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Quem sustenta a sustentabilidade? Raça, periferia e a economia invisível da doação no Brasil

Uma mão humana sobre cortes em uma seringueira

Uma mão humana sobre cortes em uma seringueira

— Reprodução/Ahmad Jarrah

10 de janeiro de 2026

Sob uma convocação cada vez mais intensa para “devolver à sociedade”, a discussão sobre impacto social, sustentabilidade e filantropia ocupa o centro do debate público brasileiro em 2026. Seja por meio de investimentos sociais ou programas de ESG, marcas e indivíduos são chamados a usar sua riqueza como instrumento de transformação. Ao mesmo tempo, emerge uma aparente democratização da riqueza em territórios periféricos via cultura, esporte e plataformas digitais. Ainda assim, habitamos um paradoxo: se há mais consciência no discurso e mais iniciativas em nome do impacto, por que seguimos falhando em transformar essa circulação de recursos em mudança estrutural?

A resposta é incômoda: o sistema atual não foi desenhado para emancipar, mas para administrar a sobrevivência. De cozinhas comunitárias a coletivos culturais, cada organização que atua na periferia se sustenta sobre uma economia invisível de trabalho mal remunerado, tempo doado e cuidado não pago. No Brasil, a filantropia opera majoritariamente longe do território e se organiza em conselhos e métricas que criam um abismo entre quem decide e quem vive a urgência. O circuito da doação concentra estabilidade em poucos polos, enquanto pulveriza risco e incerteza em milhares de lideranças territoriais.

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Os dados reforçam essa assimetria. Segundo a Pesquisa Doação Brasil 2020, pessoas com renda anual de até R$ 10 mil doam proporcionalmente o dobro do que aquelas que recebem acima de R$ 100 mil. É a base da pirâmide financiando, em grande parte, sua própria rede de proteção. Ao mesmo tempo, a participação da população em doações vem caindo: em 2015, cerca de 77% dos brasileiros declaravam ter feito alguma doação; em 2020 esse número caiu para 66%. O Brasil ocupa hoje a 54ª posição no World Giving Index, indicando que essa retração não é apenas efeito de crises conjunturais, mas de um modelo que gera dependência mais do que autonomia.

A fragilidade institucional se torna ainda mais evidente quando observamos que apenas 3,3% das organizações da sociedade civil possuem parcerias formais com o poder público, segundo o Mapa das Organizações da Sociedade Civil do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O restante depende de editais pontuais e projetos frequentemente interrompidos por ciclos eleitorais. O custo desse mau desenho institucional é absorvido, de forma recorrente, por corpos pretos e periféricos.

Por isso, é necessário racializar essa conversa. Quando a filantropia se estrutura de forma que grupos majoritariamente brancos e distantes do território concentram o poder de decisão sobre a vida de populações negras, atualizamos padrões históricos de tutela e controle. É isso que chamo de filantropia extrativista: um modelo no qual instituições extraem indicadores, histórias e legitimidade simbólica dos territórios, mas relutam em financiar a base: aluguel, salários dignos, saúde mental, continuidade institucional.

Mudar esse cenário exige deslocar o debate do plano da intenção para o plano da estrutura. Substituir editais de seis meses por investimentos institucionais de longo prazo. Levar lideranças territoriais para os espaços de decisão não como convidadas, mas como pares. Reconhecer que a sustentabilidade atual do campo é subsidiada pelo trabalho invisível de mulheres negras nas periferias.

Com a crise de legitimidade das instituições globais e o esgotamento dos modelos tradicionais, o futuro do campo social no Brasil dependerá da capacidade de quem detém capital de confiar em quem detém saber territorial. Não se trata mais de perguntar como ajudar, mas como redistribuir poder.

Sustentabilidade sem soberania territorial é apenas manutenção do sistema. Precisamos construir uma filantropia que não funcione como anestesia social, mas como instrumento real de transformação e justiça.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Camila Santos

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