A circulação de conteúdos enganosos já impactou diretamente decisões coletivas em territórios quilombolas e indígenas pesquisados no Brasil. É o que aponta o relatório “Territórios Digitais: Confiança, Desinformação e Governança da Inteligência Artificial a partir do Sul Global”, lançado pela jornalista e pesquisadora Marcelle Chagas.
O estudo investiga como a desinformação, as plataformas digitais e os sistemas de inteligência artificial influenciam relações de confiança, lideranças comunitárias e processos de organização territorial.
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A pesquisa foi realizada no Quilombo Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis (RJ), e na Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, em Guarulhos (SP), no âmbito do programa Mozilla Tech & Society Fellowship.
Entre os principais resultados, 81% dos participantes afirmaram confiar prioritariamente em lideranças comunitárias, anciãos, professores e agentes de saúde. Ao mesmo tempo, 73% relataram exposição frequente a conteúdos políticos enganosos.
Outros 56% disseram que narrativas falsas já influenciaram decisões coletivas dentro dos territórios pesquisados. Além disso, 42% associaram a inteligência artificial a riscos como a vigilância e a perda de autonomia.
Para Marcelle Chagas, os dados demonstram a necessidade de incluir comunidades tradicionais nos debates sobre tecnologia e governança digital.
“A governança da inteligência artificial não pode ser construída ignorando os territórios mais impactados pela desinformação, pela vigilância e pelas desigualdades digitais. O Sul Global não é apenas receptor dessas tecnologias — é produtor de conhecimento e inovação sobre como governá-las”, afirma.
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Quando a desinformação atinge a comunidade
Além dos dados quantitativos, o relatório documenta situações em que a circulação de informações falsas provocou impactos concretos na vida comunitária.
Um dos casos apresentados envolve o cacique Alex Ribeiro, da Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra. Durante um período de atendimento médico regular na aldeia, se espalhou a informação de que ele teria solicitado a demissão da profissional responsável pelo posto de saúde. Segundo a pesquisa, a informação era falsa, mas circulou por grupos de mensagens sem qualquer verificação.
O episódio teve consequências para a liderança da comunidade. A autoridade do cacique passou a ser questionada, assembleias foram afetadas e a construção de consensos se tornou mais difícil.
“A desinformação fez com que ninguém mais acreditasse em mim”, relata Alex Ribeiro no estudo.
O relatório define situações como essa como formas de “violência informacional territorializada”. Segundo a pesquisa, a desinformação atua como instrumento de controle político e de enfraquecimento de lideranças, produzindo efeitos sobre a saúde emocional, a segurança e a autonomia das comunidades.
De acordo com a análise, os ataques costumam atingir pessoas que exercem funções de mediação de conflitos, articulação de políticas públicas e preservação da memória coletiva. Quando essas figuras perdem legitimidade, toda a estrutura comunitária sofre impactos.
Inteligência artificial e participação comunitária
O estudo também discute a governança da inteligência artificial sob a perspectiva de povos indígenas e comunidades quilombolas. A pesquisa sustenta que os debates sobre regulamentação e desenvolvimento dessas tecnologias ainda concentram poder em governos e grandes empresas, enquanto populações diretamente afetadas permanecem afastadas dos espaços de decisão.
“O debate sobre IA não pode ficar restrito a governos e grandes empresas de tecnologia. Precisamos discutir legitimidade, participação comunitária e os impactos concretos dessas tecnologias em territórios periféricos, indígenas e quilombolas”, afirma Marcelle Chagas.