Enviado especial a Kalemie, na República Democrática do Congo.
As alas estavam pouco iluminadas, mesmo sob o sol do meio-dia. As pessoas estavam deitadas, doentes, em macas feitas de um tecido de nylon sobre bases de ferro que tinham um buraco no meio, utilizado para urinar e defecar no chão.
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A cena é do Hospital Geral de Kalemie, na província de Tanganyika, na parte leste da República Democrática do Congo. Apesar de o município ficar próximo das áreas em guerra ocupadas pelo M23, grupo rebelde apoiado por Ruanda, os pacientes ali não são vítimas de balas ou bombas, mas sim da cólera.

Nas três alas dedicadas a pacientes com cólera se encontravam pessoas desidratadas, com uma expressão abatida. A última era a ala para crianças, que não pareciam ter forças nem para brincar.
Nos seis primeiros meses de 2025, a província de Tanganyika registrou 3.866 casos de cólera, com 61 mortes. O pico da doença aconteceu no meio de abril, quando registrou-se a contaminação de 441 pessoas.
Em junho de 2025, a administração de saúde comemorava a diminuição nos casos de cólera e a chegada de medicamentos por parte da Unicef e da Organização Mundial de Saúde (OMS).
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Assim como no Brasil, a administração congolesa controla o aumento ou a queda de infectados ou mortes por cada doença por semana. No final de maio, a província registrou 229 casos de cólera e três mortes. Duas semanas depois esse número caiu para 98 casos e uma morte.
Causas incluem lixo no lago e aglomeração de deslocados internos
Kalemie está distante 384 km de Uvira, outra cidade congolesa às margens do Lago Tanganyika. Lá é um dos palcos do conflito entre o exército congolês e o M23. Estimativas mais recentes do Ministério dos Direitos Humanos da RDC apontam para mais de 17 mil mortes desde a invasão de Goma, em janeiro de 2025, e mais de 6 milhões de deslocados internos, o maior número do mundo, segundo as Nações Unidas.
As províncias de Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul e Tanganyika, juntas, abrigam 5.488.323 deslocados internos, sendo 96% deslocados devido a conflitos armados e 4% devido a desastres naturais.
Na cidade de Kalemie, onde vivem aproximadamente 400 mil pessoas, há um campo de refugiados que abriga milhares de famílias desde janeiro de 2025, quando Goma e Bukavu foram invadidas pelo M23.
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Wilma Lwabola, chefe do departamento de comunicação e informação de saúde da província da Tanganyika, explica como a guerra torna a população mais vulnerável a algumas doenças, como o sarampo e a varíola dos macacos (mpox).
“Quando a população se moveu, veio para esses agrupamentos em condições precárias, onde as epidemias se espalham”, conta.
Dados fornecidos sobre os seis primeiros meses de 2025 pelo Hospital Geral de Kalemie contabilizam 2.117 casos de mpox, com cinco mortes, e também 1934 casos de sarampo, com 24 mortes.

O deslocamento, contudo, em nada impacta os números de cólera. Romane Gaël Ndenga, engenheiro agrônomo e ambiental da Universidade de Kalemie com mestrado sobre a qualidade da água no Lago Tanganyika, explica que atividades industriais e mesmo a construção de banheiros às margens do lago são um problema para a saúde da região e a proliferação da cólera.
“Nós temos lixo industrial no lago. Não existem indústrias gigantes, mas há usinas que depositam seus dejetos e sua fumaça. Há também os lixos plásticos e orgânicos, bem como materiais fecais, que vão se constituir como uma fonte de poluição para a biodiversidade e para nós que somos os consumidores finais da água”, detalha.
Enchentes e problemas no sistema de abastecimento de Kalemie
Kalemie também foi vítima de enchentes do Lago Tanganyika, a segunda maior reserva de água da África. Em abril do ano passado, cerca de 10 mil pessoas foram deslocadas na província homônima ao lago após chuvas torrenciais e alagamentos, segundo as Nações Unidas.
O principal motivo são as mudanças climáticas, que têm feito o lago subir a níveis fora do comum no período de cheias, explica Hakizimana Jean-Claude, hidrologista e pesquisador do Centro Nacional de Metereologia e Hidrologia do Burundi. Os avanços dessas águas têm destruído parte da estrutura da cidade.
“Hoje existe uma alteração nos padrões climáticos, e há um aumento dos regimes de chuvas em algumas áreas e uma diminuição em outras. Nessa área, a gente está encarando o aumento dos níveis de chuva”, analisa Jean-Claude.

