Isabelle Mesquita construiu a própria história entre o subúrbio de Pavuna, no Rio de Janeiro, e as ruas parisienses. Mulher negra, artista e escritora, desde cedo enfrentou os desafios impostos pela desigualdade e pelo racismo. Mas ao decidir empreender no ramo da moda, na França, levou consigo não só sonhos, como também uma bagagem de vivências que moldaram sua visão de mundo. Em “Uma Preta em Paris”, ela narra essa travessia com honestidade, cujo passado e presente conectam-se de forma emocional e ideológica.
Por meio de uma linguagem autobiográfica, a obra costura memórias da infância com reflexões sociais e políticas. Filha de uma empregada doméstica e de um auxiliar de serviços gerais, ela relembra que, ainda criança, enfrentou a pressão para alisar o cabelo, uma das situações que despertou um olhar crítico sobre debates de raça, classe e gênero.
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Nesse contexto, a moda apareceu não apenas como linguagem estética, mas também como um caminho de reconexão com a identidade negra e a cultura periférica.
Ao longo de 37 capítulos com ilustrações autorais, Isabelle narra com profundidade as lutas e os desafios que enfrentou ao chegar à capital francesa como imigrante, sem diploma e visto. Impulsionada pelo desejo de criar e empreender, ela fundou o Isabelle Mesquita Studio, projeto que une moda ética, arte e ancestralidade. Mas longe de qualquer idealização, a Cidade Luz surge em sua narrativa como um espaço de enfrentamento, autoconhecimento e reinvenção.
É nesse território marcado por contrastes que a autora se reconecta com as próprias raízes e transforma a vivência em um manifesto de resistência. Com fortes críticas sociais, a obra questiona ainda o mito do “glamour europeu” e mostra as dificuldades enfrentadas por imigrantes.