Por muitos anos, o rap brasileiro foi marcado por uma predominância masculina, tanto nos palcos quanto nos bastidores da indústria. Embora mulheres negras façam parte da construção do hip-hop desde os anos 1980, foi apenas nos últimos anos que elas passaram a ocupar, de forma mais ampla, espaços de destaque no gênero.
Para pesquisadoras e artistas, esse movimento não representa uma ruptura espontânea, mas o resultado de décadas de organização coletiva, resistência e transformação das formas de circulação da música.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Entre as pioneiras desse processo está Negra Li. Criada na Brasilândia, na zona norte de São Paulo, a artista iniciou a carreira aos 16 anos como integrante do grupo RZO, um dos principais nomes da história do rap nacional.
Mesmo com a dificuldade feminina em conquistar visibilidade na cena, construiu uma trajetória que ultrapassou o hip-hop, conquistando espaço na televisão, no cinema e na música popular brasileira, sem abandonar as raízes que marcaram sua formação.
Em entrevista à Alma Preta, Negra Li avalia que a presença das mulheres negras no rap mudou significativamente, mas afirma que o caminho ainda é marcado por desigualdades.
“Hoje, temos mais espaço, mais respeito e mais mulheres ocupando lugares que antes pareciam impossíveis. Mas isso não significa que a luta acabou. Ainda enfrentamos machismo, racismo e precisamos provar nossa capacidade o tempo todo”, afirma.
Para a cantora, as artistas passaram a construir novas referências para meninas negras que desejam ingressar na música.
“Quando comecei, quase não existiam mulheres ocupando esse lugar. Hoje, vejo meninas se reconhecendo em outras artistas e entendendo que também podem escrever suas histórias. Isso é muito poderoso.”
A pesquisadora e jornalista Nerie Bento afirma que esse protagonismo não surgiu de forma espontânea. Segundo ela, o crescimento da presença feminina no rap é consequência de um trabalho iniciado ainda no fim dos anos 1980 e fortalecido por gerações de artistas que enfrentaram diferentes formas de exclusão.
Bento afirma que a principal transformação não ocorreu dentro da cultura hip-hop, mas na forma como essas artistas passaram a se comunicar com o público.
“As redes sociais e as plataformas digitais permitiram que elas construíssem suas próprias comunidades. Antes, as mulheres dependiam de um espaço que era majoritariamente dominado pelos homens. Hoje, elas conseguem chegar ao público primeiro no ambiente digital e depois ocupar os palcos”, destaca.

Protagonismo construído por gerações
Na avaliação de Nerie Bento, a atual geração mantém uma relação de continuidade com as pioneiras do rap brasileiro.
“É quase um movimento de Sankofa. As artistas de hoje conseguem se consolidar porque as mulheres que vieram antes desafiaram a ideia de que o rap era exclusivamente masculino.”
De acordo com a pesquisadora, essa conexão também aparece na valorização das referências históricas. Ela lembra que artistas da nova geração frequentemente convidam nomes como Rúbia D’W, Sharylaine, Stefanie e Cris SNJ para participações em shows e projetos, reforçando uma construção coletiva da memória do hip-hop.
Essa continuidade também é percebida por Negra Li. Para a rapper, o crescimento da presença feminina só foi possível porque diferentes gerações insistiram em permanecer na cena, mesmo diante das dificuldades.
“Cada mulher que veio antes abriu uma porta para quem chegou depois. Hoje, conseguimos enxergar uma corrente de fortalecimento entre as artistas. Isso faz toda a diferença”, aponta a artista.
Leia mais: Cinco mulheres negras que transformam a música e a indústria cultural brasileira
Machismo mudou de forma, mas continua presente
Apesar da ampliação da visibilidade, a desigualdade permanece como um dos principais desafios para mulheres negras no rap.
Nerie Bento afirma que o machismo deixou de ser tão explícito quanto em décadas anteriores, quando artistas tinham apresentações interrompidas, eram retiradas dos palcos ou tinham seus nomes apagados de materiais de divulgação.
“Hoje, essas situações diminuíram, mas a desigualdade continua existindo em outros níveis.”
A pesquisadora ressalta que a autonomia conquistada pelas artistas reduziu a dependência da validação masculina. Porém, segundo Bento, a diferença econômica continua expressiva.
“Antes, uma mulher precisava que grandes nomes do rap dissessem que ela era boa para ser reconhecida. Hoje, isso mudou. Elas construíram um público próprio. No entanto, se antes elas ganhavam dez e os homens cem, hoje elas ganham cem e eles mil.”
Negra Li compartilha avaliação semelhante. Segundo a cantora, ainda há obstáculos para permanecer na indústria e ampliar espaços de atuação.
“O mercado continua sendo muito mais difícil para as mulheres negras. Precisamos lidar com preconceitos que se somam e, muitas vezes, trabalhar o dobro para conseguir o mesmo reconhecimento.
Leia mais: ‘A estrutura do rap foi pensada para o homem’, dispara Ebony em podcast
Outro debate presente no hip-hop envolve a expressão “rap feminino”. Embora parte das artistas rejeite o termo, Nerie Bento defende que ele continua tendo importância política e que a expressão não representa um gênero musical, mas uma ferramenta de organização coletiva.
“Foi com essa categoria que conseguimos criar festivais, coletivos, reivindicar políticas públicas e cobrar mais mulheres nos festivais e nas plataformas de streaming.”
Abandonar completamente essa nomenclatura, afirma a pesquisadora, significaria ignorar desigualdades que ainda persistem na cena.
“A gente ainda não chegou lá. Existem mais mulheres em destaque, mas milhares continuam sem conseguir acessar esses espaços”, completa.
Edição: Solon Neto
Colaboração: Aymê Brito