Enviado especial a Kolwezi, na República Democrática do Congo.
“É preciso que os consumidores finais entendam que a mineração acontece aqui em um contexto cruel”, conta Donat Savú, ativista de direitos humanos e morador de Kolwezi, no sudeste da República Democrática do Congo.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
A cidade de Kolwezi é conhecida como a capital mundial do cobalto, um dos minerais mais importantes para a produção de itens de tecnologia. Para o desenvolvimento de uma bateria elétrica de um carro são necessários 13 quilos desse minério e, para um celular, 7 gramas.
O cobalto ganhou relevância com a chamada “transição energética”, a corrida para a mudança das fontes de energia do mundo. O objetivo é trocar combustíveis fósseis, em geral derivados de petróleo, por fontes renováveis e supostamente limpas (solar, eólica, hidráulica), sob a justificativa de redução de emissão de gases que provocam o efeito estufa e as mudanças climáticas.
Mas as novas fontes de energia demandam o uso de baterias que continuam a usar minerais não renováveis em sua fabricação, como o cobre e o cobalto que são extraídos no complexo de minas à céu aberto de Musonoi, que fica na província de Lualaba a 3 quilômetros da cidade de Kolwezi.
Crise humanitária na RD Congo:
- Crise climática faz Lago Tanganyika transbordar e gera deslocados internos na RDC
- Garimpeiros acusam seguranças de fornecedora da Tesla de tortura
- Congoleses enfrentam cólera, sarampo e mpox em região de guerra e enchentes
- Para refugiados, acordo de paz entre Congo e Ruanda é motivo de esperança
- Por que o Brasil não concede visto humanitário a congoleses, que enfrentam uma guerra que dura 30 anos?
Lá, a extração de cobalto e cobre atraiu a mineradora Commus, que explora a região desde 2017. Ela é a dona de algumas das minas de Musonoi e despeja na região resíduos de mineração em um aterro, que tem aproximadamente 1 km2 de área e pode ser visto de qualquer ponto do bairro.
A Commus é uma empresa chinesa de capital aberto, com 67% pertencente a um grupo societário chamado Zhejiang Industrial Minerals Foreign Trade Co., 28% da Gecamine, uma estatal congolesa do setor mineral, e 5% do estado congolês. A empresa possui capacidade de produzir 120 mil toneladas de cobre e 1.500 mil toneladas de cobalto por ano, segundo o site oficial.
O interesse da Commus pela região está relacionado, em parte, pela crescente demanda de automóveis elétricos. Dados da Benchmark Mineral Intelligence (BMI) mostram que as vendas de carros dessa modalidade atingiram as 20,7 milhões de unidades no mundo em 2025, um crescimento de 20% na comparação com o período anterior. O cobalto é utilizado por uma série de empresas de eletroeletrônicos, entre elas a Tesla, controlada pelo bilionário sul-africano Elon Musk.
Mulheres e crianças sobrevivem do aterro
O aterro, que de longe parece um monte, tem movimentação todos os dias. No entorno, ficam crianças e idosos à procura de pequenas pedras de cobre ou cobalto, descartadas pela Commus, mas valiosas para quem está ali.

Em um domingo, ao som do barulho das pedras que eram arremessadas ao baú de um caminhão, Bebel, trabalhador da mineração há 21 anos, descreve o contexto do local.
“Antes, havia uma série de protestos e desordens aqui. Até que houve uma autorização da Commus para a gente acessar”, conta.
O aterro mineral é controlado por seguranças contratados pela Commus, e a entrada só é autorizada em horários pré-estabelecidos. Os agentes permitem o acesso ao local das 6h às 7h, das 12h às 13h, das 17h às 18h, e da 1h às 3h, momento em que ocorrem trocas de turnos dos guardas.
Mas nem todos seguem o acordo. Por volta das 10h da manhã, era possível ver o sobe e desce de pessoas, que se arriscam no local sem equipamentos de segurança. Entre elas, estavam crianças, mulheres grávidas e idosos. Se encontram um pouco de cobre ou cobalto, recorrem aos chamados “negociadores”, que são vendedores autônomos.
Eles, por sua vez, vendem os minérios para empresas intermediadoras ou cooperativas de trabalhadores, que repassam os produtos para as grandes mineradoras. A última etapa é a compra do cobalto e do cobre pelas empresas de tecnologia.
