Boston, EUA – A Brazil Conference terminou em clima de Copa, celebrando em seu último painel uma das paixões nacionais. Com a unificação das duas salas do espaço de conferência da Universidade de Harvard, em Boston, mais de 1 mil espectadores acompanharam as falas do pentacampeão mundial Marcos Evangelista de Morais, o Cafu.
Com o objetivo de abordar o tema da Copa do Mundo a partir de lições de liderança e superação, o jornalista e comunicador esportivo Benjamin Back recebeu o lateral da Seleção para destacar temas de comportamento e desenvolvimento pessoal, como resiliência, inspiração e motivação.
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Durante a conversa, o ex-jogador falou sobre o começo da sua carreira e salientou a persistência necessária para se tornar um jogador de futebol.
“Me falaram noves meses que eu não tinha condições de ser jogador. Pobre, negro e humilde: eu não tinha nada, mas eu queria ser jogador de futebol. A vida, a periferia e a experiência me transformaram no que eu sou”, relembroua com orgulho.
Em um contexto de desenvolvimento de jovens, o atleta buscou trazer reflexões de inspiração aos alunos brasileiros que estudam no exterior. De acordo com ele, é fundamental se preparar para as oportunidades.
“Nós nunca sabemos quando ela vai chegar. Vocês não podem ter medo de arriscar, pois o medo de perder tira a vontade de ganhar”, disse.
Muito além da Copa: a história de luta que definiu Cafu
Apesar do tema central da palestra, Cafu trouxe a atenção das pessoas presentes a partir da sua história de vida. Em tempo, o jogador relembrou de momentos da infância e as dificuldades que teve de enfrentar para realizar seus objetivos.
“Meu pai sempre me falou a mesma coisa quando era mandado embora dos clubes: Filhão, são barreiras na sua vida que só você pode superar”, contou.
Em uma das quatro vezes que foi dispensado do São Paulo, Cafu passou a atuar em umo clube de Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo.
“Não sabia onde ficava o clube e quando meu pai me explicou a distância do trajeto fiquei assustado. Eram longas horas no transporte público, mas eu sabia do meu objetivo, por isso me preparava na parte da noite além das período treinando no clube”, relembra.
bicampeão do mundo contou que teve a possibilidade de participar de uma peneira contra o juniores do mesmo São Paulo depois de um ano e dois meses atuando pelo time.
“Fiquei impressionado, pois além da estrutura do clube, o preparo físico dos jogadores era muito superior”.
Apesar das dificuldades daquele dia, o então menino franzino do Jardim Irene foi convidado para treinar por um mês nas dependências do clube paulista.
“Quando terminou o jogo, o treinador falou que três jogadores do Itaquaquecetuba foram selecionados. No dia seguinte, eu já estava no centro de treinamento do tricolor para iniciar meu período de 30 dias de teste”, conta.
Em um momento de sinceridade, ele revelou que não contou ao pai sobre a oportunidade recebida. “Não queria decepcioná-lo mais uma vez. Passados 15 dias, cheguei na sala do diretor do júniores pensando que iria ser mandado embora. No final das contas, ele falou que a gente tinha sido avaliado por profissionais de performance e que tínhamos sido aprovados na peneira do clube”, detalha.
Apesar da alegria, o painelista compartilha que esse momento lhe traz uma lição muito importante. “Quando passamos nos lugares, achamos que ninguém está vendo. No dia da aprovação, o diretor disse que há um ano e dois meses estavam monitorando a gente. Por isso, faça porque você deve fazer. Se preparem, pois quando alguém perguntar, vocês vão bater no peito e estar prontos”, completa.
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Legado e liderança: Cafu revela que o exemplo, a disciplina e a empatia formam grandes líderes

Durante sua fala, o paulistano compartilhou que sua trajetória no futebol é, antes de tudo, uma história de superação e construção diária. O ex-capitão da Seleção Brasileira relembrou as dificuldades enfrentadas até se tornar campeão do mundo e destacou que nunca se acomodou com suas conquistas.
“Cada conquista é algo especial. Mas eu nunca me contentei com o que tinha conquistado. A cada vitória, eu queria mais”, afirmou acrescentando que o crescimento vem da capacidade de se desafiar constantemente.
A disciplina foi apontada como um dos pilares de sua carreira. Ele destacou que, mesmo diante de críticas, sua resposta sempre foi o trabalho.“
Cada vez que alguém falava que eu não tinha mais condições, eu treinava duas vezes mais”, disse. Ele também relembrou momentos decisivos, como a mudança de posição durante sua passagem pelo São Paulo, incentivada pelo técnico Telê Santana.
“Quando mudamos de posição, temos que querer mudar. Eu sempre quis aprender, principalmente com os mais velhos”, completou. Essa mentalidade o preparou para oportunidades inesperadas, como na Copa de 1994, quando passou 32 dias sem jogar, mas se manteve pronto: “Eu não esperei a oportunidade, eu me preparei para quando ela chegasse”.
Ao falar sobre liderança, Cafu foi direto: liderar grandes jogadores, como na Seleção de 2002, foi “a coisa mais fácil do mundo”, justamente porque havia respeito construído pelo exemplo. “O líder não é o temido, é o respeitado. E ele se faz respeitar pelas atitudes”, destacou.
Segundo ele, a função do líder é ser um elo entre diferentes forças, jogadores, comissão técnica, imprensa e família, e saber extrair o melhor de cada pessoa.
“Ninguém faz nada sozinho. Futebol é divisão de responsabilidades. Quando alguém erra, o líder não expõe. Ele apoia. Critique no privado, elogie em público”, aconselhou.
Ao projetar o futuro da Seleção Brasileira, Cafu demonstrou otimismo. Ele acredita que o Brasil tem condições de conquistar mais um título mundial, desde que haja organização e continuidade.
“Precisamos de padrão de jogo. No Brasil, somos muito momentâneos, trocamos treinadores o tempo todo”, analisou.
Sobre nomes atuais, ele destacou a importância de Neymar, afirmando que o craque ainda é peça fundamental, mas reconheceu que a decisão final passa pelo técnico Carlo Ancelotti. “Ele é um cara honesto, só vai levar quem estiver em condições”, disse.
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Um alerta que vai além do futebol: a urgência no combate ao feminicídio

No trecho final, Cafu ampliou o alcance de sua mensagem ao abordar o feminicídio como uma das questões mais urgentes da sociedade. Ele destaca que a violência contra a mulher não pode ser naturalizada e reforçou que a mudança começa dentro de casa, na forma como homens são educados e se relacionam com o outro.
Ao trazer o tema para um espaço marcado por histórias de superação no esporte, ele evidenciou que caráter, respeito e responsabilidade social caminham juntos — e que combater o feminicídio também é um compromisso coletivo, que exige consciência, posicionamento e ação no dia a dia.