No Brasil, a infância nunca foi singular. Ainda que as narrativas predominantes insistam na universalidade, na prática vemos múltiplas experiências de ser criança e muitas delas são transpassadas pelo racismo.
É a partir dessa premissa que nasce o documentário “Mosaico de Infâncias”, um produto audiovisual que atravessa, com delicadeza e contundência, as camadas raciais e sociais que moldam a primeira infância no país.
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O filme, lançado nesta sexta-feira (15) pela iniciativa Mosaico de Primeira Infância e Equidade Racial e produzido pela Alma Preta, é resultado de uma ampla articulação construída desde 2022 por organizações de defesa dos direitos humanos e da população negra.
Sob direção e coordenação editorial de Vinicius Martins, e com roteiro de Aline Oliveira, o documentário reúne depoimentos de especialistas, lideranças comunitárias, pesquisadoras e ativistas que atuam na interseção entre educação, direitos das crianças e justiça racial.
O primeiro contato com o racismo
Ao longo da obra, o documentário rompe com o mito da “pureza infantil” e destaca que o racismo é experienciado desde os primeiros anos de vida, desconstruindo a ideia de que a primeira infância seria um território isento das violências estruturais que acometem pessoas negras, indígenas, quilombolas e periféricas.
“O trabalho do Mosaico é afirmar que não existe primeira infância no singular, existem primeiras infâncias no plural. Precisamos considerar essa diversidade de experiências quando falamos da primeira infância. Ao desconsiderar isso, o campo da primeira infância reforça o racismo, pois não vê a especificidade e o contexto desses múltiplos grupos de crianças, de múltiplas comunidades. E isso implica no não reconhecimento dessa diversidade e em práticas discriminatórias”, diz Jaqueline Lima Santos, antropóloga e pesquisadora, em trecho do filme.
Novos caminhos
Para além da denúncia, o documentário atua como proposição. Ao reunir pesquisadoras, lideranças, ativistas e instituições comprometidas com a justiça racial, o “Mosaico de Infâncias” desenvolve uma nova forma de pensar a infância, que parte do território, da ancestralidade e da oralidade.
“Território, se considerarmos as cosmogonias dos povos nativos do Brasil e africanos, é uma palavra que remete ao nosso lugar, nossos espaços e nossas referências. O corpo é território. É o conjunto de significados aos quais nos sentimos pertencentes. Pensando em uma criança, qual é o território de onde ela vem ou onde vive? Ignorar isso é olhar para esse corpo tentando compreendê-lo a partir de referências de outro território, outro lugar, outros significados”, aponta Clélia Prestes, coordenadora no AMMA Psique e Negritude, no filme.
Como apontam especialistas ouvidos no documentário, a produção de conhecimento sobre o desenvolvimento infantil no Brasil ainda é, majoritariamente, pautada por paradigmas europeus e pelo olhar sobre a criança branca de classe média. No campo da ciência, essa hegemonia se traduz em invisibilidade. No campo da prática, em exclusão.
Defesa da infância
Produzido com o apoio da Porticus, o documentário é uma das ações que integram o projeto Mosaico, que reúne movimentos em defesa da infância.
Entre proposições e ações, o Mosaico atua também na produção de conhecimento, formação de lideranças, participação em audiências públicas, proposições legislativas e no fortalecimento da presença negra em debates institucionais sobre o tema.
Participaram da construção do documentário as seguintes organizações: Able Digital, Ação Educativa, AFRO – Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial, AMMA Psique e Negritude, CDINN – Coletivo de Intelectuais Negras e Negros, CECIP – Centro de Criação de Imagem Popular, CEERT -Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades , Geledés – Instituto da Mulher Negra, Plan International, Porticus, Promundo e Redes da Maré.
FICHA TÉCNICA:
REALIZAÇÃO
Alma Preta
DIREÇÃO
Direção e Coordenação Editorial: Vinicius Martins
Roteiro e Pesquisa: Aline Oliveira
Coordenação Geral: Carol Moreno
Direção de Fotografia: Patrick Silva (SP, RJ), Fabio Barros (MA)
Apoio Jornalístico: Camila Viana
PRODUÇÃO EXECUTIVA
Produção Executiva: Elaine Silva e Victor Oliveira
Coordenação de Produção: Carol Moreno
Produção de campo (MA): Camila Viana
EQUIPE ADMINISTRATIVA E FINANCEIRA
Coordenação Financeira – Contas a pagar: Grazielle Silva
Coordenação Financeira – Contas a receber: Carla Pacheco
Assistente Administrativo: Regina Marta
Assistente administrativo e departamento pessoal: Bianca Silva
EQUIPE DE IMAGEM
São Paulo e Rio de Janeiro
Operador de Câmera 1: Patrick Silva
Operador de Câmera 2: Vinicius Martins
Assistente de Câmera e estúdio: Nicollas Duarte
Maranhão
Operador de Câmera 1 e 2: Fábio Barros
Assistente de Câmera: Vitoria Avelino Muniz
EDIÇÃO E FINALIZAÇÃO
Montagem e finalização: Richner Allan
Legendas: Aline Oliveira
IDENTIDADE VISUAL E COMUNICAÇÃO
Design Gráfico: Leonardo Gouveia
ENTREVISTADOS
Ednéia Gonçalves, Matheus Gato, Clélia Prestes, Carolina Telles, Valter Silverio, Jaqueline Lima Santos, Suelaine Carneiro, Tatiane Cosentino Rodrigues, Luis Felipe Serrao, Douglas Calixto, Ana Paula Maia, Raimundo Torres, Carlos Marra, Tábata Lugão.
AGRADECIMENTOS
Museu das Favelas
Centro de Artes da Maré
Areninha Cultural Hebert Vianna
Redes da Maré
Ação Educativa