Os líderes da República Democrática do Congo (RDC) e de Ruanda assinaram, nesta quinta-feira (4), um acordo de paz mediado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O acordo foi firmado enquanto novos combates colocam em dúvida a efetividade do pacto e num contexto de interesse do presidente estadunidense em minerais estratégicos no território democrático-congolês.
A assinatura ocorreu em Washington. Os presidentes Paul Kagame, de Ruanda, e Félix Tshisekedi, do Congo, participaram da cerimônia, mas adotaram um tom mais cauteloso que Trump. Kagame afirmou que “haverá altos e baixos no caminho à frente”.
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Tshisekedi disse que este é o “início de uma nova via, uma via exigente” e cobrou compromisso de Ruanda: “Esperamos que a República de Ruanda também respeite a letra e o espírito dos compromissos assumidos aqui em Washington.”
O acordo estabelece uma agenda de compromissos diplomáticos e medidas para a redução imediata da violência, embora as autoridades norte-americanas não tenham detalhado mecanismos de fiscalização do cessar-fogo.
No mesmo dia da assinatura, foram relatados bombardeios e tiroteios no leste da RD Congo, região rica em minerais estratégicos e palco de décadas de conflito. Um jornalista da Agence France-Presse (AFP) ouviu disparos nos arredores de Kamanyola, uma cidade controlada pelo grupo M23.
Ainda segundo a agência, fontes locais relataram que “muitas casas foram bombardeadas e há muitos mortos” na cidade de Kaziba, também sob controle do M23. Aviões de combate bombardearam a área na manhã de hoje (4), após dias de confrontos. A AFP aponta ainda explosões no posto fronteiriço de Bugarama, em Ruanda, o que levou a polícia a fechar a passagem temporariamente.
Contexto de acordos falhos e deslocamentos
A assinatura ocorre mais de cinco meses após os chanceleres dos dois países terem firmado outro acordo com Trump, que não conseguiu conter a violência. O conflito se intensificou no final de janeiro, quando o M23 capturou as cidades de Goma e Bukavu.
O grupo M23, que a Organização das Nações Unidas (ONU) acusa de ter apoio de Ruanda, nega os vínculos. Após o acordo de junho, mediado pelo Catar, as partes prometeram um cessar-fogo, mas depois se acusaram mutuamente de violações.
Fontes locais relataram um grande reforço de tropas e veículos blindados do M23 no planalto de Kivu do Sul, em uma movimentação que pode permitir o cerco à cidade de Uvira, o último grande centro urbano da região ainda fora de seu controle.
O presidente norte-americano qualificou o pacto de “um grande milagre”. Ele também disse que os dois líderes africanos, que passaram “muito tempo se matando”, agora passariam “muito tempo se abraçando, dando as mãos e tirando proveito econômico dos Estados Unidos da América, como qualquer outro país faz”.
Interesses minerais entram no centro da negociação
Trump afirmou que o acordo abre portas para a exploração de minerais por empresas dos EUA em Ruanda e na RDC. O Leste congolês abriga reservas essenciais para tecnologias globais, como baterias de veículos elétricos.
O presidente estadunidense já negociou uma participação para empresas norte-americanas na extração de minerais de terras raras em outros locais, incluindo a Ucrânia. O presidente declarou: “Vamos tirar algumas das terras raras. E todo mundo vai fazer muito dinheiro”.
A presença dos EUA também se cruza com a influência do empresário israelense Dan Gertler, sancionado por Washington desde 2017 por acordos considerados lesivos ao Estado congolês, que teriam retirado cerca de US$ 1,4 bilhão (R$ 5,41 bilhões) em receitas públicas. Apesar disso, Gertler ainda recebe royalties de três dos maiores projetos de mineração da RDC. A informação é da AFP.