As filmagens do documentário “Maçalê”, dirigido pelo cineasta moçambicano Ba-Senga, começaram em novembro em Salvador. A produção da Tabuleiro Filmes propõe uma imersão no universo do multiartista baiano Tiganá Santana, reconhecido como o primeiro compositor brasileiro a gravar canções autorais em línguas africanas como Kikongo e Kimbundu. O título da obra remete ao seu primeiro álbum, lançado em 2009.
O filme percorrerá três territórios centrais na trajetória do artista. As primeiras gravações na capital baiana incluíram visitas ao terreiro onde ele foi iniciado, à casa da família e a espaços que moldaram sua formação. A produção seguirá para São Paulo, cidade onde Tiganá vive e leciona no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). O percurso culminará com uma viagem ao norte de Angola, na região de M’Banza-Kongo, fronteira com o sul do Congo.
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A etapa angolana está prevista para ocorrer entre o fim de janeiro e o início de março. A equipe partirá de Luanda e seguirá por estrada até a cidade fronteiriça. “É como se acompanhássemos Tiganá conduzindo o filme até o início de tudo”, afirmou o diretor Ba-Senga. A região é onde as línguas presentes nas composições do artista são cotidianas.
Tiganá Santana expressou surpresa quando soube da ideia do documentário. “No início, fiquei cético, mas o próprio argumento do filme foi me convencendo”, disse. Para ele, o projeto representa “o reconhecimento de um caminho que, embora marcado por escolhas criativas muitas vezes solitárias, nunca foi totalmente sozinho”. O artista afirmou que ver seu percurso transformado em filme é “profundamente emocionante”.
Abordagem busca profundidade sem exaltação
Filho da intelectual e ativista Arany Santana, figura central do movimento negro baiano, Tiganá cresceu em meio a discussões sobre negritude, espiritualidade e ancestralidade. Poliglota e pesquisador, ele reúne em sua obra múltiplas dimensões que o documentário pretende revelar.
“Não queremos dizer ‘vejam como ele é grandioso’, mas abrir as portas para um universo que poucos conhecem, cheio de camadas, sensações e descobertas”, explicou o diretor Ba-Senga. A narrativa do filme se adaptará às condições reais de cada locação, incorporando tensões, surpresas e improvisos como parte da história.
O maior desafio, segundo o diretor, é transmitir a experiência sensorial que ele teve ao descobrir a obra de Tiganá. “Se o público puder mergulhar nesse universo como eu mergulhei, eu já estarei muito feliz”, afirmou.
O documentário segue em fase de produção e as atualizações sobre o lançamento constam nos canais oficiais da produtora.