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Conflito no Sudão desloca dezenas de milhares e Tribunal Penal Internacional alerta para crimes de guerra

Após a tomada de El Fasher por forças paramilitares, ONU denuncia atrocidades e deslocamento em massa; mais de 36 mil civis fogem
Uma mulher deslocada descansa em Tawila, na região de Darfur, no oeste do país, devastada pela guerra, em 28 de outubro de 2025, após fugir de El-Fasher depois da queda da cidade para as Forças de Apoio Rápido (RSF).

Uma mulher deslocada descansa em Tawila, na região de Darfur, no oeste do país, devastada pela guerra, em 28 de outubro de 2025, após fugir de El-Fasher depois da queda da cidade para as Forças de Apoio Rápido (RSF).

— Reprodução/AFP

3 de novembro de 2025

A Promotoria do Tribunal Penal Internacional (TPI) afirmou, nesta segunda-feira (3), que os ataques cometidos na cidade de El Fasher, no Sudão, podem configurar crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O alerta foi emitido uma semana após a tomada da cidade pelas Forças de Apoio Rápido (FAR), grupo paramilitar que desmantelou o último reduto do Exército na região de Darfur.

O órgão do TPI declarou “profunda preocupação” com os relatos de assassinatos em massa, estupros e outros crimes ocorridos após o cerco de 18 meses à cidade, caracterizado por bombardeios e fome. “Esses atos, se comprovados, podem constituir crimes de guerra e crimes contra a humanidade sob o Estatuto de Roma”, afirmou o escritório do procurador em comunicado oficial.

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Desde o avanço das FAR, em 26 de outubro, surgiram relatos de execuções, saques, ataques contra trabalhadores humanitários e sequestros em El Fasher e arredores, onde as comunicações permanecem interrompidas. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais de 65 mil pessoas tenham fugido da cidade, enquanto dezenas de milhares continuam presas em meio à violência.

Deslocamento de civis e expansão do conflito para Kordofan

De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), mais de 36 mil civis fugiram recentemente de localidades do estado de Kordofan do Norte, ao leste de Darfur, após a intensificação dos combates. A ONU informou que, entre as vítimas, estão cinco voluntários do Crescente Vermelho — organização pertencente à Cruz Vermelha que atua em países e regiões de tradições islâmicas.

As FAR estabeleceram uma administração paralela em Darfur, enquanto o governo pró-Exército mantém sede em Port Sudan, no litoral do Mar Vermelho. O Exército e as FAR disputam o controle de El Obeid, capital de Kordofan do Norte, ponto estratégico que liga Darfur à capital Cartum.

Moradores relataram aumento expressivo da presença militar e o avanço de veículos das FAR pela região. Martha Pobee, secretária-geral adjunta da ONU para a África, advertiu que Kordofan pode se tornar o próximo epicentro do conflito, denunciando “graves atrocidades” e “represálias étnicas” nas localidades conquistadas pelos paramilitares.

Pior crise humanitária do mundo

As FAR têm origem na milícia árabe Janjaweed, acusada de genocídio em Darfur há duas décadas. Em outubro, o TPI condenou o ex-comandante Ali Muhammad Ali Abd-Al-Rahman, conhecido como Ali Kushayb, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos entre 2003 e 2004.

A Promotoria do tribunal afirmou que a decisão deve servir como um alerta para os atuais líderes envolvidos no conflito, lembrando que “haverá responsabilização por crimes atrozes”. O TPI mantém jurisdição sobre os crimes cometidos em Darfur e solicitou o envio de provas e testemunhos por meio de canais seguros.


A guerra no Sudão, iniciada em abril de 2023, opõe o general Abdel Fatah al-Burhan, chefe do Exército e líder de fato do país desde o golpe de 2021, ao general Mohamed Daglo, comandante das FAR. O conflito já deixou dezenas de milhares de mortos e forçou quase 12 milhões de pessoas a abandonar suas casas, configurando, segundo a ONU, a pior crise humanitária do mundo.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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