PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Invasora da RD Congo, Ruanda se aproxima do Brasil para limpar a imagem

Em pouco mais de dois meses, a campanha Visite Ruanda foi defendida pela embaixadora em Kigali, Irene Vida Gala, esteve na COP30 e participou de um evento comercial em Goiânia.
Pessoas participavam de reuniões no pavilhão de Ruanda durante a COP30 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

Pessoas participavam de reuniões no pavilhão de Ruanda durante a COP30 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

— Pessoas participavam de reuniões no pavilhão de Ruanda durante a COP30 (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

13 de dezembro de 2025

Irene Vida Gala, embaixadora brasileira em Kigali, capital de Ruanda, utilizou as redes sociais para afirmar que a próxima parada da campanha “Visite Ruanda” poderá ser o Brasil. A declaração foi proferida no último dia 29 de setembro e republicada pelo “The New Times”, principal jornal ruandês.

Ela sugeriu isso no mesmo dia da campanha ter anunciado uma parceria com o Los Angeles Clippers, um time da NBA, liga de basquete dos EUA, e o Los Angeles Rams, um time da NFL, liga de futebol americano.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

“E o próximo poderia ser um time de futebol brasileiro… O que acham disso?”, comentou a embaixadora. 

Ruanda é acusada de apoiar o grupo armado M23, milícia opositora de Félix Tshekedi, atual presidente da República Democrática do Congo.

Desde o início do ano, o grupo rebelde e o exército ruandês controlam as cidades de Goma e Bukavu, capitais das províncias do Kivu do Norte e do Kivu do Sul. No fim de fevereiro, uma atualização de dados foi divulgada pelo governo da RDC, com a estimativa de 7 mil mortes na região. Nenhum novo número foi divulgado.

Um relatório recente da ONU, inclusive, aponta para as estratégias utilizadas por Ruanda para enfraquecer a administração congolesa naquela região. Especialistas entendem esse como um passo de Ruanda para tentar anexar aquele território.

A propaganda de Ruanda

Ao mesmo tempo em que patrocina o M23, o governo de Ruanda, presidido por Paul Kagame, apresenta para o mundo uma imagem de uma nação africana que superou a pobreza. Uma das estratégias é a campanha “Visite Ruanda”, criada em 2017, com o objetivo de atrair investidores e limpar a imagem do país.

A campanha estampa clubes conhecidos mundialmente, como o Paris Saint Germain, da França, e o Bayern de Munique, da Alemanha. O Arsenal, da Inglaterra, tirou a campanha da sua camiseta depois de pressão dos seus torcedores.

Antes de sugerir via redes sociais, Irene Vida Gala falou com a imprensa ruandesa no dia 8 de setembro sobre a possibilidade da campanha estampar a camiseta de um clube de futebol do Brasil dada a relevância do país no esporte. 

A embaixadora brasileira em Kigali, Irene Vida Gala, ao lado do presidente de Ruanda, Paul Kagame. Foto: Flickr/@Paul Kagame.

“O Brasil tem grandes times de futebol que podem dividir a camiseta com Ruanda”, disse.

Irene Vida Gala foi nomeada embaixadora brasileira em Kigali no dia 23 de julho de 2025. No Itamaraty, a diplomata se destacou por sua atuação em países africanos.

Ela trabalhou em Angola entre 1993 e 1996, durante o período da guerra civil vivida pelo país entre 1975 e 2002.

Indignação de imigrantes congoleses

Imigrantes congoleses que vivem no Brasil criticam a campanha. Para eles, trata-se de uma tentativa do governo de Ruanda de limpar a sua imagem perante a opinião pública internacional.

Mariana Zawadi, integrante do coletivo A Voz do Congo e mestranda no Programa de Pós-graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da USP, afirma que a posição histórica do Brasil enquanto mediador de conflitos é algo que ela admira.

Ela, que cresceu na região do Kivu do Norte, a mais impactada pelos ataques do M23 e de Ruanda, se sente inconformada com a sugestão de Irene Vida Gala.

