Enviado especial a Kalemie, na República Democrática do Congo.
Era dia 28 de junho deste ano quando milhares de pessoas se reuniram na cidade de Uvira, província do Kivu do Sul, leste da República Democrática do Congo, para o funeral do general Biriho Rukumeta. Ele era líder do Movimento de Patriotas em Defesa dos Nativos Congoleses (MPDAC), um dos tantos grupos paramilitares denominados Muzalendo, no singular, ou Wazalendos, no plural, (“patriotas”, em suaíli), que defendem o leste congolês contra Ruanda, Uganda e o grupo rebelde M23.
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A cerimônia atraiu civis e autoridades, incluindo o governador da província, Jean Jacques Purusi, e o presidente da assembleia provincial, Feston Zihindula Kabeza, e o ministro provincial do Interior e Segurança do Kivu do Sul, Albert Kahasha Murhula Alias Foka Mike, um antigo militar e combatente paramilitar.
A região leste vive sob tensão desde que o M23, grupo rebelde apoiado por Ruanda, ocupou Goma, capital do Kivu do Norte, em janeiro, e Bukavu, capital do Kivu do Sul, em fevereiro. Dados divulgados sobre a invasão pelo governo congolês em fevereiro, última atualização oficial, apontavam para 7 mil mortes. A região, em guerra desde 1996, contabiliza mais de 5 milhões de vidas perdidas, segundo a ONU.
Desde julho, cerca de 7 mil militares congoleses chegaram a Uvira, aumentando os temores de novos combates com o M23, que ocupa posições fora da cidade, na parte norte de Uvira.

A morte controversa de Biriho Rukumeta
Biriho Rukumeta, autoproclamado general, morreu em 14 de junho de 2025, aos 33 anos. Ele estava internado no Hospital Geral de Referência de Kasenga, em Uvira.
Sua juventude fez com que seus companheiros alterassem seu ano de nascimento para 1987, para legitimar uma imagem de líder experiente.
As circunstâncias de sua morte permanecem incertas. Uma versão aponta conflito interno entre os Wazalendos: ele teria sido baleado por companheiros de outros grupos durante um confronto armado contra aliados do M23. Isso se explicaria pela irritação de alguns membros invejosos com a possibilidade de Rukumeta ingressar na Reserva de Defesa do Exército (RAD). A segunda versão culpa uma milícia aliada do M23.

Os Wazalendos são grupos paramilitares de vilarejos e cidades do leste congolês formados por líderes locais que buscam a proteção territorial contra os “invasores”, que hoje são Ruanda, Uganda e seus aliados, como o M23. Uvira é um território com uma tradição de grupos de autodefesa, com um histórico desde 1960, no período da independência do país.
O lastro militar está presente na família de Biriho Rukumeta, o primeiro general Muzalendo morto em Uvira. O pai e um irmão são majores Wazalendo, e outros dois irmãos são coronéis. Todos são da tribo Bavira, de um clã de prestígio chamado Bakono.
Ele chegou a se formar, em 2008, na Université Progressiste des Grands Lacs (UPROGL), algo incomum para os combatentes Wazalendos. No MPDAC, grupo armado de Rukumeta, há pessoas de diferentes grupos étnicos, com uma maior presença de baviras e bafuleros, e formado por homens e mulheres.
Tensões políticas, familiares e étnicas no enterro de Rukumeta
O funeral de Rukumeta foi adiado três vezes. A cerimônia estava marcada para começar no dia 17 de junho. Haveria visita à casa do combatente, canções, honrarias militares, marcha fúnebre e depoimentos de autoridades da política congolesa. A previsão era que as homenagens terminassem em 20 de junho, uma sexta-feira.
Havia o desejo de garantir uma delegação de Kinshasa, capital do país. Por isso, o funeral foi adiado para os dias 23, 24 e 25 de junho e, finalmente, para 28 de junho.
Na data do funeral, novo adiamento, mas dessa vez de horário. A despedida marcada para às 9h teve início às 12h. O governador do Kivu do Sul chegou às 11h em Bujumbura, capital do Burundi, próxima de Uvira. No fim, nenhum representante de peso do governo de Kinshasa acompanhou a cerimônia.

Durante a despedida, o governador do Kivu do Sul, Jean Jacques Purusi, ressaltou a importância de Rukumeta na luta contra os inimigos e enviou um recado:
“Rukumeta permaneceu na frente de batalha. Não extorquiu dinheiro da população da cidade nem ergueu barreiras ilegais como os outros”, afirmou.
