“Os desafios estão sempre em não reproduzir comportamentos negativos e, principalmente, em escutar mais a criança”, reflete o diretor de arte e fotógrafo Willians Prado, 39 anos, sobre sua experiência como pai.
Morador de São Bernardo do Campo (SP) e pai de Benício, de 2 anos e 6 meses, ele acredita que a parentalidade positiva pode ser um caminho poderoso para romper os ciclos de violência que atingem, de forma desproporcional, as crianças negras desde a primeira infância.
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Para Willians, a sociedade ainda sustenta uma lógica autoritária na criação de filhos, o que muitas vezes ignora a subjetividade e os sentimentos das crianças. “Educar não é só mandar, mas escutar e acolher”, defende.
Seu olhar traduz um princípio fundamental da parentalidade positiva: substituir práticas punitivas por relações baseadas no afeto, no respeito mútuo e na escuta ativa.
Esse entendimento passou a ter respaldo legal no Brasil com a aprovação da Lei 14.826, de março de 2024, que reconhece oficialmente a parentalidade positiva como estratégia de enfrentamento à violência e aos abusos cometidos contra crianças. A legislação reforça diretrizes já previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que proíbe práticas cruéis e defende a proteção integral da infância.
Crianças negras, sobretudo na primeira infância, enfrentam barreiras históricas para seu pleno desenvolvimento, mesmo dentro dos lares — espaços que deveriam ser sinônimos de segurança e acolhimento.
Dados recentes confirmam a gravidade desse cenário. De acordo com o Atlas da Violência, divulgado em maio de 2025, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 2.124 crianças de 0 a 4 anos foram vítimas de homicídio no Brasil entre 2013 e 2023.
Somente em 2023, a taxa de homicídios nessa faixa etária foi de 1,2 por 100 mil crianças, indicando um leve aumento em relação ao período anterior, apesar de uma tendência de queda ao longo da última década.
O levantamento também revela um dado alarmante — a residência foi o principal local de ocorrência da violência, com 67,8% dos casos envolvendo crianças de até 4 anos acontecendo dentro de casa. E em 79,5% das ocorrências, a origem foi a violência doméstica.
Educar com amor é romper ciclos de violência
Willians tem encontrado apoio e aprendizado no coletivo Pais Pretos Presentes, espaço de troca entre cuidadores e famílias negras. Nas rodas de conversa do coletivo, ele descobriu ferramentas para fortalecer sua prática parental e refletir sobre os impactos do racismo nas formas de criar e cuidar.
“O racismo tem sua parcela de culpa em como a parentalidade preta é vista. No entanto, não deixo isso influenciar na forma como ela é exercida”, afirma. Para ele, construir uma criação baseada no afeto e na dignidade é também um ato de resistência.
Ao lado de sua companheira, Rosineide de Jesus, de 31 anos e estudante de Economia, Willians tem buscado cultivar em casa um ambiente de acolhimento e liberdade.
Para além do núcleo familiar, ele acredita que o fortalecimento da parentalidade positiva passa por uma ação coletiva. “Acredito que devemos organizar grupos em torno do tema para promover os benefícios da parentalidade positiva nesses espaços e também no processo de mudança social.”

Parentalidade positiva e a construção de identidade negra
Assim como Willians, o empreendedor Vinicius Assis, de 43 anos, morador do bairro de Santana, na Zona Norte de São Paulo, acredita que a parentalidade positiva é um caminho para curar feridas do passado e construir relações mais saudáveis com os filhos.
Embora só tenha conhecido o termo depois de já estar exercendo a paternidade, ele e a esposa, Gislaine Nogueira, de 45 anos, sempre carregaram o desejo de criar Beatriz, de 25, Theo, de 13, e Gaeo, de 10, desde a infância, em um ambiente de afeto, respeito e escuta — bem diferente do que viveram em suas próprias infâncias marcadas pela violência.