Leia também:
“Mulheres grávidas e crianças não podem trabalhar nas minas. Este não é um local de mineração concedido a uma cooperativa, porque aqui não há mina. E não há supervisores adequados aqui. Se houvesse supervisores, poderiam proibir os menores de subirem lá”, explica Bebel.

Para ele, o motivo para isso acontecer é a falta de oportunidade de trabalho para os congoleses. Ele acredita que existem poucos locais públicos abertos de mineração e acessíveis para a população local.
“Como não há trabalho suficiente aqui, não há pedreiras suficientes alocadas aos mineiros. O governo vendeu tudo. É por isso que hoje há escassez de pedreiras, e é por isso que eles estão vindo para cá”, afirma.
A falta de trabalho é agravada com a degradação do meio ambiente. Entre o aterro e as casas das pessoas em Musonoi, existe uma área tomada por lama, um contraste com a secura do ambiente. A justificativa para isso é o antigo rio que passava pela região.
“As pessoas viviam dessas fontes de água. Elas pescavam, plantavam, faziam carvão vegetal para sustentar suas famílias. Bebiam dessa água. Hoje não podem mais. Então, as empresas vêm e destroem nossos meios de subsistência”, afirma Donat Savú.
Problemas respiratórios causados pela poeira
A região de Musonoi se tornou conhecida por abrigar pessoas com doenças respiratórias. Para os congoleses, a poeira da mineração que se espalha por toda cidade é a causa do problema.

“Quando a poeira começa a subir, você não consegue ficar do lado de fora. Às vezes o sangue sai pelo nariz. Mesmo quando estamos dormindo, ficamos congestionados”, conta.
O poder público não tem controle da quantidade de pessoas afetadas, e os dados sobre a saúde dos funcionários das mineradoras são de acesso restrito a essas empresas.
Fred Bulobo Mbayo, médico e chefe da divisão de saúde da província de Lualaba, conta que as doenças relacionadas à respiração são mais comuns durante o período seco, que vai de maio a setembro, e que há uma maior incidência sobre as crianças. Apesar disso, ele afirma que não há como traçar um paralelo entre as doenças e o trabalho das minas.
“Não fomos capazes de fazer pesquisas, porque é necessária uma pesquisa específica em nível de empresa para destacar essa ligação. Isso não é feito. Então, não saberemos”, afirma Mbayo.
O representante da saúde da província de Lualaba lamenta a falta de possibilidades do poder público diante do cenário.
“É difícil para nós fazer uma conexão direta com as empresas. Então, há casos de doenças respiratórias, com a produção de mineração, que na maioria das vezes levam à poluição do ar. Só temos dados globais sobre doenças respiratórias”, lamenta Mbayo.
Destruição das residências pelas explosões das minas
Desde 2017, quando a Commus iniciou a exploração mineral, as casas dos congoleses têm sofrido com o impacto de explosões de rochas para exploração do cobre e do cobalto.
Claudine Mitwele, uma mulher aposentada de 51 anos, sentiu os reflexos disso na sua casa e na vida da sua família.

“Um dia nós tomamos um susto. Estávamos dentro de casa, e meu pai se assustou com a sala desabando e correu. Naquele momento em que ele correu, a pressão dele subiu, ele teve uma crise e morreu”, relata.
Depois do fato, autoridades locais e a empresa foram avisadas da situação, segundo Mitwele. Ela conta que houve uma sinalização por parte do poder público de resolver o problema em meses, o que de fato ainda não ocorreu.
A moradora de Musonoi contou que a situação piorou a partir de 2021, quando houve um aumento na intensidade das detonações na mina da Commus, que fica a menos de 1 km dali. Os moradores também argumentam que o crescimento do aterro desde então aumenta a pressão sobre a terra e gera novas fissuras nas paredes das casas.
“As rachaduras começaram a aparecer lentamente em 2019. Então, a situação se intensificou em 2021, quando o aterro subiu mais e as detonações se tornaram muito frequentes. Foi quando tudo desabou”, explica.
Desde então, os congoleses têm demandado da empresa para serem transferidos para outra região. Querem casas novas, longe das explosões e do risco de desmoronamento. Ao todo, só naquela área, existem 169 famílias em um comitê organizado para acompanhar os processos de realocação.
