidade negra e periférica. Ao evitar o foco na dor, Mayara valoriza a pluralidade e reforça que pessoas periféricas têm mais a oferecer do que o sofrimento.
“Quando evito mostrar situações de vulnerabilidade não é pra maquiar o que não existe ou pintar um ‘mundo mais bonito’, mas pra nos lembrar que também temos outras possibilidades de existência. Possibilidades que não nos agridem, não nos machucam e não partem do trauma como um ponto de partida”.

Mayara relata que no início de sua formação artística replicava os padrões magros dos croquis de moda. Ao retratar corpos diversos em liberdade, a artista também realiza um exercício de cura e autoafirmação.
“Quando construí minha identidade, passei fazer corpos mais parecidos com os meus ou de amigas próximas. Corpos que sempre vi beleza, mas nem sempre via retratados como referência estética, não na minha geração. De certa forma meus trabalhos me ajudam a ver beleza em mim também”, completa.
Nina Satie
Nascida na capital paulista, Nina Satie também é uma artista visual que desenvolve a pluralidade da vivência negra feminina. Seu universo visual explora temas como autoimagem, sexualidade queer e mitologias afrodiaspóricas.
A artista afirma que sua arte pretende expor as camadas sutis e profundas do corpo social, especialmente da mulher negra, a partir de memórias ancestrais compartilhadas e não ditas.
Nina utiliza a arte como um espelho, permitindo que outras mulheres negras encontrem sentido em suas próprias vivências corporais. Suas obras constrói figuras negras femininas como corpos vivos e ancestrais em comunhão com a natureza.
“Busco transpor a rígida compreensão ocidental sobre o feminino negro agindo enquanto um espelho que outras mulheres negras possam erguer à sua frente”, conta.

Para a artista, as vivências das mulheres negras não podem ser reduzidas a narrativas homogêneas. Sua arte busca justamente revelar as camadas singulares de cada trajetória, mesmo quando atravessadas por experiências coletivas.
“Nosso corpo é a própria chave. Por isso, cada experiência será única e singular, ainda que inseridas num contexto de vivências sociais coletivas. É assim que mulheres negras caminham entre mundos”, explica.

Nina constrói narrativas fragmentadas que exploram os prazeres, dores e espiritualidade da feminilidade negra, representando o corpo feminino como território narrativo.
“Gosto de transitar por um espaço liminar onde estruturas fixas e a ordem lógica das coisas são subvertidas e reimaginadas. Nesse processo, passo a compreender minhas figuras femininas negras como corpos vivos, desprendidos, em simbiose com o mundo natural e suas criaturas, como numa eterna dança”, completa.