Os Estados Unidos intensificaram seus esforços para garantir o fornecimento de minerais estratégicos na República Democrática do Congo (RDC), em uma tentativa de reduzir a dependência da China, que domina o setor mineral do país africano. O movimento ganhou força desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025.
A RDC, embora esteja entre os 15 países menos desenvolvidos do mundo, possui algumas das maiores reservas minerais do planeta. Além de ouro e urânio, o território concentra grandes depósitos de cobre, coltan, lítio e, principalmente, cobalto. Em 2024, mais de 75% da produção mundial de cobalto saiu das minas congolesas, segundo o Serviço Geológico dos EUA.
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O presidente congolês Félix Tshisekedi tem buscado ampliar a cooperação com Washington, oferecendo acesso direto a minerais em troca de maior apoio em segurança, diante da retomada das ofensivas do grupo armado M23, apoiado por Ruanda, no leste do país.
O corredor do Atlântico
Para contornar os riscos associados às áreas de conflito, os EUA voltaram sua atenção para a região de Katanga, rica em cobre e cobalto e menos afetada por confrontos. Nesse contexto, Washington aposta no chamado “Corredor de Lobito”, um projeto de infraestrutura que permitirá o transporte de minerais do sudeste da RDC até o Oceano Atlântico. A iniciativa rivaliza com a Nova Rota da Seda, promovida pela China.
Atualmente, empresas chinesas controlam a maior parte da exploração mineral congolesa, muitas vezes substituindo companhias ocidentais que abandonaram o país devido à instabilidade e corrupção.
Uma das principais apostas norte-americanas é a empresa KoBold Metals, especializada no uso de inteligência artificial para mapear novos depósitos minerais. Com apoio financeiro de investidores como Bill Gates e Jeff Bezos, a companhia assinou, em julho, um acordo com o governo congolês para explorar cerca de 1.700 áreas com potencial de mineração.
Segundo Jean-Jacques Kayembe, da Iniciativa para a Transparência nas Indústrias Extrativas (EITI), apenas 20% do território da RDC foi estudado de forma consistente desde a colonização belga. O novo mapeamento pretende atualizar dados ainda baseados em levantamentos de quase um século.
Ainda em julho, o registro de mineração da RDC abriu mais de 600 títulos após uma revisão de cadastros. O movimento foi visto por observadores como uma forma de atender às pressões norte-americanas, embora autoridades congolesas neguem que o país esteja “vendendo” seus ativos.
A presença dos EUA também se cruza com a influência persistente do empresário israelense Dan Gertler, sancionado por Washington desde 2017 por acordos considerados lesivos ao Estado congolês, que teriam retirado cerca de US$ 1,4 bilhão (R$ 5,41 bilhões) em receitas públicas. Apesar disso, Gertler ainda recebe royalties de três dos maiores projetos de mineração da RDC.
Representantes da sociedade civil congolesa lançaram em julho uma campanha pedindo o fim das sanções contra o empresário, o que mantém sua atuação como fator relevante nas negociações em curso.