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Golpes financeiros on-line crescem no leste da RD Congo em meio a conflito

Em meio ao avanço do M23 e crise económica, esquemas de pirâmide disfarçados de negócios de criptomoedas atraem e arruínam população de Bukavu e Goma
Pedro Borges/Alma Preta

Outdoor com mensagens de apoio ao exército congolês em Kinshasa.

— Pedro Borges/Alma Preta

8 de novembro de 2025

Golpes on-line que prometem riqueza rápida, muitos envolvendo o comércio de criptomoedas, aumentam na região leste da República Democrática do Congo (RDC). A busca pelas plataformas de suposto investimento ocorre em um contexto de colapso econômico e vácuo de autoridade, após o grupo armado M23 tomar o controle das cidades de Goma e Bukavu. No entanto, muitas dessas alternativas buscadas por residentes funcionam como esquemas de pirâmide.

Com os bancos fechados por determinação das autoridades de Kinshasa, que tentam impedir o financiamento do M23, parte da população passa a enxergar no investimento on-line uma saída para sobreviver. No entanto, a promessa de ganhos elevados depende do recrutamento constante de novos participantes, e os riscos de perda total são frequentes.

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John, funcionário público em Bukavu, afirmou à Agence France-Presse (AFP) ter obtido ganhos mensais ao aplicar valores aproximados de US$ 1.000 (R$ 5.356,10) em uma plataforma que opera sem sede física e se apresenta como uma “fundação internacional”.

Ele descreve passos simples para multiplicar o capital: acessar a plataforma diariamente e convidar outras pessoas a investirem. O modelo acompanha mecanismos típicos de pirâmide financeira: quanto mais usuários são convencidos a ingressar, mais recursos entram no sistema. Quando o fluxo diminui, os saques começam a travar.

Sem regulação e sem instituições financeiras operando normalmente, as vítimas não têm a quem recorrer.

Perdas repetidas e ausência de fiscalização

A crise prolongada no leste do país, alimentada por décadas de conflitos armados, cria o terreno para a disseminação desses golpes. Treinadores de segurança digital na região alertam que a combinação de desemprego, instabilidade e fechamento de bancos produz um ambiente propício para golpes.

Empreendedores e profissionais liberais relatam perdas significativas. Justin, empresário em Bukavu, lembra que também foi atraído por um sistema semelhante em 2018. Ele aplicou cerca de US$ 200 (R$ 1.071,22) e acompanhava o saldo crescer na tela. Um mês depois, a plataforma bloqueou todos os acessos. O dinheiro desapareceu.

Os advogados locais apontam que têm sido procurados frequentemente por vítimas. Com delegacias e tribunais vazios desde a ocupação armada, não há mecanismos concretos de responsabilização.

M23 administra e cobra impostos

Além da crise econômica, a presença do M23 em Goma e Bukavu altera a dinâmica social e financeira da região. O grupo instituiu taxas próprias para manter sua administração paralela. Serviços básicos também foram interrompidos, incluindo a produção de cerveja local, o que evidencia o impacto direto da guerra sobre as atividades cotidianas.

A impossibilidade de acessar bancos ou serviços de proteção jurídica reforça a escolha de parte da população por arriscar o pouco que possui em esquemas de alto risco. Mais de 70% da população vive com menos de dois dólares por dia.


A assinatura de um acordo de cessar-fogo entre o governo da RDC e o M23, mediado por países estrangeiros, não interrompeu os combates. Os esforços diplomáticos têm avançado, mas a retomada da normalidade econômica ainda não ocorreu.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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