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O movimento negro não pode ser visto como uma pedra no sapato da esquerda

Tratar o movimento negro como um incômodo a ser administrado e, eventualmente, contido não é apenas politicamente ineficaz, é eticamente insustentável e estrategicamente autodestrutivo
A educadora e ativista do movimento negro Pâmela Carvalho.

A educadora e ativista do movimento negro Pâmela Carvalho.

— Reprodução/Michelle Gomes

11 de dezembro de 2025

A relação entre o movimento negro e as organizações políticas de esquerda no Brasil tem sido, historicamente, tensa e ambivalente: parceria estratégica em momentos de convergência, e objeto de críticas profundas quando reivindicações de raça, gênero e distribuição de poder entram em choque com agendas partidárias estabelecidas.

Sustento aqui que tratar o movimento negro como “uma pedra no sapato” da esquerda, um incômodo a ser administrado e, eventualmente, contido não é apenas politicamente ineficaz, é eticamente insustentável e estrategicamente autodestrutivo em um país cujo perfil demográfico e as desigualdades raciais exigem protagonismo negro nas decisões públicas. 

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Contexto demográfico e sociopolítico: por que a questão racial é central?

Os dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um Brasil em transição racial autodeclaratória: pela primeira vez desde 1991, a soma das pessoas que se identificam como parda e preta supera a parcela que se declara branca. Cerca de 45,3% da população declarou-se parda e 10,2% preta, refletindo um contingente negro (pretos + pardos) que constitui a maioria da população em ampla parcela dos municípios brasileiros.

Essas transformações não são meramente estatísticas: são sinalizadores de uma presença social majoritária que permanece sub-representada em espaços de decisão e que sofre desigualdades estruturais em educação, renda, saúde e segurança. Essas distorções tornam a agenda racial central para qualquer projeto de transformação social que se proponha a reduzir desigualdades e a ampliar cidadania. 

Além disso, indicadores apontam avanços relativos, por exemplo, o aumento expressivo do número de pessoas negras com ensino superior nas últimas décadas, mas tais ganhos não apagam persistências no mercado de trabalho, na previdência, na violência policial e no acesso a cargos de poder. Assim, a centralidade do movimento negro não é uma demanda identitária periférica; é condição para tratar desigualdades estruturais que atravessam a sociedade brasileira.

Representatividade formal: avanços e limites

A presença de pessoas negras em cargos ministeriais e de alta gestão do Estado tem crescido em termos absolutos, e isso é politicamente relevante. Governos recentes, bem como a gestão do Partido dos Trabalhadores no ciclo 2023 – 2026, chegaram a nomear ministros e ministras negros, no entanto, o número de titularidades não equivale automaticamente a poder real de formulação de políticas ou à transformação de estruturas institucionais profundamente racializadas. A presença simbólica pode coexistir com um padrão decisório que ainda não consegue modificar profundamente vetores fundamentais de desigualdade. 

Ao longo dos últimos anos, membros do movimento negro e parlamentares signatários da agenda têm denunciado situações em que suas pautas foram marginalizadas em espaços de debate na própria esquerda. Isto indica um padrão: quando a esquerda enfrenta dilemas estratégicos eleitorais ou prioriza coalizões, as demandas por reparação racial e por protagonismo negro tendem a ser recuadas para o anexo das negociações.

Essa dinâmica produz duas consequências simultâneas: a perda de legitimidade moral da esquerda perante parcela significativa do eleitorado negro e o empobrecimento programático, quando se desconsideram as especificidades raciais nas propostas de transformação socioeconômica. 

Exemplos concretos ajudam a tornar o diagnóstico menos abstrato. Debates sobre prioridades legislativas e composições de comissões têm gerado queixas sobre a ausência de representação negra em espaços que impactam políticas públicas de igualdade. Comissões temáticas, debates sobre orçamento e designações de cargos técnicos: todos estes canais mostram que a presença formal (nomeações) não se traduz necessariamente em centralidade programática. Embora parlamentares negros e negras desempenhem papel ativo na promoção de pautas de igualdade, ainda existem entraves institucionais que limitam seu alcance e impacto nas decisões centrais.

A campanha “Ministra Negra Já” para o Supremo é emblemática porque articula diversas dimensões: representatividade de gênero e raça no ápice do Poder Judiciário; visibilidade de demandas negras em julgamentos de enorme impacto social (terra, marco temporal, direitos indígenas, violência policial); e a capacidade do movimento negro de pautar a agenda pública. Porém, a indicação de mais um homem branco, no momento de vacância no STF em 2025, mesmo após a apresentação de diversas trajetórias de juristas negras extremamente qualificadas para o cargo, reforça que nós, mulheres negras, ainda não ocupamos as primeiras fileiras nas escalas de confiança do governo institucional. 

A leitura perversa do movimento negro como pedra no sapato decorre de algum conjunto de fatores que, combinados, geram marginalização política das demandas raciais mesmo em partidos e setores que se autodeclaram anti-racistas: muitos programas de esquerda persistem em um marco analítico que relega raça ao segundo plano, tratando-a como uma “questão secundária” que será resolvida com políticas universais de distribuição. Essa abordagem ignora formas específicas pelas quais a raça opera (interseccionalidade com gênero, território, etc.). Nossa história já demonstrou que políticas universais, sem recortes raciais, tendem a reproduzir desigualdades preexistentes.

Em momentos de coalizões amplas, demandas por ações afirmativas ou reparação são às vezes vistas como fatores que “complicam” alianças ou a comunicação com setores conservadores. Este é um cálculo que prioriza governabilidade imediata em detrimento de transformações estruturais. Mais uma vez o movimento negro ”fica para depois”. Trata-se de um erro estratégico: a capacidade do eleitorado negro de determinar rumos eleitorais e de legitimar projetos políticos é crescente. Desconsiderá-lo é perder centralidade social. Esses fatores nos ajudam a discutir a persistente percepção de incômodo: o movimento negro exige transformação profunda, compelindo a esquerda a alterar conflitos materiais e simbólicos que tensionam coalizões e privilégios internos.

Tratar as demandas negras como inconvenientes tem custos evidentes. Em primeiro lugar, reduz a capacidade da esquerda de construir narrativas amplas de justiça social porque omite a dimensão racial da desigualdade. Em segundo lugar, abre espaço para que adversários se apropriem de votos e narrativas na periferia e nas comunidades negras, oferecendo respostas simbólicas ou clientelistas que, mesmo paliativas, podem deslocar apoio. Em terceiro lugar, compromete a credibilidade moral e a coerência programática, criando fraturas e cisões profundas.

É urgente a inserção do raciocínio racial nas políticas universais. Para além das nomeações simbólicas, é preciso garantir poder real de formulação de políticas, orçamento e avaliação para representações políticas negras.

Disputar hegemonia política exige que a esquerda incorpore reivindicações negras em seus programas de maneira irreversível, amarrando compromissos que não possam ser recuados por acordos de curto prazo. É necessario criar alianças programáticas e permanentes, não meramente eleitorais além de reformular a linguagem política para colocar a luta antirracista como parte inerente do projeto democrático-popular, mostrando como reparação racial amplia o eleitorado e fortalece coalizões progressistas.

A centralidade do movimento negro não é uma demanda simbólica: é condição para a efetividade de qualquer projeto de transformação social que queira enfrentar desigualdades em um país racialmente marcado. Tratar o movimento negro como “pedra no sapato” significa escolher, conscientemente ou por inércia, priorizar manutenção de arranjos sobre transformação estrutural. Isso penaliza moralmente a esquerda e a política democrática.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Pâmela Carvalho

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