Irene Vida Gala, embaixadora brasileira em Kigali, capital de Ruanda, utilizou as redes sociais para afirmar que a próxima parada da campanha “Visite Ruanda” poderá ser o Brasil. A declaração foi proferida no último dia 29 de setembro e republicada pelo “The New Times”, principal jornal ruandês.
Ela sugeriu isso no mesmo dia da campanha ter anunciado uma parceria com o Los Angeles Clippers, um time da NBA, liga de basquete dos EUA, e o Los Angeles Rams, um time da NFL, liga de futebol americano.
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“E o próximo poderia ser um time de futebol brasileiro… O que acham disso?”, comentou a embaixadora.
Ruanda é acusada de apoiar o grupo armado M23, milícia opositora de Félix Tshekedi, atual presidente da República Democrática do Congo.
Desde o início do ano, o grupo rebelde e o exército ruandês controlam as cidades de Goma e Bukavu, capitais das províncias do Kivu do Norte e do Kivu do Sul. No fim de fevereiro, uma atualização de dados foi divulgada pelo governo da RDC, com a estimativa de 7 mil mortes na região. Nenhum novo número foi divulgado.
Um relatório recente da ONU, inclusive, aponta para as estratégias utilizadas por Ruanda para enfraquecer a administração congolesa naquela região. Especialistas entendem esse como um passo de Ruanda para tentar anexar aquele território.
A propaganda de Ruanda
Ao mesmo tempo em que patrocina o M23, o governo de Ruanda, presidido por Paul Kagame, apresenta para o mundo uma imagem de uma nação africana que superou a pobreza. Uma das estratégias é a campanha “Visite Ruanda”, criada em 2017, com o objetivo de atrair investidores e limpar a imagem do país.
A campanha estampa clubes conhecidos mundialmente, como o Paris Saint Germain, da França, e o Bayern de Munique, da Alemanha. O Arsenal, da Inglaterra, tirou a campanha da sua camiseta depois de pressão dos seus torcedores.
Antes de sugerir via redes sociais, Irene Vida Gala falou com a imprensa ruandesa no dia 8 de setembro sobre a possibilidade da campanha estampar a camiseta de um clube de futebol do Brasil dada a relevância do país no esporte.

“O Brasil tem grandes times de futebol que podem dividir a camiseta com Ruanda”, disse.
Irene Vida Gala foi nomeada embaixadora brasileira em Kigali no dia 23 de julho de 2025. No Itamaraty, a diplomata se destacou por sua atuação em países africanos.
Ela trabalhou em Angola entre 1993 e 1996, durante o período da guerra civil vivida pelo país entre 1975 e 2002.
Indignação de imigrantes congoleses
Imigrantes congoleses que vivem no Brasil criticam a campanha. Para eles, trata-se de uma tentativa do governo de Ruanda de limpar a sua imagem perante a opinião pública internacional.
Mariana Zawadi, integrante do coletivo A Voz do Congo e mestranda no Programa de Pós-graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da USP, afirma que a posição histórica do Brasil enquanto mediador de conflitos é algo que ela admira.
Ela, que cresceu na região do Kivu do Norte, a mais impactada pelos ataques do M23 e de Ruanda, se sente inconformada com a sugestão de Irene Vida Gala.
“Fico inconformada e decepcionada com a postura de uma representante do Brasil falar tão romanticamente de ‘Visite Ruanda’, uma propaganda boicotada internacionalmente. Me pergunto qual é o objetivo disso? A custo de quê? Vamos todos apoiar a propaganda e chamar mais gente para visitar Ruanda e, como de costume, vamos todos nos calar com o que acontece com o genocídio no Congo? Onde a vida humana, há muito tempo perdeu o seu lado sagrada e de inviolabilidade?”, questionou.

Para Grevisse Mulamba, a aproximação de Ruanda está em desacordo com a postura histórica do Brasil, de ser uma nação pacífica na arena internacional.
“Isso não é a cara do Brasil. O país sempre foi um país amado e pacífico”, afirmou.
Dinganga acha perigosa as aproximações e a atuação da embaixada em Kigali por conta da influência do Brasil na América Latina.
“O Brasil é um país grande, uma voz importante no cenário global. Não pode fazer uma parceria desse jeito, com essa hipocrisia do turismo, e não relacionada às prioridades em relação à paz”, contou.
Campanha Visite Ruanda já faz parte do dia a dia no Brasil
Antes da sugestão da embaixadora brasileira, a campanha Visite Ruanda já chegou ao Brasil. O governo ruandês convidou a influenciadora de viagens, Maria Guaragna, a passear pelo país africano, onde chegou no dia 4 de setembro.
Por lá, Guaragna chegou a passear pelo Lago Kivu, que fica na divisa entre Ruanda e a República Democrática do Congo. No lado congolês, o território está ocupado pelo M23, grupo rebelde apoiado por Ruanda.
Nos vídeos publicados nas redes sociais, a influenciadora brasileira destaca as ruas de Kigali, capital de Ruanda, cidade conhecida pela limpeza urbana, e a visita ao Parque Nacional Volcanoes, próximo da divisa com a RDC, onde há uma grande quantidade de gorilas e macacos.
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Guaragna ainda publicou um vídeo sobre a memória do genocídio de 1994, um dos principais crimes cometidos contra a humanidadade. Na ocasião, 800 mil pessoas foram mortas no intervalo de 100 dias, a maioria delas da etnia tutsi.
A memória do genocídio é um dos elementos de tensão entre Ruanda e a RDC. Os ruandeses acusam o governo congolês da época, ainda sob a gestão de Joseph Mobutu (1965-1997), de acolher os hutus responsáveis pelos massacres em Ruanda.
Apesar do cenário, a influenciadora não divulgou nenhum vídeo ou informação a sobre a guerra atual. Suas postagens também não mencionam as violações de direitos humanos cometidas pelo M23 nem as acusações feitas contra Ruanda de apoiar o grupo rebelde.

A campanha Visite Ruanda já esteve presente recentemente em dois eventos no Brasil. O primeiro foi a Feira da Indústria e Comércio (FIC) de Goiás, no Centro de Convenções de Goiânia, que começou em 29 de outubro. Nele, o governo de Ruanda construiu um estande com a campanha “Visite Ruanda”, onde divulgaram a mensagem de que o “país se destaca como um dos destinos mais dinâmicos, seguros e visionários da África”.
Logo depois, a campanha participou da COP30, em Belém, entre os dias 10 e 21 de novembro, quando a campanha Visite Ruanda era a principal mensagem do estande do país africano.
Ruanda tem se aproximado do Brasil em diversas áreas
A recém inaugurada embaixada brasileira em Kigali foi um dos fatores para estreitar as relações entre os dois países no campo da educação, segundo o próprio governo federal.
No dia 24 de setembro, o ministro da Educação, Camilo Santana, e a ministra da Educação de Ruanda, Claudete Irene, assinaram um acordo de cooperação entre os dois países. O acordo estimula o intercâmbio entre estudantes dos dois países e o aprofundamento das relações diplomáticas entre as duas nações.
Ruanda tem o interesse em conhecer mais o programa brasileiro de merenda escolar para implementar na nação africana. Os dois países também assinaram memorandos para troca de informações em outras áreas, como a saúde, meio ambiente e militar.