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Especial Nina Rodrigues: polícia da Bahia mata Senegal dentro de igreja no Coração de Maria

Polícia afirma que foi recebida com tiros; familiares e vizinhos negam a versão e afirmam que houve uma execução.
Arte: Daniel Pereira/Alma Preta.

Jackson dos Santos, o Senegal, era um jovem negro de 22 anos que foi vítima da polícia da Bahia. 

— Arte: Daniel Pereira/Alma Preta.

29 de setembro de 2025

“Eles foram o juiz, o executor e o coveiro. Eu queria meu filho preso, mas que eu pudesse visitar, não enterrado dentro de um cemitério”, lamenta Carolina*, mãe de Jackson dos Santos, conhecido como Senegal. O jovem negro de 22 anos foi morto no dia 15 de março de 2024, por volta das 12h20, por policiais militares da Rondesp, a tropa de elite da Bahia.

Os algozes foram identificados como Reginaldo de Jesus Conceição, Icaro Leonard de Jesus Santos e William Gabriel Freitas Pinho.

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Senegal viu que a viatura de número 2.1110 da Polícia Militar da Bahia, do 49º batalhão, estava se aproximando. Então fugiu para dentro de um imóvel em construção, que era uma igreja inacabada no residencial Coração de Maria, no bairro Cassange. Testemunhas relatam que a polícia agrediu e torturou o jovem antes de executá-lo.

O caso de Jackson não é uma exceção. Dados da plataforma Fogo Cruzado mostram que no bairro da Vila Esperança, onde ocorreu o crime, houve 9 tiroteios em 2023, 7 causados pela polícia, e 7 em 2024, 6 causados pelos agentes de segurança. A Polícia Militar da Bahia matou 9 pessoas em 2023 e 5 em 2024 somente nesse bairro, segundo informações da plataforma.

Se ampliarmos o olhar para Salvador, a polícia baiana matou 300 pessoas em 2021. O número que subiu para 438 em 2022, 457 em 2023 e reduziu para 420 em 2024. Nesses quatro anos, as mortes violentas na cidade somaram 6.019 vítimas, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A narrativa que se repete

Segundo a família, Jackson dos Santos trabalhava como barbeiro e fazia bicos na descarga de frutas e legumes dos caminhões do Centro de Abastecimento da Bahia, o Ceasa. No momento em que foi morto, estava indo almoçar.

Os agentes de segurança afirmaram no boletim de ocorrência que Jackson Santos atirou contra eles. 

Não é o que diz o laudo do IML Nina Rodrigues. Análise no corpo da vítima não detectou “partículas de chumbo”, ou seja, resíduos de disparo de arma de fogo nas mãos de Jackson Santos.

“Ai eu pergunto: meu filho iria trocar tiro com a polícia com um revólver? Contra três policiais de fuzil? Por que eles não andam com arma pequena?”, questiona Carolina.

A polícia militar mostrou um revólver com cinco balas que diz ter apreendido com Jackson e usou dois fuzis na operação. 

O corpo de Senegal, já sem vida segundo a vizinhança, foi jogado no porta mala do carro e levado ao Hospital Menandro de Farias.

No boletim de ocorrência está escrito que foi prestado apoio e que a morte foi constatada lá no hospital. Já no documento do hospital está registrado que Jackson “chegou à unidade sem pulsos” e com “extremidades frias”. 

No IML, Eliomar Trindade, o perito responsável por analisar o corpo de Jackson, apontou para perfurações no peito e braço esquerdo. 

Especial Nina Rodrigues

O relatório ainda mostrou o trajeto das balas dentro do corpo do jovem negro, mas não apresentou qualquer sinalização se houve ou não uma troca de tiros ou se o caso tem características de execução.

Apesar disso, o documento indica que os laudos são “instrumentos essenciais de prova da materialidade dos crimes”.

Os agentes de segurança ainda relatam ter encontrado com Jackson Santos 25 pacotes de maconha, 15 trouxas de cocaína, 66 pinos de cocaína, 35 trouxas de crack e 178 pinos de K9. 

A mãe, Carolina, confirmou que o filho participava do tráfico de drogas e reclamou da postura da polícia para o delegado do caso no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Bahia. “Vocês mataram meu filho, não deram nem oportunidade de prender”.

O Ministério Público demandou investigação sobre o caso, com a escuta de Carlos*, irmão da vítima. Também foi feito o exame de perícia na arma de fogo encontrada com Jackson Santos, assim como outras apurações que o delegado poderia entender como importantes. O pedido foi feito pelo promotor Ariomar da Silva.

A reportagem questionou o Ministério Público sobre o caso. O órgão respondeu que a Polícia Civil é quem investiga o caso e que o MP-BA aguarda o retorno de informações complementares pedidas pelo promotor.

A Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), por sua vez, não retornou aos questionamentos da reportagem sobre a investigação até o fechamento da reportagem.

Saudades de Senegal

Jackson Santos foi enterrado no Bosque da Paz, em Nova Brasília, Salvador. Na cerimônia, estavam presentes familiares e jovens com camisetas em homenagem à vítima.

O habitual calor e céu azul de Salvador, de um dia de março, contrastava com o choro e a revolta. O espaço, lotado para se despedir do jovem de 22 anos, tinha choros de diferentes tons e volumes.

“Eu não sei o que é pior, o dia da morte dele ou os outros dias”, relata a mãe do jovem em entrevista meses depois da morte dele.

