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Entenda como Ruanda age para enfraquecer a República Democrática do Congo e criar um estado autônomo

Relatório da ONU mostra com detalhes os movimentos feitos por Ruanda para enfraquecer o Estado congolês na parte leste do país e construir um estado autônomo na região.
Flickr/@Paul Kagame

Presidente de Ruanda, Paul Kagame, que está em seu quarto mandato no país.

— Flickr/@Paul Kagame

27 de julho de 2025

Ruanda incentiva a criação de um estado autônomo no leste da República Democrática do Congo (RDC). As informações são de um relatório sobre a RDC da Organização das Nações Unidas (ONU), ao qual a Alma Preta teve acesso.

O M23, milícia armada apoiada por Ruanda, invadiu Goma (capital do Kivu do Norte) em 27 de janeiro e Bukavu (capital do Kivu do Sul) em 15 de fevereiro. As duas cidades ficam no leste da RDC e, desde então, mais de 7 mil pessoas foram mortas.

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“De acordo com fontes da AFC/M23 e das Forças Armadas de Ruanda, assim como de fontes próximas do governo de Ruanda, os objetivos declarados incluem a criação de uma região autônoma no Leste da RDC, refletido nas tentativas da AFC/M23 de criar novas estruturas governamentais”, diz o texto.

O documento aponta que o M23 tenta construir um estado paralelo com o objetivo de destruir a autoridade congolesa. Eles querem se consolidar como autoridade oficial na região e arrecadar dinheiro. Para acabar com as informações do Kivu do Norte e do Kivu do Sul, adotaram a estratégia de apagamento de dados.

O movimento anunciou dois líderes, Erasto Bahati Musanga e Birato Emmanuel, como governadores do Kivu do Norte e Kivu do Sul, respectivamente. Eles também instalaram forças policiais, serviços de migração e sistemas de inteligência.

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Houve uma troca pelo serviço de migração congolês por pessoas indicadas pelo M23. Essa mudança é estratégica para Ruanda, porque elimina qualquer fiscalização sobre o transporte de bens saqueados da RDC para o vizinho.

O relatório conta sobre a substituição do tradicional sistema de impostos por uma ação de extorsão de empresários, organizações internacionais ou não governamentais para a arrecadação de dinheiro pela milícia. Algumas, que negaram o pagamento, foram ameaçadas de terem as atividades fechadas. Outras iniciativas simplesmente saíram com medo de retaliação.

Soldados rebeldes do M23 embarcam em caminhonetes na cidade de Goma para escoltar Erasto Bahati Musanga, governador do Kivu do Norte, e Corneille Nanga, o chefe da Aliança do Rio Congo. A aliança é uma coalizão de grupos rebeldes no leste da RDC da qual o M23 faz parte. Foto: Jospin Mwisha / AFP

Morador de Bukavu ouvido pela reportagem afirmou que a rebelião é uma “desordem” e que não existe “lei”. Ele contou que sente a população como “escravizada”, sem o direito de escolha, de se pronunciar.

O relatório é fruto do trabalho de um grupo de peritos da ONU sobre a RDC, como um desdobramento de uma decisão do Conselho de Segurança. A missão de paz da ONU no país, a Monusco, deu suporte para o desenvolvimento do documento. 

O método utilizado foi procurar e organizar os poucos documentos disponíveis e a entrevista de  testemunhas, vítimas, membros das comunidades atingidas e fontes das Nações Unidas. O relatório reforça que houve verificação de todas as informações.

M23 interfere na economia e viola direitos humanos

A chegada do M23 a Goma e Bukavu fez o governo da RDC fechar os bancos na região, com o medo de roubos da milícia, o que suspendeu os sistemas de pagamentos e saques. 

Isso foi um limitador da economia local. Fonte ouvida pela Alma Preta em Bukavu contou que, com a ocupação militar e o fechamento dos bancos, muitas empresas pararam de funcionar na região, o que ocasionou a perda de empregos.

Além disso, a ocupação das áreas rurais pelo grupo rebelde também dificulta a produção de alimentos, o que deixa a população com dificuldades para comer.

Refugiada Zigire Antoinette cuida dos filhos doentes no campo de refugiados. Eles estavam há dois dias e meio sem comer. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

O M23 chegou a anunciar a abertura de um banco, para atuar como um banco paralelo, o que ainda não aconteceu. Os motivos incluem o fato de o grupo armado estar sancionado; a necessidade de um governo nacional aprovar a instituição; a aceitação ao sistema internacional de transações bancárias; e o reconhecimento do Banco de Compensações Internacionais.

