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Como a luta racial foi sequestrada pela lógica da performance nas redes sociais

Falar sobre racismo é fundamental. O risco surge quando a discussão deixa de ser compromisso e passa a ser apenas performance
Imagem mostra pessoas em uma manifestação em São Paulo, onde uma delas estende um cartaz escrito "Racismo é crime".

Imagem mostra pessoas em uma manifestação em São Paulo, onde uma delas estende um cartaz escrito "Racismo é crime".

— Letycia Bond/Agência Brasil

7 de março de 2026

Vivemos numa era em que quase tudo se transforma em conteúdo. Opiniões, posicionamentos, indignações e até mesmo dores coletivas são constantemente traduzidas em postagens, vídeos curtos e threads. As redes sociais se tornaram um espaço importante para amplificar debates urgentes, inclusive aqueles relacionados às desigualdades raciais. No entanto, ao mesmo tempo em que ampliam vozes, essas plataformas também produzem um fenômeno cada vez mais evidente: o esvaziamento das pautas raciais.

Temas profundos como racismo estrutural, colorismo, violência racial e desigualdade histórica passaram a circular com grande velocidade na internet. Em determinados momentos, tornam-se trending topics, mobilizam influenciadores, geram ondas de comentários e ocupam o centro do debate público. Mas, muitas vezes, essa atenção é intensa e passageira. A pauta aparece, explode e desaparece com a mesma rapidez com que surgiu.

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O problema não está na visibilidade. Pelo contrário: falar sobre racismo é fundamental. O risco surge quando a discussão deixa de ser compromisso e passa a ser apenas performance.

Existe uma diferença importante entre militância digital e transformação real. A militância digital pode ser uma ferramenta poderosa de mobilização e conscientização. Ela pode educar, conectar pessoas, denunciar injustiças e pressionar instituições. No entanto, quando reduzida apenas à lógica do engajamento, corre o risco de transformar debates complexos em conteúdos simplificados, superficiais ou até mesmo descartáveis.

A lógica das redes sociais premia velocidade, impacto e viralização. Mas questões raciais exigem exatamente o oposto: profundidade, contexto histórico e responsabilidade. Racismo não é um tema que se resolve em um vídeo de 30 segundos ou em um post indignado publicado no calor de uma polêmica.

Nesse cenário, surge um comportamento cada vez mais comum: o posicionamento performático. Pessoas que se manifestam apenas quando o tema está em alta, repetindo discursos prontos ou reproduzindo indignações coletivas sem necessariamente compreender a dimensão do que estão dizendo. O debate vira uma espécie de ritual público de posicionamento, no qual o mais importante não é transformar a realidade, mas demonstrar que se está “do lado certo”.

O problema dessa dinâmica é que ela pode produzir uma falsa sensação de avanço. Quando todos falam sobre racismo por alguns dias, parece que algo mudou. Mas, na prática, muitas estruturas permanecem exatamente como sempre foram. Empresas continuam sem diversidade em posições de liderança, ambientes profissionais seguem reproduzindo desigualdades e políticas públicas estruturais seguem sendo negligenciadas.

Enquanto isso, a pauta já foi substituída por outro assunto viral.

Outro efeito preocupante desse processo é o desgaste das próprias discussões raciais. Quando temas sérios passam a ser tratados como tendências passageiras, existe o risco de banalização. O debate se torna repetitivo, superficial ou reduzido a disputas de narrativa nas redes, afastando a profundidade necessária para compreender as raízes do problema.

Isso não significa que as redes sociais sejam inimigas do debate racial. Pelo contrário. Elas têm sido fundamentais para dar visibilidade a denúncias, mobilizar comunidades e ampliar vozes historicamente silenciadas. Mas é preciso reconhecer que visibilidade não é sinônimo de transformação.

Transformação exige continuidade. Exige compromisso mesmo quando o tema não está mais nos trending topics. Exige estudo, escuta e disposição para enfrentar desconfortos.

A luta contra o racismo nunca foi, e nunca será, uma tendência. Trata-se de um processo histórico, social e político que exige muito mais do que posicionamentos momentâneos. Exige responsabilidade.

Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo seja justamente esse: transformar a indignação passageira das redes em consciência permanente. Porque, quando o debate racial vira apenas conteúdo, corre-se o risco de esquecer que, fora da tela, as consequências do racismo continuam sendo muito reais.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Felipe Ruffino

    Felipe Ruffino é jornalista, pós-graduado em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação, possui a agência Ruffino Assessoria e ativista racial, onde aborda pautas relacionada à comunidade negra em suas redes sociais @ruffinoficial.

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