Ninguém foi indenizado pela destruição das casas
Aos 69 anos, Ngombé Mujinga Sylvain é um dos líderes do comitê. Ele conta que, até o momento, a Commum não indenizou nenhum dos moradores.
“Desde 2019 até hoje, não há nada de especial. Nós fazemos o acompanhamento, porque foram eles, a empresa, que destruíram as nossas casas. Não havia rachaduras antes de eles chegarem”, conta Sylvan.
Josué Kacha conta que, na prática, existem duas saídas para as pessoas: que a empresa dê uma nova casa, ou que pague um valor acordado. Na maioria dos casos, as companhias pressionam as famílias a receberem uma quantia de dinheiro, ao invés de darem uma nova residência.
“Gostaríamos muito que, além do dinheiro, como estipula a lei, uma empresa construísse a casa, em vez de uma construtora. Há pessoas que já receberam o dinheiro, fizeram mau uso dele e não têm onde dormir”, explica.
Segundo o Código da Mineração da RDC, publicado pelo governo em 2018, as empresas responsáveis pelo “deslocamento” das famílias devem indenizar, compensar e instalar as pessoas. Nenhum valor é estipulado e não há nenhuma garantia de que a pessoa residente, se não tiver o interesse de se mudar, pode permanecer na própria residência.
Claudine Mitwele reclama da falta de apoio das autoridades congolesas e da dificuldade de conseguir respostas do governo congolês. Além disso, ela lamenta a impossibilidade de acessar o sistema de justiça da RDC.
“Para ir à justiça, quando você começa um processo, é muito dinheiro. Se não temos sequer os meios para nos proteger em relação às rachaduras que estamos vendo em nossas casas, onde vamos encontrar dinheiro para prestar queixa?”, questiona.
Uma saída tem sido a busca, por meio de advogados e das autoridades nacionais, por um pedido de mudança de casa, com os custos pagos pela Commus.
Transição energética não beneficia congoleses
O advogado Josué Kacha, que trabalha no Centro de Apoio Jurídico-Judiciário (CAJJ) e atua em casos sobre os impactos causados pelas mineradoras, diz não ser contrário à exploração mineral.
“Somos contra a mineração? Dizemos que não, porque a mineração gera dinheiro, recursos econômicos, porque as empresas pagam impostos ao nosso governo”, afirma o advogado.
Ele pondera, contudo, que ainda é necessário conter os impactos negativos da exploração mineral na RDC. “Temos poluição, deslocamento de comunidades e, às vezes, esse deslocamento não cumpre as normas. Essa é a desvantagem da mineração”, conta.
Conhecido por muitas pessoas em Musonoi, Donat Savú sorri para cumprimentar os colegas e fecha o rosto quando perguntado sobre a realidade da região. “O ambiente de mineração aqui realmente nos impacta, e simplesmente reforça e empurra esta comunidade para a pobreza”, afirma.
Para ele, a transição energética não beneficia a vida dos congoleses. “Não há transição energética justa em um contexto de destruição dos meios de subsistência”, conta.
Todo esse contexto torna a transição energética um problema sério para os cidadãos congoleses, explica Donat Savú.
Entenda o conceito:
“Não pode haver uma transição energética equitativa num contexto de tal empobrecimento generalizado das comunidades afetadas. Portanto, devemos começar pela raiz do problema, e isso significa respeitar os direitos das comunidades impactadas pelos projetos de mineração, antes de podermos discutir a justiça da transição energética”, explica.
A Alma Preta pediu um posicionamento para o governo congolês sobre políticas de apoio aos cidadãos que habitam a região de Musonoi e sobre as cobranças feitas à Commus sobre as denúncias apresentadas, mas nenhum posicionamento foi enviado até o fechamento da reportagem.
A reportagem também questionou a empresa Commus sobre a responsabilidade da companhia diante das denúncias feitas pelos moradores de Musonoi, o suporte dado para as famílias que buscam mudar de residência por conta da atividade mineira e o que a Commus tem feito para cuidar do aterro. A companhia chinesa não retornou aos questionamentos até a publicação da reportagem.
Essa reportagem contou com a colaboração de Fréd Kikole