O grupo rebelde ainda constituiu um chamado serviço de inteligência, para identificar possíveis inimigos. Prisões sem investigação e sem processo legal se tornaram rotineiras nas áreas ocupadas, como sentenças, que podem ser espancamentos ou execuções. 

O grupo também conduziu inspeções em hospitais em Goma durante o período da noite, como parte de operações para procurar soldados congoleses, ou combatentes de milícias aliadas do governo de Kinshasa, como as Forças Democráticas para Libertação de Ruanda (FDLR), milícia armada contrária ao governo de Kigali.

Mais sobre o M23:

De acordo com dados de dois hospitais de Goma, Heal Africa e o CBCA Ndosho, 164 pacientes foram retirados do hospital. Os milicianos chegaram a entrar em instalações da ONG Médicos Sem Fronteiras em Goma.

Sob anonimato, um morador da cidade de Bukavu contou para a reportagem que as pessoas na cidade já estão acostumadas com a guerra, e que a rotina acontece de maneira normal, com o trabalho. 

Há, contudo, medo das agressões e das prisões arbitrárias por parte do M23. Ele ainda disse que em áreas residenciais mais centrais, os problemas são menores e que as agressões costumam acontecer nos bairros mais populares.

Para evitar problemas, as pessoas adotam estratégias, como retornar para casa antes das 19h e não sair da residência no horário da noite.

Outra opção é a saída da cidade. A Alma Preta visitou um campo de refugiados em Kalemie, capital da província de Tanganyika. A maioria das 1.627 famílias do local, ou são de Goma ou Bukavu. Ainda existem as pessoas de Uvira, vila ameaçada pelos combates. 

Lá, pessoas de Bukavu relataram para a reportagem que saíram da cidade porque tinham medo de sair de casa e temiam morrer de fome.

Mesmo assim, a fome era um fato no campo de refugiados em Kalemie. A refugiada Zigire Antoinette, que estava com seus três filhos, disse que eles estavam há dois dias e meio sem comer.

O apoio dado por Ruanda para a captura de Goma e Bukavu

Militares do exército de Ruanda. Foto: Flickr/@Paul Kagame.

O relatório da ONU acessado pela reportagem confirma que o exército de Ruanda prestou um apoio essencial para o M23 ocupar as cidades de Goma e Bukavu.

O país, comandado pelo presidente Paul Kagame, colaborou com equipamento militar, sistemas de defesa aérea, drones, e uma presença “drástica” das forças militares de Ruanda durante a ocupação.

Na prática, Ruanda participou diretamente na ocupação do território congolês e deu um apoio mais discreto para o M23 na manutenção das áreas conquistadas. 

O relatório aponta que Ruanda recrutou novos membros para a milícia com alguns objetivos, de neutralizar a FDLR e a derrubada dos poderes do governo de Kinshasa na região. 

Com a ocupação, Ruanda passou a ter um acesso mais facilitado aos minerais congoleses. Aquela região é rica em minas de cobalto, coltan, ouro, entre outros minérios. Desde o fim de 2024, o M23 ocupa a mina de Rubaia, que concentra cerca de 15% de todo o coltan do mundo. 

“O controle de grande parte do Kivu do Norte e do Kivu do Sul por parte do M23 garante a Ruanda acesso aos territórios ricos em minerais e as terras férteis, e a crescente influência de Ruanda sobre a RDC”, diz o relatório.

General brasileiro que chefiou a Monusco enfatiza o apoio de Ruanda ao M23

O general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz foi comandante militar da Monusco entre 2013 e 2016 e liderou as forças da ONU para impor derrotas para o M23 — que quase foi extinto na época. Ele acredita que o incentivo de Ruanda para a expansão da área sob controle do M23 pode evoluir para uma futura perda territorial do Congo.

General Santos Cruz, durante o período em que foi comandante militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização da República Democrática do Congo (Monusco), em 2013. Crédito: Flickr/Monusco.

“A situação  atual pode ser o primeiro passo para a expansão territorial de Ruanda. Isso é uma coisa que sempre foi bastante comentada. Ruanda usa o M23 para expandir a sua influência numa certa área para que haja um  governo paralelo. E esse governo paralelo está vinculado a quem? Está vinculado a Ruanda”, afirmou o militar à Alma Preta.

Para ele, não há uma novidade sobre o assunto, e destaca o papel de Ruanda no apoio à iniciativa de construção de uma administração paralela. 

“O M23 é apoiado por Ruanda, é parte de Ruanda, tem soldados ruandeses misturados no M23. Isso aí é público, todo mundo sabe. Como é que o M23 tem atividade, tem material, tem toda estrutura militar, tem uniforme, tem tudo? Ele recebe isso de onde? O governo paralelo, essa expansão territorial, ela está vinculada ao apoiador”, afirma Santos Cruz.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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