“Fico inconformada e decepcionada com a postura de uma representante do Brasil falar tão romanticamente de ‘Visite Ruanda’, uma propaganda boicotada internacionalmente. Me pergunto qual é o objetivo disso? A custo de quê? Vamos todos apoiar a propaganda e chamar mais gente para visitar Ruanda e, como de costume, vamos todos nos calar com o que acontece com o genocídio no Congo? Onde a vida humana, há muito tempo perdeu o seu lado sagrada e de inviolabilidade?”, questionou.

ONU acusa o exército de Ruanda de apoiar o M23, grupo rebelde que atua no leste da RDC. Foto: Flickr/@Paul Kagame.

Para Grevisse Mulamba, a aproximação de Ruanda está em desacordo com a postura histórica do Brasil, de ser uma nação pacífica na arena internacional.

“Isso não é a cara do Brasil. O país sempre foi um país amado e pacífico”, afirmou.

Dinganga acha perigosa as aproximações e a atuação da embaixada em Kigali por conta da influência do Brasil na América Latina.

“O Brasil é um país grande, uma voz importante no cenário global. Não pode fazer uma parceria desse jeito, com essa hipocrisia do turismo, e não relacionada às prioridades em relação à paz”, contou.

Campanha Visite Ruanda já faz parte do dia a dia no Brasil

Antes da sugestão da embaixadora brasileira, a campanha Visite Ruanda já chegou ao Brasil. O governo ruandês convidou a influenciadora de viagens, Maria Guaragna, a passear pelo país africano, onde chegou no dia 4 de setembro. 

Por lá, Guaragna chegou a passear pelo Lago Kivu, que fica na divisa entre Ruanda e a República Democrática do Congo. No lado congolês, o território está ocupado pelo M23, grupo rebelde apoiado por Ruanda.

Nos vídeos publicados nas redes sociais, a influenciadora brasileira destaca as ruas de Kigali, capital de Ruanda, cidade conhecida pela limpeza urbana, e a visita ao Parque Nacional Volcanoes, próximo da divisa com a RDC, onde há uma grande quantidade de gorilas e macacos.

Leia também:

Guaragna ainda publicou um vídeo sobre a memória do genocídio de 1994, um dos principais crimes cometidos contra a humanidadade. Na ocasião, 800 mil pessoas foram mortas no intervalo de 100 dias, a maioria delas da etnia tutsi.

A memória do genocídio é um dos elementos de tensão entre Ruanda e a RDC. Os ruandeses acusam o governo congolês da época, ainda sob a gestão de Joseph Mobutu (1965-1997), de acolher os hutus responsáveis pelos massacres em Ruanda.

Apesar do cenário, a influenciadora não divulgou nenhum vídeo ou informação a sobre a guerra atual. Suas postagens também não mencionam as violações de direitos humanos cometidas pelo M23 nem as acusações feitas contra Ruanda de apoiar o grupo rebelde.

Feira da Indústria e Comércio (FIC) de Goiás, no Centro de Convenções de Goiânia, o governo de Ruanda construiu um estande com a campanha “Visite Ruanda”. Foto: Twitter/@visitrwanda

A campanha Visite Ruanda já esteve presente recentemente em dois eventos no Brasil. O primeiro foi a Feira da Indústria e Comércio (FIC) de Goiás, no Centro de Convenções de Goiânia, que começou em 29 de outubro. Nele, o governo de Ruanda construiu um estande com a campanha “Visite Ruanda”, onde divulgaram a mensagem de que o “país se destaca como um dos destinos mais dinâmicos, seguros e visionários da África”.

Logo depois, a campanha participou da COP30, em Belém, entre os dias 10 e 21 de novembro, quando a campanha Visite Ruanda era a principal mensagem do estande do país africano. 

Ruanda tem se aproximado do Brasil em diversas áreas

A recém inaugurada embaixada brasileira em Kigali foi um dos fatores para estreitar as relações entre os dois países no campo da educação, segundo o próprio governo federal.

No dia 24 de setembro, o ministro da Educação, Camilo Santana, e a ministra da Educação de Ruanda, Claudete Irene, assinaram um acordo de cooperação entre os dois países. O acordo estimula o intercâmbio entre estudantes dos dois países e o aprofundamento das relações diplomáticas entre as duas nações. 

Ruanda tem o interesse em conhecer mais o programa brasileiro de merenda escolar para implementar na nação africana. Os dois países também assinaram memorandos para troca de informações em outras áreas, como a saúde, meio ambiente e militar

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano