Teresina (PI) – O debate “Equidade e acesso na educação infantil”, realizado na terça-feira (24) como parte da 11ª edição do Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância, trouxe à tona desafios de acesso, qualidade e equidade na educação infantil brasileira.
O evento é promovido pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) e reúne pesquisadores, educadores e gestores nacionais e internacionais, com foco em experiências intersetoriais e implementação de políticas públicas.
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O painel foi mediado por Beatriz Abuchaim (Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal) e contou com a participação de Edneia Gonçalves (Ação Educativa), Emilene Souza (UFMA) e Claudia Baré (Espaço Cultural Indígena Uka Mbuesara Wakenai Anumarehit), discutindo educação antirracista, escolaridade indígena e inclusão desde os primeiros anos de vida
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Racismo estrutural e educação de qualidade
Para a coordenadora executiva da ONG Ação Educativa, Edneia Gonçalves, enfrentar o racismo desde a primeira infância é uma urgência.
“Qualidade da educação é educação antirracista, é educação equitativa. Nenhuma criança de até seis anos precisa carregar vergonha e humilhação para o resto da vida escolar”, afirmou.
Gonçalves destacou que respostas superficiais ou ausência de protocolos podem reforçar preconceitos. “Se uma criança diz ‘não vou dar a mão para ela porque ela é preta’ e a professora apenas intervém sem diálogo, o racismo é ensinado e naturalizado”, explicou.
A educadora reforçou ainda que bullying não pode ser confundido com racismo. “O racismo é coletivo e institucional. Uma criança não é apenas agressora ou vítima; ela reproduz ou sofre um problema social muito maior”, completou.
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Educação indígena e respeito à diversidade
A antropóloga Emilene Souza, professora associada da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), ressaltou a importância de compreender os modos próprios de socialização das crianças indígenas, que se relacionam com o território, os animais e os mais-que-humanos.
“As crianças indígenas precisam de uma escola que compreenda e respeite esses modos de educar. É urgente garantir políticas que não as deixem invisíveis, especialmente aquelas que vivem em cidades”, destacou.
Souza também afirmou que 54% da população indígena brasileira vive fora de territórios tradicionais, tornando essencial a adaptação das políticas públicas à diversidade urbana.
A pedagoga Claudia Baré, fundadora do Espaço Cultural Indígena Uka Mbuesara Wakenai Anumarehit, compartilhou a experiência de construção do Centro Municipal de Educação Escolar Indígena Wakenai Anumarehit. O espaço localizado no Parque das Tribos, em Manaus (AM), é voltado ao fortalecimento da identidade indígena e à garantia de um espaço seguro e acolhedor.
“Educação é um direito e também nosso modo originário de existir. Precisamos que as crianças se sintam acolhidas, reconhecidas e confortáveis, mesmo em contexto urbano”, afirmou.
Baré contou que precisou investir recursos próprios e mobilizar a comunidade para estruturar a escola, que hoje atende crianças a partir dos três anos, oferecendo um espaço de pertencimento e fortalecimento cultural.
A educadora detalhou ainda os desafios enfrentados: discriminação de alunos indígenas, necessidade de manter vínculos culturais e a importância da participação dos anciãos como guardiões do conhecimento.
“Aqui, crianças e famílias encontram acolhimento, cultura e educação integradas. É mais do que ensinar conteúdos: é proteger a vida, a identidade e a resistência de um povo”, reforçou.
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Equidade como prática pedagógica
O debate evidenciou que equidade na educação infantil vai além de ampliar vagas, é garantir qualidade, respeito à diversidade, formação docente e enfrentamento do racismo estrutural.
“Equidade é olhar para as diferenças como positivas, não como desigualdade. É narrar a resistência negra e indígena como parte da democracia, articular saberes acadêmicos e saberes dos territórios. Isso constrói uma aprendizagem significativa”, destacou Edneia Gonçalves.
Entre as práticas essenciais apresentadas para enfrentar o racismo estão: formação continuada de profissionais, protocolos claros para atuação em casos de discriminação, avaliação institucional e diálogo constante com famílias e comunidades.
O jornalista viajou a Teresina a convite do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI).