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A trajetória de Merllin Batista, 1ª presidente negra de comunicação da Brazil Conference

Em conversa exclusiva com a Alma Preta, ela detalha sua trajetória acadêmica, atuação na saúde da população negra e planos para o SUS
Merllin Batista, primeira presidente negra da Brazil Conference.

Merllin Batista, primeira presidente negra da Brazil Conference.

— Divulgação/Brazil Conference

12 de abril de 2026

Boston, EUA – No último sábado de março estava frio em Boston, mas a cerimônia de abertura da Brazil Conference (BC) estava lotada. Os olhos e ouvidos dos presentes voltados para o púlpito inclinaram o clima da sala para a Merllin Batista. No meio de tantas personalidades consolidadas, a primeira presidente negra da comunicação do evento internacional chega e anuncia um encontro disruptivo, interdisciplinar e inovador. Afinal, o ponto-chave e inicial daquilo tudo começa pela trajetória e trabalho de uma história de superação e ancestralidade. 

Em resumo, ela é fisioterapeuta formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com mestrado e doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Natural de Humaitá, no Amazonas, às margens do Rio Madeira, se define como uma mulher preta amazonense cuja trajetória é profundamente marcada pela educação pública.

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A primeira presidente negra da BC

Atualmente, Merllin atua como presidente de comunicação da Brazil Conference 2026 e se prepara para iniciar seu pós-doutorado na Universidade de Harvard.

Sua atuação acadêmica e profissional está centrada em saúde da população negra, inovação em saúde e desenvolvimento de tecnologias com foco em equidade.

Apesar do tom corporativo do evento, a Alma Preta teve a oportunidade de quebrar com o protocolo e entrevistá-la de forma íntima e exclusiva. Na sala de imprensa, recheada de grandes nomes do mercado brasileiro, sentamos por uma hora para compreender o que e quem tinha feito a primeira presidente negra da BC chegar e operar uma das maiores Conferências de Harvard.  

Trajetória de persistência e resiliência

Nascida em de Humaitá, no Amazonas, Merllin relata que teve na educação seu principal meio de acesso a oportunidades. “Eu só tive educação como passaporte”, afirma.

Desde muito jovem inserida no ambiente escolar, construiu toda a sua formação em instituições públicas. Durante o ensino médio, em uma escola pública de destaque no estado, desenvolveu habilidades de liderança ao atuar como presidente de grêmio estudantil.

Apesar disso, os desafios logísticos marcam sua entrada na universidade. Uma vez que para estudar no campus de Coari da UFAM, enfrentava longas jornadas que combinavam diferentes meios de transporte.

“Para sair de Humaitá e chegar até Coari, eram dias de deslocamento entre estrada, avião e barco”, relembra, evidenciando as barreiras geográficas enfrentadas no acesso ao ensino superior na região amazônica.

Em tempo, ao falar sobre sua formação, Merllin se emociona ao destacar o impacto das universidades públicas brasileiras em sua trajetória. Ela afirma ser fruto direto de políticas públicas de expansão do ensino superior, como o REUNI, que possibilitaram o acesso ao ensino universitário em regiões mais afastadas.

Segundo ela, a universidade pública não apenas formou sua base científica, mas também sua atuação política e coletiva, especialmente durante sua passagem pela FMUSP, onde participou de instâncias institucionais e ajudou a fundar o primeiro coletivo negro da Faculdade de Medicina em mais de um século de existência.

Leia mais: Estudantes do RN desenvolvem pesqueiro sustentável e se destacam em Harvard

Ancestralidade e referências

No entanto, Merllin Batista revela a ancestralidade como um pilar profundo e inegociável de sua trajetória. Mais do que memória, ela descreve essa dimensão como uma presença viva que atravessa sua história. Mesmo sem ter conhecido a avó em vida, carrega esse vínculo por meio das narrativas e do afeto herdado do pai.

“O amor e o carinho que o meu pai dá para a gente era o que ele recebia da minha avó”, afirma, ao revelar como essa conexão ancestral se mantém pulsante em sua formação.

