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Ibama compra armas de Israel em meio ao genocídio palestino

Órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e do Clima comprou armas da Israel Weapon Industries; empresa também cede armamento ao Exército de Israel em Gaza
Ibama comprou armas de Israel durante o genocídio palestino. Foto: IWI - Reprodução

Ibama comprou armas de Israel durante o genocídio palestino. Foto: IWI - Reprodução

— Ibama comprou armas de Israel durante o genocídio palestino. Foto: IWI - Reprodução

17 de setembro de 2025

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) comprou 80 armas da fabricante Israel Weapon Industries por R$ 1.068.163,82. O contrato foi assinado no dia 30 de dezembro de 2024, mesmo dia em que palestinos em Gaza contavam mais 27 pessoas mortas em 24 horas no genocídio promovido por Israel.

A IWI — sigla da fabricante que ofereceu as armas à pasta do governo brasileiro — é a mesma que cede armamento às Forças de Defesa de Israel (IDF) para atuar contra os palestinos. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, no Portal da Transparência, as 80 armas foram para Ibama usar em atividades de fiscalização. 

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A Alma Preta identificou a negociação de armamento com a Israel Weapon Industries feitas em meio à crise humanitária que vitimou mais de 60 mil pessoas, mesmo com a postura diplomática do governo brasileiro de condenar o conflito classificando como genocídio.

No dia 30 dezembro de 2024, o órgão vinculado à pasta de Marina Silva fechou contrato com a IWI. O valor e a compra foram publicados no Diário Oficial da União no dia 13 de janeiro. A negociação também é verificada no Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União. 

O pagamento foi em única parcela e a duração do contrato é até 30 de dezembro deste ano, conforme mostra a plataforma do governo federal. As armas ainda não estão em uso, segundo o Ibama.

No dia 30 de dezembro de 2024, a data da assinatura, já eram 45.541 vítimas do conflito entre Israel e Hamas, segundo a Al Jazeera.

Privatizada desde 2005, a IWI fornece armas às forças militares de Israel. Em setembro de 2024, por exemplo, ela destinou cerca de nove mil rifles ao Ministério da Defesa israelense. O diretor-geral do ministério, Major-General Eyal Zamir, definiu a compra como estratégica diante do conflito em Gaza.

Mais recentemente, em 16 de julho, o Ministério da Defesa israelense assinou acordo de US$ 20 milhões com a IWI para ter metralhadoras para as forças terrestres da IDF entre 2026 e 2027, segundo publicação do próprio ministério israelense. “A metralhadora Negev UX, desenvolvida em colaboração com as IDF, provou ser um multiplicador de força significativo nas manobras de terra durante a guerra atual”, diz o anúncio.

Um dos armamentos mais conhecidos da IWI são os fuzis Arad, definidos pelo diretor-geral do Ministério da Defesa de Israel como “de última geração”.

O Ibama disse à Alma Preta que a necessidade de comprar as armas “foi levantada pelo Ibama e, durante a pesquisa de preço, foi identificada a ata aberta de licitação internacional”. “Como a legislação de compras públicas exige um representante no Brasil, a adesão foi feita pelos meios e sistemas oficiais”, disse.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima não respondeu até a publicação desta reportagem.

As armas para o Ibama foram compradas a partir de uma licitação que já existia: em setembro de 2022, no governo Bolsonaro, a Polícia Rodoviária Federal iniciou a negociação de armamentos com a IWI. 

O processo se arrastou e as propostas da licitação da PRF só foram feitas entre junho e agosto de 2024, já na gestão do presidente Lula. Na época, a Israel Weapon Industries ofereceu para a PRF três tipos de armamentos: 1.200 armas de fogo tipo carabina; 200 revólveres/pistolas padrão OTAN e outros 121 revólveres/pistolas nas mesmas características.

Procurada, a PRF não respondeu até a publicação desta reportagem.

