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Brasil: o país estrangeiro em si mesmo

O Brasil se encanta consigo mesmo sempre que olha para suas margens, mas esse encantamento é distorcido
Fotografia de um grupo ashaninka, feita por Sebastião Salgado, durante expedição no extremo oeste do Acre.

Fotografia de um grupo ashaninka, feita por Sebastião Salgado, durante expedição no extremo oeste do Acre.

— Reprodução/Sebastião Salgado

15 de novembro de 2025

Com uma intensa cobertura da COP30, os canais de TV brasileiros têm mostrado não apenas os bastidores e decisões do evento, mas também fragmentos do território que o sedia. Belém do Pará é uma cidade geograficamente distante, mas que faz parte, e muito, do meu próprio país. Este é um dos dramas de viver em uma nação de dimensões continentais como o Brasil.

Na tela, pratos típicos da região, como tacacá, maniçoba e vatapá, eram apresentados com um entusiasmo quase pitoresco. Além da inegável vontade de provar, veio uma constatação incômoda: se eu não viajar ao Pará, é provável que nunca experimente certas iguarias que estão a poucos voos dentro do meu próprio país. Foi aí que me dei conta do quanto desconheço uma cultura inteira, com seus dialetos, ritmos, histórias e modos de vida. Eu me vi estrangeira dentro da minha própria nação.

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Esse sentimento me remeteu a outro incômodo antigo: o deslumbramento fetichista com Salvador. Quando fui à cidade pela primeira vez, não consegui compreender a “magia” que todos exaltavam. A tristeza me abateu ao ver a disparidade entre a força simbólica da capital mais negra do país e a ausência de redistribuição real de poder e recursos.

Vi em Salvador belezas naturais e um relicário vivo da cultura negra brasileira. Mas, ao caminhar pelas ruas, a negligência estrutural e a truculência policial me cegaram para a mágica soteropolitana. Percebi que a fetichização da estética da diversidade servia como uma máscara para a estrutura desigual e violenta da cidade.

Minhas percepções foram confirmadas em outras visitas e por dados atrozes. Com 79,5% da população se autodeclarando negra, a Bahia lidera o ranking nacional de letalidade policial contra pessoas negras, com 25,3 mortes a cada 100 mil habitantes. Em Belém, onde 64% da população é negra, 75% das áreas de risco ambiental são ocupadas por pessoas pretas e pardas, as mesmas que concentram as maiores taxas de pobreza.

A negação dessa realidade é justificada por uma suposta “valorização” cultural. Mas valorizar, no sentido real, é possibilitar direitos mínimos. Celebrar a cultura dessas regiões, sem condicionar melhorias estruturais para elas, é apenas fetichização.

O Brasil se encanta consigo mesmo sempre que olha para suas margens, mas esse encantamento é distorcido. É o mesmo olhar colonial que deseja o diferente, que o consome, mas se recusa a reconhecê-lo como igual. A dificuldade crônica em descentralizar a voz e o poder do país nasce desse fetiche nacional.

Para além da cultura, o Norte e o Nordeste enfrentam sintomas concretos de marginalização. Apesar de sua inegável potência criativa, política, tecnológica e intelectual, esses territórios ainda são escutados apenas pelo som de seus tambores, e não pela força de suas ideias e de seus números.

O Norte e o Nordeste não são meras paisagens culturais ou cenários pitorescos. São centros vibrantes de pensamento, decisão e inovação, e o fazem saber a cada dado e a cada conquista. Os estados nordestinos, por exemplo, alcançam hoje os melhores índices de educação básica do país, fruto de décadas de políticas públicas e de uma gestão local eficaz. A juventude dessas regiões é protagonista de movimentos ambientais, culturais e políticos. Cidades como Salvador, Belém, Recife, Fortaleza e Manaus têm formado intelectuais, cientistas, artistas e engenheiros que estão, concretamente, redesenhando o futuro do Brasil.

Esses territórios não são carentes de voz. O que existe é um país que fala alto demais a partir de seu centro histórico-econômico-narrativo para escutá-los de verdade. A reprodução da marginalização não é um acidente, mas um projeto executado por quem ocupa o centro do poder.

Descentralizar, portanto, não é apenas deslocar recursos ou sediar eventos. É deslocar o centro da escuta. É assumir que Brasil profundo é a denominação para aquilo que é cotidiano para uns e para outros é um Brasil impossibilitado de assumir sua própria narrativa, com sabedorias capazes de sustentar e regenerar essa nação. Não se trata de “permitir” a existência da multiculturalidade do país, ela já existe, potente e inegável. O que o “centro” precisa, urgentemente, é admitir que ele não é o resumo da história do Brasil.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Camila Santos

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