Em tempo, ela acrescenta que essa caminhada é sustentada por mulheres que atuam diretamente em sua trajetória. Nesse sentido, ela reconhece em Sueli Carneiro e Sônia Guimarães não apenas referências, mas mentoras com quem mantém diálogo constante. “Quando eu tenho qualquer medo ou receio, eu falo com elas”, conta.

Ao olhar para esse percurso, reforça que honrar as mulheres negras que vieram antes é parte essencial do caminho, reconhecendo que sua presença hoje é fruto das lutas e conquistas dessas gerações.

Hanna Batista: ‘Ela é minha conexão com casa, com afeto’

A falar sobre sua relação com a irmã, a diretora de cena Hanna Batista, Merllin deixa transparecer a dimensão afetiva que sustenta sua trajetória. A relação entre as duas é descrita como um elo profundo, construído no cuidado e na presença constante ao longo da vida.

“Ela é minha conexão com casa, com afeto”, afirma, ao destacar o papel central da irmã em sua formação pessoal e emocional.

Não só nesse propósito, mas também como uma relação que traduz uma visão de mundo. Por isso, ela entende que ninguém constrói uma trajetória sozinho, especialmente em contextos marcados por desigualdades.

“Se hoje eu estou aqui, foi porque ela esteve comigo em todos os momentos”, diz. Portanto, para ela, a coletividade é um princípio que atravessa tanto a vida pessoal quanto a atuação profissional. 

Compromisso com a saúde da população negra do Brasil no SUS

A atuação de Merllin na pesquisa está centrada na saúde da população negra, motivada pela ausência de representatividade nos dados científicos tradicionais. Durante seu doutorado, desenvolveu um ensaio clínico voltado ao tratamento da dor lombar crônica, combinando exercício físico e educação em neurociência da dor.

A pesquisa alcançou pessoas em diversas regiões do Brasil e demonstrou o potencial da tele-reabilitação.

Neste caminho, Merllin pretende desenvolver, durante seu pós-doutorado em Harvard, uma plataforma digital de tele-reabilitação em fisioterapia, com foco em acessibilidade e aplicação no Sistema Único de Saúde (SUS).

A profissional defende o uso da tecnologia como ferramenta para reduzir desigualdades no acesso à saúde, especialmente em um país com grandes barreiras geográficas como o Brasil.

Ela reafirma sua crença no Sistema Único de Saúde como uma das principais políticas públicas do país. Para ela, contribuir com ele significa devolver à sociedade o investimento feito em sua formação, por meio de pesquisas aplicadas, inovação e atuação em espaços de decisão.

Seu objetivo é desenvolver soluções tecnológicas que possam ser incorporadas ao sistema público, ampliando o acesso e a qualidade do atendimento.

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Brazil Conference destaca o coletivo e a interdisciplinaridade das áreas para construção de soluções

Como presidente de comunicação da edição de 2026, Merllin destaca que a construção do evento foi coletiva, liderada por quatro co-presidências responsáveis por diferentes áreas: comunicação, logística, impacto social e captação de recursos.

Segundo ela, a definição do tema partiu de uma intencionalidade conjunta: ampliar o debate para além das bolhas acadêmicas tradicionais.

“A proposta da conferência foi conectar perspectivas diversas em um mesmo espaço, promovendo diálogos plurais sobre temas centrais como saúde, ciência, tecnologia, desigualdades sociais, educação e sustentabilidade, especialmente em um contexto político sensível, marcado por um ano eleitoral”, completa. 

Além disso, Merllin ressalta a importância de construir pontes entre o Brasil e instituições como Harvard e MIT, utilizando o espaço acadêmico internacional para projetar debates fundamentais sobre o país.

De acordo com a presidente, os próprios desafios do Brasil exigem soluções construídas a partir do diálogo entre diferentes áreas do conhecimento. Essa perspectiva também se reflete na composição da equipe organizadora, formada por mais de 160 estudantes de diversas áreas e universidades.

Ela destaca ainda o papel da curadoria de conteúdo em promover “mesas improváveis”, capazes de reunir visões distintas para gerar soluções mais completas e inovadoras.

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  • Victor Oliveira

    Jornalista formado pela Unesp e pós-graduando em Jornalismo Digital. Atualmente é Gerente de Projetos da Alma Preta Jornalismo.

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