Escrevivência, ancestralidade e bem viver. Em outubro de 2025, a Festa Literária das Periferias (Flup) embarcou numa nova travessia de ideias para reencantar o mundo. Depois de mais de uma década levando literatura das periferias para o centro do debate público, o festival que nasceu nas favelas do Rio de Janeiro chega à Inglaterra e à Alemanha para participar de dois encontros de literatura afro-diaspórica. O momento é histórico, pois enaltece a produção autoral de uma mulher negra brasileira sob multidimensões e perspectivas afro-diaspóricas.
O primeiro desembarque foi em Leeds, cidade no norte da Inglaterra, onde a Flup participou do festival Out of Maxny, em parceria com o recém-criado National Poetry Center (Centro Nacional de Poesia), dirigido por Nick Barley, ex-Edinburgh Book Festival. No evento, a escritora Conceição Evaristo, uma das principais referências da literatura brasileira, foi homenageada ao lado de nomes como Linton Kwesi Johnson, Roger Robinson e Malika Booker — grandes nomes que abrem caminhos para o diálogo literário multicultural entre o Brasil e o Reino Unido. A presença da autora marcou também o anúncio da publicação e tradução do livro “Becos da Memória” e “Canção para Ninar Menino Grande”, no Reino Unido, prevista para 2026.
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No primeiro dia do evento, 8 de outubro, Conceição Evaristo refletiu sobre o significado de estar em solo europeu como autora homenageada. “Se eu fosse ter algum vislumbre pelo fato de estar no continente europeu, eu poderia ter até algum, pensando na minha trajetória de vida. Eu, menina, eu, jovem, jamais poderia pensar em vir à Europa”, disse. “Agora, o vislumbre se dá por eu pensar que é a minha literatura que me trouxe aqui. Uma literatura profundamente marcada pela minha condição, pela minha experiência, pela minha vivência de mulher negra.”
A autora destacou ainda que não precisou abrir mão de sua identidade para criar essa obra. “E eu sei que é uma literatura que, de certa forma, até questiona isso tudo que está aqui.”
Para a escritora homenageada, a presença de escritores e artistas africanos e afro-diaspóricos na Europa carrega uma dimensão histórica. ‘’Toda essa riqueza da Europa, como descendente de africanos e como africanos temos a certeza que isso tudo é nosso. Que isso foi construído em cima da miséria, em cima da exploração. Temos a sensação de que eles devem nos olhar como um corpo incômodo, como um corpo que não devia estar aqui’’, afirmou. E completou: “Que nos aguentem. A Europa tem de nos aguentar. Eu acho que essa voz africana e a voz da diáspora que soma na Europa talvez seja a última voz que a Europa gostaria de escutar.’’
Bastidores da (black) turnê literária
Ao lado de Conceição Evaristo, na comitiva da Flup, seguem nomes como as escritoras Leda Maria Martins e Eliana Alves Cruz e a jornalista Andreia Coutinho Louback, que transforma a cobertura da viagem em um gesto de continuidade, um encontro entre a escrevivência, a memória e o tempo presente.
Em seguida, a delegação embarca para Berlim, onde participa do festival Middle Ground: Interactions – Transitions and Reciprocities. Conceição Evaristo será responsável pela palestra de abertura, intitulada “Escrevivência: mastigando silêncios da História e da Memória”, ao lado da escritora Eliana Alves Cruz e de Julio Ludemir, diretor-fundador da Flup. Confira a programação completa do evento aqui.
A escolha de Leeds como palco da primeira ação pública do National Poetry Center é simbólica. A cidade abriga uma das maiores comunidades jamaicanas do Reino Unido, formada após a Segunda Guerra Mundial, e tornou-se um importante centro da cultura afro-caribenha. Para o diretor da Flup, Julio Ludemir, ‘‘fazer o evento neste território é um gesto político, é um reconhecimento de que a arte e a memória da diáspora também — também estão cada vez mais presentes na literatura britânica contemporânea’’.
É nesse cenário que a jornalista Andreia Coutinho Louback inicia sua cobertura da viagem e mergulha na arquitetura de um jornalismo literário negro. “Estou entusiasmada e profundamente tocada por começar esse trabalho justamente aqui, em Leeds, onde a escrita se encontra com a memória do atlântico negro”, afirma.
Para ela, participar desse momento ao lado da escritora Conceição Evaristo tem um significado especial: as duas se conheceram em 2012, na primeira edição da FLUP, em um dos encontros realizados na favela da Mangueira. “Naquele momento, eu ainda não sabia que estava começando a minha travessia pessoal. A escrevivência me salvou, e acredito que salva muitas mulheres negras”, diz Andreia.

Escrevivência e justiça climática
Jornalista pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e mestre em Relações Étnico-Raciais pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ), Andreia tem construído uma trajetória que costura escrita, comunicação como direito e justiça climática. À frente do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), ela tem desenvolvido e implementado projetos e pesquisas que aproximam a pauta climática de territórios vulnerabilizados, traduzindo dados, histórias e territórios em narrativas acessíveis.
Para ela, comunicar a crise do clima é também contar histórias com compromisso e afetividade. “Estou convencida de que a arte constrói narrativas que podem direcionar as pessoas a se engajarem e se mobilizarem na agenda climática e territorial.”
Andreia avalia que a escrevivência — conceito criado por Evaristo — não é apenas uma forma de escrita de si, mas uma ferramenta de reparação simbólica e política. A primeira obra que leu de Conceição foi o livro “Olhos D’Água”, quando trabalhou na Estante Virtual e sua então chefe (e hoje amiga) a emprestou a obra. “Lembro que praticamente o livro todo ao longo dos meus trajetos de ônibus. Lia, chorava, elaborava. Quando Conceição fala de escrevivência, ela fala de corpo, vida e memória. Quando falamos de justiça climática, estamos falando das mesmas coisas no que tange à reparação, de como certos corpos e territórios são atravessados de forma desigual pelo mundo, essa é a minha escrevivência ”, explica.
Durante a viagem, Andreia faz a cobertura inédita das ações da FLUP em Leeds e Berlim por meio de conteúdos para redes sociais, sites de notícia e plataformas parceiras, em uma combinação multimídia de reportagem, bastidores e análises. “A ideia é aproximar o público brasileiro da experiência, mostrando não apenas os eventos, mas o sentido simbólico de ver mulheres negras brasileiras ocupando o centro das discussões literárias e políticas na Europa”, compartilha. A cobertura deve incluir vídeos, entrevistas, textos e registros de bastidores da escritora e da delegação da FLUP.