Por que a primeira infância negra precisa ganhar espaço no debate político em 2026?

Especialistas alertam que, se o país não colocar as crianças negras no centro das decisões desde já, o Brasil seguirá reproduzindo desigualdades que as acompanham desde o início da vida
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Uma bebê de pele negra.

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14 de dezembro de 2025

Com as eleições de 2026 se aproximando, quando o Brasil escolherá presidente, senadores, deputados federais e estaduais, além de governadores, especialistas e organizações da sociedade civil alertam: é preciso incluir a primeira infância no debate político desde já.

O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o país tem 18,1 milhões de crianças na primeira infância. E, dentro desse grupo, a maioria é formada por crianças negras: 47,48% são pardas e 6,57% são pretas. As brancas representam 44,65%, enquanto 1,07% são indígenas e 0,22% amarelas. 

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A urgência desse debate aparece também no folheto “Primeira Infância Primeiro – Por que as crianças de até 6 anos devem ser prioridade nos planos de governo”, lançado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) em 2020. 

O documento lembra que crianças pequenas são sujeitas de direitos, e que esse reconhecimento precisa se traduzir em políticas que enfrentem, desde cedo, as desigualdades que estruturam o país.

A FMCSV reforça que os primeiros seis anos são decisivos para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Por isso, políticas públicas desenhadas para essa fase não apenas garantem direitos básicos agora, mas também moldam o futuro do país, quem chega à escola em igualdade de condições e quem continua carregando barreiras impostas pelo racismo.

Essa desigualdade também aparece no Cadastro Único. A pesquisa “Perfil síntese da primeira infância e famílias no Cadastro Único”, também publicada pela Fundação em maio de 2024, mostra que 74,3% das crianças de até seis anos registradas no CadÚnico são negras — 63,8% pardas e 10,5% pretas. Crianças brancas representam 26,9%, enquanto amarelas somam 0,6% e indígenas 0,2%.

Postos lado a lado, os dois levantamentos reforçam uma mesma ideia: a primeira infância no Brasil é majoritariamente negra e enfrenta desigualdades que começam antes mesmo da escola. Ignorar esse recorte na formulação de políticas para 2026 é perder de vista quem mais precisa ocupar o centro do debate público.

A diretora de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Marina Fragata, reforça que deixar a primeira infância fora das prioridades significa abrir mão de uma das estratégias mais efetivas para romper ciclos intergeracionais de pobreza. 

Para Fragata, quando o tema só aparece no período eleitoral, o país perde a chance de construir políticas robustas, contínuas e capazes de atravessar governos. “Gestores, candidatos e a sociedade perdem quando a primeira infância entra tarde no debate”, afirma. 

Marina lembra que essa etapa da vida concentra uma janela decisiva para o desenvolvimento cognitivo, motor, emocional e social — e que ignorá-la aprofunda desigualdades já marcadas por sobreposições de vulnerabilidade, baixa renda, racismo estrutural e menor acesso a serviços, vividas especialmente por famílias negras. “A primeira infância é o hoje, não podemos deixar para amanhã”, diz.

Foto: Reprodução/Documentário Território do Brincar

Retorno social e econômico: o impacto que o país insiste em desperdiçar

As evidências científicas reforçam o alerta. Marina cita estudos consagrados, como os de James Heckman, que mostram que cada dólar investido na primeira infância pode gerar até sete dólares de retorno ao ano, especialmente entre crianças em maior vulnerabilidade.

A diretora também pontua que pesquisas indicam que crianças pobres que frequentaram creches de qualidade chegam à vida adulta com salários mais altos, menor envolvimento com criminalidade e menor probabilidade de desemprego. 

Ainda segundo a gestora, um estudo longitudinal revelou que adultos estimulados de forma adequada na infância eram “mais saudáveis que 80% dos que não foram atendidos” e ganhavam até US$ 10 mil a mais por ano.

“Não investir nessa fase significa desperdiçar até 40% do talento das crianças brasileiras”, alerta Marina, ao lembrar que o próprio Produto Interno Bruto (PIB) poderia ser até 158% maior caso todas as crianças desenvolvessem plenamente seu potencial.

Quando a infância fica de fora, o país perde

Ainda de acordo com Fragata, a primeira infância segue sendo tratada como um tema periférico. Além disso, destaca que debates como segurança pública, urbanismo e crise climática ignoram a centralidade das crianças, o que, segundo a especialista, limita soluções efetivas.

A diretora destaca que as cidades planejadas para bebês e crianças pequenas, por exemplo, beneficiam toda a população: mães, idosos, pessoas com deficiência e pedestres. No clima, o alerta é ainda mais urgente. 

“Crianças nascidas a partir de 2020 viverão quase sete vezes mais ondas de calor do que aquelas nascidas em 1960. Não podemos deixar essa discussão para depois”, afirma.

E ainda enfatiza que políticas de qualidade na primeira infância reduz a evasão escolar, diminuem riscos ligados à criminalidade e aumentam rendimentos na vida adulta,  elementos diretamente ligados à segurança pública. “É preciso reconhecer o quanto a primeira infância oferece soluções reais”, diz.

Fragmentação, racismo e invisibilidades

Mesmo com avanços no diálogo com partidos e lideranças políticas, a diretora da FMCSV afirma que a primeira infância ainda não se consolidou como prioridade real. Segundo a gestora, a agenda segue fragmentada, isto é, as creches aparecem como demanda central, mas sem uma visão sistêmica que inclua saúde, assistência, transporte, cultura e urbanismo.