Ela mudou alguns de seus hábitos diários, como quando chega do trabalho. Há tempos, ela costuma deixar a porta da casa aberta. “É como se eu esperasse ele chegar”. 

Jackson dos Santos costumava dormir com a mãe. “Dá uma licença aí, coroa”, dizia o jovem quando queria descansar ao lado dela.

Hoje, ou ela dorme na cama com Carlos, o caçula, ou pega um colchão e joga na sala. “Dormir na cama me faz lembrar ele”.

Ela conta que vive à base de remédios, assim como a irmã e o pai de Senegal. Os três fazem terapia.

As sessões de terapia de Carolina sempre começam com a mesma pergunta e a mesma resposta. Quando a psicóloga questiona “como você está?”, Carolina responde: “Você sabe. Estou sobrevivendo”.

O irmão mais novo, Carlos, não toma remédios ou faz terapia. O jovem tem crises de choro durante a madrugada, troca o dia pela noite, fica trancado no quarto, onde joga video game ou dorme.

“É uma batalha diária. É um sufoco. Tem dia que eu só queria dormir para acordar e ser um pesadelo”, conta a mãe. 

Investigação sobre a morte de Senegal

A morte no Coração de Maria e os relatos de familiares e vizinhos não comoveram a polícia baiana. O relatório da investigação foi concluído com a afirmação de que há crença plena na “plausibilidade da versão apresentada pelos policiais da RONDESP”. 

A perícia descreveu o local como um “imóvel abandonado, sem portas, janelas, reboco ou telhado”, com “perfurações de vários tamanhos”. 

O relatório não explicou quais balas perfuraram cada uma das paredes nem se os furos correspondem às armas dos policiais ou à suposta arma apreendida com Jackson dos Santos.

A equipe da polícia civil registrou durante o relatório que “enfrentou resistência” para apurar informações no local. 

Para eles, houve um receio por conta da facção Bonde dos Malucos (BDM), que domina o bairro, de coagir os moradores a não compartilharem informações com a polícia.

Inconsistências

Outra parte da investigação dos policiais foi feita nas redes sociais. Eles escreveram que o jovem “não possui registros de passagens policiais”, mas analisaram que ele exibia “gestos associados à facção BDM e se identificava como gerente de uma das bocas de fumo” em publicações. O inquérito não tem nenhum anexo com essas imagens. 

No relatório, o major Roberto César, comandante da Rondesp, afirma que “outros bandidos conseguiram fugir armados”. A informação contradiz o que está no boletim de ocorrência e o que testemunhas afirmaram: Senegal estaria sozinho no momento do assassinato.

Sem citar nenhum exemplo concreto, a polícia ainda afirma que ele tinha envolvimento em vários homicídios. Com base em um depoimento anônimo, classificou Senegal como um dos líderes do tráfico na região.

Familiares e vizinhos de jovem chegaram a prestar depoimento sobre o caso. Todos eles relataram que sabiam do envolvimento de Jackson com a venda de drogas, disseram que ele nunca foi preso ou processado e que o irmão viu parte da abordagem. O Ministério Público pediu o depoimento dele.

Carolina sente que houve impunidade da polícia e afirma que gostaria que os policiais usassem câmeras corporais, para ter o registro da operação.

“Se eles estivessem com a câmera, a gente saberia, e a população não teria tanto medo quanto tem. Eu sou a favor. Se eles não devem, não temem”, defende.

Respiros em meio a um luto

Dois assuntos tiram um sorriso, mesmo reticente, de Carolina. O netinho, filho de Senegal, é um deles. “A relação com o neto está gostosa”.

Roberta* engravidou de Jackson quatro meses antes da morte dele. O menino, Jackson Calleb, nasceu em 20 de setembro de 2024 e recebeu o nome em homenagem ao pai.

No dia anterior à entrevista, a família havia cortado um bolo e assoprado velas para Calleb. O bebê havia completado um mês de vida. “Não vai preencher o vazio do pai, mas é uma sensação gostosa, que faz toda diferença”, desabafa Carolina.

O outro motivo de alegria é a cachorrinha Blogueirinha, outro novo integrante da família. Ainda filhote, o animal de estimação ficou no colo de Carolina durante toda a entrevista, com os olhares atentos, ora para ela, ora para a câmera.

“Blogueirinha está me dando um suporte”, conta.

Temor generalizado em Salvador

Depois da entrevista, em outubro, um grupo de policiais abordou dois jovens negros em frente a um mercado, no bairro.

A abordagem gerou uma agitação por parte das mães da vizinhança. O temor era que houvesse mais uma vítima.

A saída da polícia fez as mulheres, inclusive Carolina, pedirem para o rapaz, um menino preto de pele escura, sair dali e ir para casa.

“Até mãe de família, se a polícia vier, elas saem, escondem o filho dos outros dentro de casa. Aqui todo mundo tem medo da polícia”, conta Carolina.

Não são apenas as mães que temem os policiais.

“Aqui qualquer criança tem medo da viatura. Qualquer pessoa daqui, de bem ou não, ela tem medo da viatura”. 

A chegada de uma viatura faz os jovens homens negros, principais vítimas, ficarem em situação de terror. Mesmo aqueles que estão dentro de casa, se estiverem sozinhos, tentam correr para outra residência, com testemunhas e uma maior maneira de se defender.

“Quando a polícia entra aqui, ela é bastante violenta. É saber que a polícia está chegando, corre todo mundo”, explica. 


* As fontes relataram ter medo de retaliação. Por isso, a reportagem usou nomes fictícios para não identificá-las.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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