Apesar de não haver muita resistência fora de casa, Vinicius e a companheira vivem um processo diário de aprendizado para não reproduzir comportamentos violentos — até aquelas pequenas atitudes, como uma fala ou um olhar que carrega preconceito.
“É um trabalho diário, de dentro para fora”, diz ele. Além disso, ele fala sobre o peso do racismo, que não só influencia como educa os filhos, mas também a forma como ele é visto pelos outros — muitas vezes injustamente rotulado como pai autoritário ou agressivo.
Na criação dos filhos, Vinicius aposta na liberdade e no fortalecimento da autoestima. Ele incentiva que eles façam suas próprias escolhas, sem julgamentos, como quando o caçula usa os sapatos da mãe e recebe elogios em vez de reprimendas.
Também busca criar espaços onde eles possam se reconhecer e se conectar com a cultura negra, levando-os a rodas de samba, feiras e encontros com amigos pretos, para que se sintam parte de uma comunidade que valoriza sua identidade.
Ele ressalta a importância de falar desde cedo sobre raça, explicando as dificuldades que os filhos vão enfrentar por serem negros, mas também reforçando que eles são capazes de conquistar muito.
Violência contra crianças compromete desenvolvimento
A violência contra crianças é uma das formas mais graves de estresse tóxico, que pode causar danos profundos ao desenvolvimento físico e emocional dos pequenos.
A professora sênior do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e integrante do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), Maria Beatriz Linhares, explica que a violência se manifesta de diferentes formas, como abuso sexual, agressão física, violência psicológica e negligência.
“Violência é um estresse tóxico, nas suas diferentes formas”, destaca a profissional, que detalha os tipos de violência que atingem crianças e adolescentes, desde abusos presenciais ou virtuais até a falta de cuidados básicos.
De acordo com Linhares, esses maus-tratos, conhecidos como Experiências Adversas na Infância (ACEs), provocam uma reação intensa e prolongada ao estresse, que pode comprometer a saúde da criança tanto no presente quanto ao longo da vida.
Para a professora, entre as consequências estão problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e comportamento agressivo, além de doenças físicas como obesidade e doenças cardiovasculares.
Segundo a pesquisadora, crianças que sofrem punições físicas, como palmadas, tendem a apresentar mais agressividade e dificuldades de adaptação. “As práticas parentais violentas estão associadas a problemas comportamentais que podem se estender até a adolescência e a vida adulta”, explica.
Parentalidade positiva como ferramenta de prevenção
Diante desse cenário, a parentalidade positiva surge como uma estratégia fundamental para prevenir a violência e promover um ambiente seguro para as crianças.
Linhares reforça a importância de investir nos cuidadores, pois são eles que garantem a segurança e o desenvolvimento saudável dos pequenos. “Parentalidade positiva, disciplina não-violenta, cuidados responsivos e fortalecimento dos vínculos afetivos são a base da proteção às crianças”, afirma.
Uma das iniciativas que têm mostrado resultados promissores é o programa ACT-Para Educar Crianças em Ambientes Seguros, da Associação de Psicologia Americana, desenvolvido em 2001 e adaptado para o Brasil e validado pelas professoras Maria Beatriz Linhares e Elisa Rachel Pisani Altafim, da Pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
Linhares explica que o ACT é uma estratégia que promove encontros semanais em grupo com famílias, nos quais são discutidos temas como o desenvolvimento infantil, prevenção da violência, regulação emocional e comportamental, disciplina positiva, estilos parentais e o monitoramento do uso de mídias eletrônicas.
A pesquisadora destaca que o programa tem mostrado resultados positivos, melhorando as práticas parentais e reduzindo punições e problemas de comportamento em crianças de até seis anos. Desde 2019, o ACT está incorporado em políticas públicas no Brasil.
“As práticas parentais positivas são fundamentais para a boa comunicação, regulação emocional e comportamental, disciplina positiva sem punições e violências. Carinho e limites combinam o estilo parental participativo e protetivo do desenvolvimento da criança e reduz problemas de comportamento infantil”, finaliza.
Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.