Modelo “ARAD” vendido pela Israel Weapon Industries e divulgado pela empresa em setembro deste ano em frente a bandeira da fabricante; arma é uma das mais populares da empresa israelense. Foto: Reprodução/redes sociais IWI.

Fabricante israelense tem laços com o Brasil

A IWI participou da COP Brazil, evento de segurança pública e atividade policial, feito em outubro do ano passado. Ela também tem negócios com setores industriais brasileiros: ela recebeu aço da siderúrgica brasileira Villares Metals, avaliado em cerca de R$ 2.500 à época, em março, como revelou o The Intercept Brasil.

Do ano da licitação, em 2022, até o contrato fechado com o Ibama, em 2024, o Brasil superou o recorde de importações de armamentos de Israel com os valores chegando a R$ 120,6 milhões, segundo o Brasil de Fato.

A postura de negociar com a fabricante de armas para as forças israelenses destoa do discurso diplomático: em setembro de 2023, o presidente Lula discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) classificando a situação na Faixa de Gaza como “uma das maiores crises humanitárias da história recente”. 

“O que começou com ação terrorista de fanáticos contra civis israelenses inocentes se tornou uma punição coletiva do povo palestino”, disse.

A intermediadora do negócio com a PRF

Nas negociações com a PRF, a Israel Weapon Industries foi representada pela empresa brasileira M.1 – Consultoria e Tecnologia, com sede em Indaiatuba, interior de São Paulo. Em 20 de junho de 2024, numa das propostas para o pregão, cita a M.1 – Consultoria.

A M.1 – Consultoria e Tecnologia foi constituída em 2011 para prestar atividades de “monitoramento de sistemas de segurança, comércio varejista especializado de equipamentos e suprimentos de informática”. 

Em outubro de 2023, ela mudou a atividade para “suporte técnico, manutenção e outros serviços em tecnologia e manutenção”, além de “fabricação de aparelhos telefônicos”, segundo informações da Junta Comercial do estado de São Paulo.

Os sócios fundadores eram Robson Domingos Rocha e Izaias Pereira Ferreira. Outro sócio, Ederson Domingos, entrou na empresa em 2014. 

Sede da empresa M.1 – Consultoria e Tecnologia em Indaiatuba, interior de São Paulo. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

A Alma Preta procurou a M.1 – Consultoria e Tecnologia para esclarecer a relação de representar a IWI. Numa conversa por telefone com Ederson Domingos, ele disse que a consultora representou a fabricante israelense de 2018 ao início de 2024 e que continuava com alguns “contratos obrigacionais” devido a prazos de entrega. 

“Desde o final do ano passado existe outro representante [para a IWI]. Somos uma empresa focada em tecnologia e a área de armamento é sobrecarregada e complexa, esses assuntos todos que vem acontecendo nos últimos tempos complicam”, disse o sócio, criticando a imprensa por, segundo ele, insinuar uma ligação das armas com mortes de pessoas vulneráveis. 

Mesmo questionado somente e apenas sobre a representação da IWI nos negócios, ele disse que “são armas vendidas às forças de segurança pública. Nós, representantes, não temos controle sobre como o produto vai ser utilizado por uma força de segurança”. 

Ederson e Robson abriram outra empresa em maio de 2024, a M-ER Administração e Participação Sociedade Simples LTDA.

A reportagem foi até a sede da M.1 – Consultoria e Tecnologia em Indaiatuba. O local conta com câmeras de segurança, vidros espelhados e com cerca elétrica. 

Na recepção, foi informado que o responsável não estava no local. Perguntada se aquele era o endereço da empresa, a recepcionista parou de responder pelo interfone. Em nova tentativa, ela respondeu que não podia confirmar a informação e nem passar o contato de alguém da empresa.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

  • Pedro Ezequiel é jornalista formado pela ECA - USP. Com passagens pelo UOL e Giz Brasil, é repórter, entusiasta da Lei de Acesso à Informação e de podcasts narrativos.

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