O Brasil tem quase 7 milhões de pessoas trabalhando como babás, faxineiras, cozinheiras, lavadeiras, diaristas, cuidadores de idosos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maioria é mulher, negra, pobre e chefe de família.
Legado da escravidão, o trabalho doméstico é tão fundamental nos dias de hoje que foi decretado como “essencial” durante a pandemia de Covid-19, o que ampliou tragicamente o número de mortes das profissionais no período.
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Se as trabalhadoras domésticas estão dentro da casa de milhões de brasileiros desde o século XIX, e o trabalho que fazem é tão essencial, por que elas praticamente não aparecem na história da literatura brasileira? Foi essa a pergunta que moveu a tese de doutorado da jornalista e pesquisadora Mariana Filgueiras, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
O trabalho foi contemplado no Prêmio Capes de Tese 2025 e acaba de ser lançado como livro, com o título “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”. A obra pode ser baixada gratuitamente no site da editora Pangeia.
Personagens não têm nome e quase sempre foram violentadas
O livro tem o nome de “Quirinas” por causa da personagem Mãe Quirina, do conto “Babá” (1904), de Lima Barreto.
“Este conto é uma das raras exceções na forma como a trabalhadora doméstica aparece na literatura brasileira. O narrador de Lima se interessa pela personagem, conta a história da sua vida, o que a gente não vê quando examina o cânone. No levantamento que fiz, o mais recorrente é que essas personagens apareçam sempre de forma muito estereotipada, sem nome, apanhando, estupradas, sempre associadas à ignorância. São usadas como escada, alívio cômico, pouco falam”, aponta Mariana.
Segundo a autora, é desolador pensar que a maioria dos escritores brasileiros não teve qualquer interesse na subjetividade dessas mulheres.
“Em desenvolver alguma trama, dar a elas um nome, nada. Personagens com imenso potencial dramático, que testemunham as entranhas da elite, são desprezadas”, observa.“Há críticos literários que defendem que a estereotipia ou a invisibilização das empregadas domésticas sejam recursos estéticos da denúncia social, ouvi muito isso em congressos. Depois desse levantamento, não tem como concordar com isso. É uma prática muito recorrente, um padrão, um sintoma da neurose cultural brasileira, como diria Lélia González”.
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Primeira protagonista só aparece em 2018, no livro ‘Perifobia’, de Lília Guerra
A virada começa a acontecer em 2015, quando surgem os primeiros romances tendo trabalhadoras domésticas como narradoras ou com participação mais efetiva nas tramas. Até que aparecem as primeiras domésticas protagonistas, de fato, em contos e romances, em 2018.
“Não tenho dúvidas de que este é um efeito simbólico da Lei de Cotas, da Lei das Domésticas, por exemplo, e de outras políticas públicas que resultaram na mobilidade social dessas mulheres. Seus filhos e netos entraram na universidade, começaram a escrever as histórias das mães e avós, tanto que muitos romances são dedicados a elas. É um momento especial e que não tem volta. Desde 2018, já foram lançados mais de dez romances com domésticas como protagonistas. Em 2024, um deles, ‘Louças de família‘, de Eliane Marques, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura”, compara Mariana, pesquisadora com longa experiência também em jornalismo cultural.

‘Estereótipos positivos também desumanizam as personagens’
Com arte da capa de Manuela Navas, “Quirinas” analisa mais detidamente títulos como “Perifobia” (Lilia Guerra, 2018); “Com armas sonolentas” (Carola Saavedra, 2019); “Suíte Tóquio” (Giovana Madalosso, 2020); “Solitária” (Eliana Alves Cruz, 2022), romances que a autora considera os primeiros na história literária brasileira a colocar a personagem da trabalhadora doméstica no centro da narrativa.
Em todos esses títulos, afirma Mariana, as personagens têm sua subjetividade investigada, seus familiares integram suas tramas e o trabalho doméstico ganha novos pontos de vista.
“O trabalho doméstico passa a ser um tema da narrativa, uma ação no enredo, criando cenas muito originais, e isso desperta conversas, questionamentos, de forma orgânica, não necessariamente panfletária ou didática”, analisa.
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A autora lembra do risco que a reabilitação da personagem também corre diante do que chama de “estereótipos positivos”.
“A socióloga Patricia Hill-Collins usa um conceito que acho fundamental neste debate, o de ‘imagens de controle’, ou seja, estereótipos que engessam a personagem, o que acontece tanto negativamente quanto positivamente. Na ânsia de reabilitar personagens que foram esquecidas por décadas, é preciso ter cuidado para não criar heroínas com ações previsíveis no enredo, sem falhas de caráter, sem contradições. Isso também as desumaniza”, conclui a autora.