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Purusi se referia aos casos “severos” de quebra da “lei e da ordem” em Uvira desde 15 de fevereiro. Relatório da ONU afirma que “indisciplinados” e “elementos criminosos” das forças armadas e dos Wazalendos começaram a matar, saquear e a atacar civis.
O governador denunciou veementemente as práticas ilegais de tributação, citando mais de 1.142 bloqueios no Kivu do Sul, a maioria deles erguidos pelos Wazalendo. Na República Democrática do Congo, é comum encontrar barreiras militares ou de civis armados nas estradas onde os passageiros são parados para checagem de documentos e extorsão de dinheiro.
Mesmo com as críticas, o governador doou US$ 20.000 às duas viúvas de Rukumeta para a compra de um terreno. Ele não foi o único: o Ministro Provincial de Assuntos Internos doou seis vacas, enquanto os deputados provinciais presentes doaram US$ 500 e uma vaca.
Estratégias dos Wazalendos
Os políticos locais se aproximam dos Wazalendos como forma de garantir votos durante as eleições, explica Virgile Sumaili, professor da Universidade Notre Dame da província Tanganyka e doutorando na Universidade do Burundi. Em troca, oferecem suporte para a sobrevivência desses grupos armados no dia a dia e em momentos de crise.
“Os mesmos políticos intervêm para tirá-los da prisão, por exemplo”, conta.
Os Wazalendos não são formalizados, mas se amparam na legislação para atuarem. Um dos artigos da constituição afirma que “todos os congoleses têm o direito e o dever sagrados de defender o país e sua integridade territorial diante de uma ameaça ou agressão externa”.

A falta de formalidade, contudo, contribui para os combatentes adotarem estratégias variadas para sobreviver, como cobrança de dinheiro das comunidades, prestação de serviços de proteção de áreas como minas, ou mesmo saques.
René Itongwa, autoproclamado general da Frente Patriótica para Libertação do Congo, afirma que os casos de roubos e violências por parte dos Wazalendos precisam ser tratados de maneira individual, sem generalizar os combatentes. Ele diz que os Wazalendos são reconhecidos porque são da comunidade e não são confundidos com bandidos.
A mineração é outra fonte de receita para grupos paramilitares da região, que cobram para defender as minas. Perder território para o M23 é também deixar para o inimigo fontes de receitas seja por meio da proteção, seja por meio da extração de minérios. O presidente da RDC, Félix Tshekedi, já afirmou que Ruanda é o “vendedor dos minerais de sangue” da RD Congo.
Acusação de massacrar povo Banyamulenge
Os Wazalendos ainda são acusados no relatório das Nações Unidas de atacar os Banyamulenge, um grupo étnico presente na RDC e em Ruanda, mas associado ao governo do país vizinho e invasor. O relatório da ONU afirma que a maioria dos Banyamulenge rejeitam o M23, mas também são pressionados pelos invasores para prestar apoio com risco de serem assassinados.
O relatório ainda afirmou que desde a saída das forças oficiais de segurança de Uvira, os Wazalendos passaram a usar de maneira “desproporcional” a força contra os Banyamulenge, com a acusação de terem incendiado um campo de refugiados dessa etnia.
Líderes armados Banyamulenge, próximos do M23, passaram a afirmar que o governo da RDC busca acabar com a etnia, o que foi utilizado para justificar uma ação do M23 e do exército de Ruanda na região.
O general John Makanakiti Kasingira, do Movimento de Defesa Popular, afirma não ter qualquer problema com o grupo, mas com os ruandeses.
“O problema é com os ruandeses que se aliam ao M23. Não importa quem. Se meu irmão se aliar ao M23, ele será meu inimigo, porque eles lutam contra o estado congolês”.
A aliança frágil entre Wazalendos e o exército
Os Wazalendos atuam em parceria pontual com as Forças Armadas da RD Congo (FARDC) contra o M23. Durante a cerimônia, era difícil distinguir quem eram os soldados e os paramilitares. Os uniformes são os mesmos, em alguns casos alguns detalhes são adotados pelos Wazalendos para se diferenciarem.
No enterro, a bandeira da República Democrática do Congo era erguida por um militar diante de uma plateia de oficiais, entre eles, o general do exército Evariste Mwehu Lumbu, responsável pela região, e o general Dunia Kashindi Fabien, porta-voz das forças armadas durante a cerimônia.
