As urnas fecharam nesta quinta-feira (15) em Uganda após um processo eleitoral que ocorreu sob apagão da internet e atrasos causados por falhas técnicas. O presidente ugandês, Yoweri Museveni, busca estender seus 40 anos no poder.
Museveni, de 81 anos, que chegou ao poder à frente de um exército rebelde em 1986, é amplamente apontado como favorito para um sétimo mandato. O resultado se deve ao seu controle total sobre o Estado e o aparato de segurança.
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Apesar disso, em um estádio de Kampala, reduto da oposição, houve comemorações, segundo informações da agência francesa de notícias AFP. Uma multidão acompanhou a contagem de votos e os mesários leram as cédulas do principal desafiante, o cantor e político Bobi Wine.
Bobi Wine, de 43 anos, que se intitula “presidente do gueto” em referência às áreas pobres onde cresceu, acusou o governo de “fraude eleitoral em massa”. Ele afirmou que agentes de seu partido foram presos sob a cobertura do apagão de internet decretado pelo governo nesta semana.
“Estamos realizando eleições no escuro”, disse Wine após votar. “Isso é feito para facilitar a fraude planejada pelo regime”, completou. O candidato pediu que a população de Uganda resista.
Grupos de direitos humanos descreveram a campanha de Wine como alvo de “repressão brutal“. Na reta final das eleições, centenas de seus apoiadores foram detidos. Wine usou colete à prova de balas em comícios e definiu a eleição como uma “guerra”, chamando Museveni de “ditador militar”.
Problemas técnicos e presença militar
Em muitas seções eleitorais, a votação teve atrasos de várias horas. As falhas ocorreram com a chegada lenta das urnas e com máquinas biométricas, usadas para verificar a identidade dos eleitores. Alguns atribuíram os problemas ao bloqueio da internet.
O próprio Museveni relatou dificuldades com os equipamentos. “Coloquei minha impressão digital direita […] a máquina não aceitou. Coloquei a esquerda, também não aceitou”, disse a jornalistas. Ele afirmou que a máquina só aceitou o escaneamento de seu rosto, o que permitiu seu voto.
Apesar das tensões, o processo transcorreu sem violência substancial, segundo um porta-voz da Cruz Vermelha ugandense. Houve, no entanto, forte presença de polícia e exército durante todo o dia. As autoridades demonstraram determinação para evitar protestos contra o governo, como os registrados recentemente no Quênia e na Tanzânia.
Apoio da população
O governo justificou o corte da internet como necessário para evitar a disseminação de “desinformação” e “incitação à violência”. A Organização das Nações Unidas (ONU) considerou a medida “profundamente preocupante”. Na semana da eleição, o governo suspendeu dez organizações não governamentais, incluindo observadores eleitorais, o que a Human Rights Watch denunciou.
Muitos ugandenses ainda atribuem a Museveni o fim do caos pós-independência e o rápido crescimento econômico do país, mesmo com a ocorrência de escândalos de corrupção.
Museveni permanece no poder há quatro décadas, período marcado por estabilidade institucional após conflitos do pós-independência, além de crescimento econômico e denúncias recorrentes de corrupção. O presidente mantém relações estratégicas com países ocidentais desde a implementação de reformas econômicas nos anos 1980 e pela atuação militar regional, especialmente na Somália.
Museveni afirmou que seu voto, quando finalmente registrado, foi para quem “acredita em Uganda […] e acredita na África”. Os resultados oficiais devem ser divulgados em até 48 horas.
Um país recentemente independente
Uganda está localizado na África Centro-Oriental, a oeste do Quênia e a leste da República Democrática do Congo, e faz fronteira ainda com Ruanda, Sudão do Sul e Tanzânia. O país foi declarado colonizado pela coroa britânica em 1894 e conquistou a independência em 1962.
Possui uma população superior a 45 milhões de habitantes, com alta densidade demográfica em comparação a outros países africanos, concentrada sobretudo nas regiões central e sul, próximas aos lagos Vitória e Alberto. O país abriga cerca de 65 grupos étnicos, entre eles Baganda, Banyankole, Basoga, Bakiga e Iteso, e tem como idiomas oficiais o inglês e o suaíli, além de línguas nacionais como o luganda.
A composição religiosa inclui majoritariamente cristãos, com predominância de protestantes e católicos, além de uma população muçulmana relevante. A economia é baseada principalmente na agricultura, apesar da presença de recursos naturais como cobre, cobalto, ouro, sal, calcário e potencial hidrelétrico. O país não figura entre os mais ricos do continente, mas exerce papel regional relevante na África Oriental.