Essas inundações impactam a infraestrutura elétrica de Kalemie, o que deixa a população mais vulnerável a doenças, conforme explica Wilma Lwabola.
“Quando há um corte de energia, não há abastecimento de água potável”, explica. Com isso, as pessoas recorrem diretamente ao lago e ficam expostas à cólera.
Durante o período de seca, de junho a setembro, a atenção para os gestores de saúde da região é para outros problemas. “A quantidade de bactérias da cólera fica mais concentrada. Quando começa a secar, o homem ainda utiliza o lago. E aí temos especialmente um problema em relação à cólera”, conta Wilma Lwabola.
Cortes de Trump afetam ações contra as epidemias
As dificuldades para enfrentar o surto de doenças em Kalemie aumentaram com os cortes feitos pelo governo dos Estados Unidos para a região.
Nas paredes, eram visíveis estampas da USAID, a agência de financiamento dos Estados Unidos que custeava projetos na região e sofreu diminuição no orçamento da ordem de US$ 387 milhões desde que Donald Trump assumiu a presidência dos EUA.
As mudanças impactaram organizações internacionais que atuavam em Kalemie, como a Oxfam, que segue com as suas atividades no país, mas sem uma equipe na cidade. Por isso, ficou mais difícil gerenciar essas crises sanitárias sem o suporte dessas organizações que atuavam em colaboração com o governo congolês,
“Perdemos um pouco da capacidade de acompanhamento, avaliação e cuidados. Já perdemos o suficiente. Então é isso que podemos dizer”, conclui o médico Wilma Lwabola.

O controle do sarampo e da mpox
Apesar disso, as autoridades congolesas têm se mobilizado para enfrentar os surtos. As equipes de saúde fazem reuniões semanais de coordenação para frear a proliferação dos casos. Entre as ações, coletam amostras para detectar a contaminação da água em partes da província, inclusive em Kalemie, e fazem acompanhamento junto às comunidades.
Na província, são organizadas campanhas de vacinação contra o sarampo e monitoramento dos casos de infecção. Assim, notou-se ainda queda de casos da doença no começo de junho de 2025: em duas semanas, passou de 105 para 81. Durante o período, não houve nenhuma morte causada por essa doença.
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Os cuidados também são tomados contra a mpox. A gestão de saúde da província investigou, entre o início de 2024 e junho de 2025, 2.248 suspeitas da doença diante de 2.589 alertas, o que representa uma proporção de 86,83% dos casos. Eles têm monitorado os casos e feito campanhas sobre maneiras de evitar o contágio.
Há ainda o esforço para obter os medicamentos para enfrentar a cólera e criar pontos de água potável com processos de higienização. Em toda a província, existem 48 pontos de água que são limpos com cloro com frequência — sendo 20 deles sob a responsabilidade da ONG Médicos Sem Fronteiras e nove da Cruz Vermelha, que atuam em conjunto com as autoridades congolesas.
A administração pública da RDC ainda promove campanhas de prevenção da cólera, como o estímulo à hidratação, mas ainda enfrenta a falta de infraestrutura de saneamento.
Lwabola conta dos esforços para aumentar o nível de conscientização dos congoleses sobre as doenças locais. Segundo ele, foi possível ver durante as visitas ao Hospital Geral de Kalemie um grupo de pessoas, a maioria jovens entre 20 e 25 anos, que participavam de uma formação para comporem um sistema de vigilância de saúde.
“Isso significa que treinamos certas pessoas no campo, não para esta ou aquela doença, mas para que possam monitorar. Eles podem, portanto, orientar as pessoas”, explica.