A relação é marcada por desconfiança.
Quando o M23 avançou sobre Uvira, o exército recuou, deixando a defesa aos grupos locais. O general Jules Kituki Ukimwazi, do Movimento de Autodefesa Kibalo Kyetu (palavra que significa “nosso país” em Kivira, língua dos Bavira), afirma que os Wazalendos ganharam apoio popular por resistirem, enquanto soldados fugiam ou mudavam de lado.
“Os FARDC que abandonam a batalha para se aliar ao inimigo, eles não são patriotas. São inimigos entre muitos”, disse em entrevista para a Alma Preta sobre a fuga e a mudança de lado. Cerca de dois mil soldados, policiais e mesmo Wazalendos foram capturados e levados para centros de treinamento do M23, no Kivu do Norte.
A capacidade dos Wazalendos de enfrentar o M23 varia para cada grupo. O general Jules Kituki Ukimwazi coordena 14 postos espalhados pela região de Uvira. Em cada um deles, têm 120 combatentes, todos com uma insígnia no uniforme, para se diferenciar dos demais.
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Em março, após a tomada de Goma e Bukavu, autoridades foram para Uvira conversar com os líderes Wazalendo que controlavam a cidade e tentaram pacificar os grupos, ouvindo queixas sobre falta de apoio na luta contra o M23.
Relatos indicam que as tensões entre os Wazalendos e o exército podem chegar a situações mais extremas. Pessoas ouvidas pela Alma Preta falaram de ter visto paramilitares executando soldados congoleses em fuga para tomar suas armas.
Há ainda uma fragilidade na relação entre os Wazalendos, visível durante a cerimônia fúnebre, que contou com outros importantes Wazalendos, como os autoproclamados generais William Yakutumba, Kashumba e Kamama, além de Alexis Dunia, coordenador Wazalendo do sul da província de Kivu do Sul, nas cidades de Uvira, Fizi e Mwenga/Itombwe.
Perto do fim das cerimônias de luto por Biriho Rukumeta, um desentendimento começou entre alguns Wazalendo. Tiros foram disparados e houve a interrupção da cerimônia. Aquele era um protesto contra as ações do autoproclamado general Kashumba. Ele tentava atrair os combates do grupo de Biriho Rukumeta.
“As relações também dependem de certos líderes. Para alguns, eles têm mesmo uma relação de cooperação. Mas para outros as relações são de rivalidade”, contou Virgile Sumaili, professor da Universidade Notre Dame da província Tanganyka e doutorando na Universidade do Burundi.
A guerra, a paz e o futuro incerto da RDC
Em 27 de junho, RDC e Ruanda assinaram um acordo de paz mediado pelos EUA, prevendo retirada de tropas ruandesas até setembro. Mas os líderes Wazalendos desconfiam da efetividade do tratado.
“Que paz é essa quando o seu inimigo ainda ocupa as áreas do seu território nacional? Como cidadão congolês, eu sou livre para fazer o que quiser”, questiona René Itongwa, da Frente Patriótica para a Libertação do Congo.
O general Jules Kituki Ukimwazi, do Movimento de Autodefesa Kibalo Kyetu, acredita que a “paz é um processo” e que “a guerra vai continuar por um longo tempo”.
Ele só pensa em entregar as armas com a “garantia de uma boa governança”, o que significa para ele que os militares serão pagos, e melhor pagos. “Eu não posso entrar em um exército com as condições atuais”.
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Jules Kituki Ukimwazi critica as forças militares oficiais e avalia que é necessário que se instaure a autoridade do Estado. “Não existe disciplina entre os soldados do exército. Alguns Wazalendos são mais respeitados do que o exército”.
O general John Makanaki Kasimbira, do Movimento de Defesa Popular, diz que não reconhece o acordo de paz. “O meu objetivo é destruir o inimigo e expulsar os invasores para fora das fronteiras do Congo.”
Enquanto isso, os Wazalendos seguem armados, sustentados pela população e por políticos que buscam votos. Sua estrutura é improvisada: uniformes são retirados de cadáveres, armas são tomadas de desertores, e alguns combatentes usam até machetes.
Para os civis de Uvira, a linha entre proteção e violência permanece tênue. Corpos nas ruas e êxodos em massa mostram o custo de uma guerra sem fim, onde enterros de generais são também um reflexo das fraturas de um país em conflito.
* A Alma Preta contratou um fotojornalista para cobrir o enterro, mas ele preferiu não se identificar por questões de segurança.