A União Africana (UA) determinou a suspensão da Guiné-Bissau de todos os seus órgãos, em resposta à mudança de poder no país. A decisão ocorre dois dias após militares anunciarem a dissolução do governo e a interrupção da divulgação dos resultados das eleições presidenciais e legislativas.
O general Horta N’Tam, até então chefe do Estado-Maior do Exército, foi empossado como presidente de um período de transição de um ano. Ele nomeou Ilídio Vieira Té, ministro das Finanças no governo anterior, como primeiro-ministro. Em declaração, N’Tam afirmou que o povo da Guiné-Bissau “espera muito” dos novos líderes e defendeu a “restauração da segurança nacional e da ordem pública”.
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O presidente Umaro Sissoco Embalo, que havia sido detido, deixou o país com destino ao Senegal. O candidato oposicionista Fernando Dias, que reivindicou vitória no pleito, informou estar “em segurança” e permanece no território guineense.
Organizações internacionais reagiram à mudança. A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) suspendeu o país de seus órgãos decisórios. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, classificou a ação militar como “violação inaceitável dos princípios democráticos”. A União Europeia pediu “retorno rápido à ordem constitucional”.
Hipóteses sobre os motivos do levante
O presidente do Senegal, Ousmane Sonko, declarou que os eventos na Guiné-Bissau configuram uma “simulação”, sem detalhar. Ele defendeu a continuidade do processo eleitoral.
Fernando Dias, candidato da oposição, acusou o presidente deposto de ter “organizado” a mudança de poder para evitar uma transição. Analistas locais ouvidos pela Agence France-Presse (AFP) sugerem que o movimento pode representar uma manobra de reposicionamento político de Embalo.
Outra linha de análise aponta que tensões relacionadas a redes de tráfico de drogas podem ter influência no episódio. O general Denis N’Canha, chefe do gabinete militar da presidência, citou a existência de um plano que envolvia “barões da droga” e a “introdução de armas no país para alterar a ordem constitucional”.
Posição do Brasil
O governo brasileiro emitiu nota para manifestar “preocupação” com o anúncio do “Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e da Ordem Pública”. O Itamaraty lamentou a “suspensão arbitrária das eleições” e conclamou as forças políticas ao “diálogo pacífico” para o “retorno à ordem constitucional”. A Embaixada do Brasil em Bissau mantém plantão consular para atendimento a cidadãos brasileiros.
A Guiné-Bissau registra quatro mudanças de poder por via militar desde sua independência de Portugal, em 1974. A nação também é reconhecida como rota de tráfico de entorpecentes entre a América Latina e a Europa.