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Nove filmes para conhecer a história do cinema negro no Brasil

Apesar de um abismo histórico, o cinema produzido e protagonizado por pessoas negras segue destruindo muros e construindo pontes
Cena do filme "Café com Canela".

Cena do filme "Café com Canela".

— Divulgação

6 de dezembro de 2025

Havia passado dez anos da abolição da escravatura quando os primeiros registros cinematográficos foram produzidos no Brasil. Uma arte cara, o cinema nacional sempre foi acessível às elites e excluiu a população negra das produções, restringiu o acesso do público às salas de cinema e utilizou personagens negras para reproduzir enredos construídos a partir de uma perspectiva branca – que muitas vezes revelava preconceitos, desprezos e fetiches.

Mas a história do cinema nacional também é marcada pela resistência e ousadia de artistas negros e negras. Abaixo, uma relação de nove filmes que contam um pouco dessa história, com destaque para profissionais negros atrás das câmeras ou na frente das telas. 

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A relação busca construir um mosaico, considerando os marcos e referências em torno de cada obra. Evidentemente, muitos outros filmes importantes para contar a história do cinema negro no Brasil ficaram de fora. A lista tem como referência uma pesquisa desenvolvida no blog 366filmesdeAz, incluindo o levantamento “300 filmes de 175 diretores/as negros e negras”, disponível no site.

1. “Amor Maldito” (1984)

Foto: Acervo Pessoal de Adélia Sampaio

Dirigido por Adélia Sampaio, o filme é um marco na história do cinema nacional por ser o primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher negra. O drama também se destaca pela ousadia para a época, pois retrata um romance homossexual vivido por duas mulheres. O enredo é trágico e inspirado em uma história real, evidenciando os preconceitos que perpassavam não apenas os núcleos familiares e sociais, mas também o Estado e seu sistema de justiça.

Amor Maldito sofreu diversos boicotes. A Embrafilme se recusou a apoiar o projeto, alegando que “jamais financiaria tal aberração”. Assim, a diretora buscou outras parcerias e conseguiu lançar o filme de forma cooperativa, algo relativamente novo na época. Nas salas de cinema, a obra foi restrita a maiores de 18 anos por conter relações homossexuais.

Na vida pessoal, Adélia precisou cuidar sozinha de seus dois filhos, no período em que seu então marido, Pedro Porfírio, esteve preso pela ditadura militar. Aos 18 anos, quando estava grávida, sofreu um aborto após ser agredida por policiais, durante uma manifestação política. Além do cinema, Adélia também se lançou na literatura. Por mais de três décadas, Amor Maldito foi o único filme brasileiro dirigido por uma mulher negra.

2. “O caso do homem errado” (2017)

Foto: Divulgação

Dirigido por Camila de Moraes, o documentário se tornou o segundo filme dirigido por uma mulher negra, na história do Brasil, a chegar às salas de cinema. Ou seja, após a exibição de Amor Maldito, foram 33 anos até uma diretora negra ver seu filme exibido na telona.

O documentário aborda a história de Júlio César de Melo Pinto, um operário negro que foi executado pela polícia militar após ser confundido com um assaltante. O crime aconteceu em 1987, em Porto Alegre. Na ocasião, Júlio César estava próximo a um supermercado, no momento em que ocorreu o assalto. Júlio César foi levado em uma viatura e depois encontrado morto.

O documentário de Camila de Moraes resgata esse caso, traçando um inevitável paralelo com o racismo que, ainda hoje, é perceptível nas abordagens policiais e nos crimes cometidos pelo Estado.

3. “Um dia com Jerusa” (2020)

Foto: Divulgação

O filme dirigido por Viviane Ferreira é considerado o segundo longa-metragem de ficção dirigido por uma mulher negra no Brasil. Portanto, 36 anos depois do lançamento de Amor Maldito. A obra possui um elenco e produção compostos predominantemente por profissionais negros e apresenta a personagem de Jerusa, uma senhora de 77 anos, moradora do bairro do Bixiga, em São Paulo.

O drama dialoga com o presente e o passado, a partir da relação de situações cotidianas com memórias ancestrais. Questões como raça, sexualidade e gênero perpassam a obra. Nascida em Salvador, Viviane se mudou para São Paulo para estudar cinema e transportou para as personagens do filme a sua própria experiência.

4. “Abolição” (1988)

Foto: Acervo Pessoal

O documentário é dirigido por Zózimo Bulbul, um dos maiores nomes da história do cinema brasileiro e também o primeiro ator negro a protagonizar uma telenovela – “Vidas em Conflito” (TV Excelsior), em 1969. Nascido no Rio de Janeiro, Zózimo Bulbul tem uma extensa carreira como ator, tendo participado de diversos filmes do Cinema Novo.

Abolição foi produzido no contexto do centenário da promulgação da Lei Áurea. No filme, o diretor investiga a situação atual da população negra no Brasil, levando ao questionamento sobre o que, de fato, foi feito pelo Estado brasileiro para efetivar a abolição da escravatura e garantir liberdade ao povo negro. 

No documentário, o diretor apresenta diversas entrevistas com pesquisadores, artistas e ativistas, a exemplo de Lélia Gonzales, Muniz Sodré, Beatriz Nascimento, Grande Otelo, Abdias do Nascimento, Benedita da Silva e Clóvis Moura.