A diretora também chama atenção para as múltiplas infâncias brasileiras, frequentemente apagadas das médias nacionais. De acordo com ela, crianças indígenas têm menor acesso a serviços e maior mortalidade. 

Ela menciona que no CadÚnico, a maioria das crianças é cuidada por mulheres negras, pobres e com baixa escolaridade, realidade que escancara o peso do racismo estrutural na formação das desigualdades. “É preciso enxergar quem são as crianças que têm seus direitos rotineiramente negligenciados”, pontua.

Crianças de 2 a 4 anos participam de projeto sobre eleições e cidadania no CEI Parque Cocaia, em São Paulo, em outubro de 2022. Foto: Reprodução/Prefeitura de São Paulo

O que deveria estar nos planos de governo

Para Marina, incluir a primeira infância nos planos de governo não é cumprir formalidades do Marco Legal — é garantir políticas de Estado, com continuidade, orçamento estável e governança integrada. Ela lista compromissos que deveriam ser básicos:

  • diagnósticos precisos sobre quem acessa e quem não acessa as políticas públicas;
  • ações federativas articuladas, com estados fortalecendo municípios;
  • políticas de equidade que enfrentem o racismo estrutural;
  • orçamento claro e transparente para a primeira infância;
  • apoio às mulheres cuidadoras e engajamento dos pais;
  • comitês intersetoriais que incluam saúde, educação, assistência, obras, cultura, transporte e planejamento;
  • continuidade das políticas, evitando rupturas a cada troca de gestão.

A representante da fundação destaca ainda a necessidade de implementar plenamente a Política Nacional Integrada para a Primeira Infância. “Não basta formular. É preciso garantir boa execução, continuidade e foco em equidade.”

Um debate que não pode esperar

O psicólogo, professor e pesquisador das relações étnico-raciais e do racismo na infância, Ueliton Moreira, doutor pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), reforça que discutir a primeira infância antes de 2026 é uma urgência política e social. 

Para o especialista, tratar o tema somente como promessa de campanha, resulta em propostas superficiais, desconectadas das necessidades reais das famílias e com alto risco de descontinuidade.

“Quando o debate começa tarde, atrasamos investimentos essenciais”, alerta. Segundo Moreira, os impactos dessa demora recaem sobre quem já está à margem, crianças negras, indígenas e as que vivem em territórios vulnerabilizados. “Adiar o debate amplia desigualdades étnico-raciais e compromete o desenvolvimento integral de milhares de crianças.”

O centro da agenda: integração, território e cuidado

O pesquisador defende que o país só avança com políticas integradas entre educação, saúde e proteção social. Para o professor, na educação infantil, ampliar vagas não basta, é preciso qualificar práticas pedagógicas, investir em infraestrutura e garantir formação continuada. 

Além disso, chama atenção para o direito ao brincar e ao contato com a natureza, quase inexistente para crianças das grandes cidades. Já na área da saúde, o pesquisador destaca o fortalecimento da atenção primária, pré-natal de qualidade, visitas domiciliares e apoio à saúde mental das famílias, áreas marcadas por fortes desigualdades regionais.

Ainda de acordo com o docente, na assistência, existem fragilidades crônicas, equipes do SUAS sobrecarregadas, alta rotatividade e pouca integração com outras áreas. “Políticas bem estruturadas exigem articulação real entre saúde, educação e assistência”, defende.

Moreira lembra que o Brasil tem conhecimento acumulado, mas ainda falha na transformação de evidências em políticas. Para Ueliton, há distanciamento entre academia e gestão pública, e os ciclos eleitorais curtos dificultam ações de longo prazo. Mesmo assim, ele vê avanços e cita gestores comprometidos e maior consciência social sobre o tema.

Foto: Reprodução/Freepik

Racismo estrutural, desigualdades regionais e falta de compromisso nacional

Ao tratar de desigualdades, Moreira é direto ao argumentar que é impossível formular políticas transformadoras sem enfrentar o racismo estrutural. “Para crianças negras, o impacto começa antes mesmo do nascimento”, diz, citando desigualdades no pré-natal, na alimentação, no saneamento e no acesso a equipamentos públicos.

O pesquisador reforça que políticas públicas que ignoram o racismo o reproduzem — e invisibilizam crianças negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas. E ainda acrescenta que a baixa representação racial em espaços de decisão agrava o problema. 

“O país ainda formula políticas que não partem da experiência de quem mais precisa do Estado”, critica. Segundo o especialista, para um compromisso nacional de verdade, Moreira defende que o documento coloque a primeira infância como prioridade absoluta, com:

  • ações intersetoriais articuladas;
  • responsabilidades claras entre União, estados e municípios;
  • apoio técnico e formação profissional permanente;
  • metas mensuráveis, como expansão de creches, visitas domiciliares e redução da mortalidade infantil;
  • estratégias explícitas de enfrentamento ao racismo e às desigualdades regionais;
  • aproximação entre ciência, gestão pública e participação social.

“Nenhuma política será transformadora se não reconhecer que as desigualdades raciais e regionais estruturam o país”, afirma. “É preciso enfrentar isso com coragem e compromisso”, finaliza. 

Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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