5. “A Negação do Brasil” (2000)

Foto: Divulgação

Dirigido por Joel Zito de Araújo, o documentário apresenta uma profunda análise sobre a participação e representação negra nas telenovelas brasileiras. O filme traz entrevistas e trechos de obras exibidas por diversas emissoras. Essa análise é acompanhada da reflexão sobre o impacto das telenovelas na construção da identidade negra e sua percepção na sociedade.

A pesquisa conduzida por Joel Zito aponta para a exclusão e os desafios enfrentados por atores e atrizes afrodescendentes diante da escassez de papéis, cujos personagens sempre foram interpretados, predominantemente, por atores brancos, sobretudo seus protagonistas e núcleos centrais das telenovelas. Além disso, o documentário também revela a recorrência de personagens negros estereotipados e hipersexualizados e como isso afetou o imaginário coletivo da sociedade brasileira. 

O documentário também valoriza a trajetória e participação das atrizes e atores negros, reforçando suas contribuições para a teledramaturgia e o audiovisual. Zezé Motta, Milton Gonçalves, Léa Garcia e Ruth de Souza são alguns dos entrevistados por Joel Zito.

6. “Barravento” (1961)

Foto: Divulgação

Um dos movimentos mais importantes na história do cinema brasileiro é o Cinema Novo, que dialogou com outras correntes internacionais que buscavam a experimentação estética e o realismo crítico, percorrendo um caminho diferente dos “enlatados” de Hollywood que desde sempre dominaram as salas de cinema e formaram os públicos.

Nesse sentido, Barravento pode ser considerado referência para o Cinema Novo e um dos mais importantes filmes do diretor baiano – e branco – Glauber Rocha. A obra traz a representação de uma colônia de pescadores de uma forma mais complexa e subjetiva do que habitualmente grupos sociais negros eram retratados no cinema.

O filme representou uma ruptura ao padrão cinematográfico brasileiro – importado dos Estados Unidos – provocando a crítica da época pelo realismo e contradições dos personagens, além de ser uma das primeiras obras com protagonistas negros na história do cinema nacional. No papel principal estava Antonio Pitanga que, a partir desse filme, se projetou nacionalmente, se consolidando como um dos mais importantes atores negros do país.

7. “Ganga Zumba” (1964)

Foto: Divulgação

Outra referência do Cinema Novo e igualmente dirigido por um cineasta branco, Cacá Diegues, Ganga Zumba é considerado um dos primeiros filmes da história nacional a contar com um elenco predominantemente negro. A obra também se destaca pelo pioneirismo em representar uma história de luta e resistência da população negra.

O contexto do filme se passa no Quilombo dos Palmares e retrata o papel de Ganga Zumba, considerado o principal líder do quilombo que, posteriormente, foi assumido por seu sobrinho, Zumbi dos Palmares. A obra, portanto, traz um resgate histórico de um período que, até então, era pouco difundido e pesquisado na sociedade brasileira.

8. “Café com Canela” (2017)

Foto: Divulgação

Dirigido por Glenda Nicácio, em parceria com Ary Rosa, a obra acompanha uma personagem que vive isolada em sua casa, após separações, perdas e traumas. Até que a aproximação com uma ex-aluna dá início a transformações recíprocas, permeadas por recordações, afetos e reencontros. 

Filmada no recôncavo baiano, a obra é resultado de um pólo existente na cidade de Cachoeira a partir da criação da faculdade de cinema da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB). A Bahia, que foi referência para o cinema nacional graças ao Cinema Novo e a diversas produções realizadas no estado, enfrentou décadas de “escassez” devido à falta de incentivo econômico e de políticas públicas.

Até então, as principais produções baianas haviam sido realizadas por pessoas brancas, que possuíam recursos próprios ou influência política para conseguir patrocínios. A criação do curso de cinema da UFRB, em 2008, acompanhada da aplicação da Lei de Cotas e políticas de assistência estudantil abriram as portas para que uma nova geração de estudantes negros ingressassem no audiovisual. 

Filmes como Café com Canela e diretoras, a exemplo da ex-estudante do curso Glenda Nicácio, representam essa nova safra de jovens produzindo, dirigindo e atuando. Um exemplo da importância de se investir na formação e economia do audiovisual e de garantir políticas públicas que quebrem os muros que sempre impediram a população negra de criar e trabalhar com cinema.

9. “Marte Um” (2022)

Foto: Divulgação

O filme dirigido por Gabriel Martins é outro exemplo de uma nova era do cinema nacional, um pouco mais acessível aos profissionais negros e feito localmente. Representa a possibilidade de se fazer cinema autoral a partir do próprio território, contrapondo a lógica de migração para o eixo Rio-São Paulo. É no município de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais, que vem surgindo uma importante safra de produções a partir, sobretudo, de pessoas negras produzindo, dirigindo e atuando.

Uma das características dos filmes produzidos em Contagem é o realismo e a valorização do cotidiano, muitas vezes utilizando não-atores, inclusive familiares e amigos dos diretores. Em Marte Um, quem protagoniza a história é uma família “comum” da periferia: pais trabalhadores, filhos sonhadores. Em cena, as angústias, desejos, diversões, dificuldades, relações e subjetividades que fazem muitas pessoas das periferias brasileiras, sobretudo negras, se identificarem com os personagens.

O filme foi premiado em diversos festivais nacionais e internacionais, sendo indicado pela Academia Brasileira de Cinema como representante brasileiro ao Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro.

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