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Crise climática faz Lago Tanganyika transbordar e gera deslocados internos na RDC

A Alma Preta conheceu um campo de refugiados climáticos em Kalemie, à leste da República Democrática do Congo. O país registrou 730 mil deslocados internos por causa de desastres climáticos, segundo as Nações Unidas.
Imagem de reportagem sobre enchentes do Lago Tanganyika no leste da RD Congo

Bairros em Kalemie foram destruídos pelas enchentes do lago Tanganyika.

— Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

29 de março de 2026

Enviado especial a Kalemie, na República Democrática do Congo

No alto de colinas, 3.876 famílias vivem quase como refugiadas dentro do próprio país. Elas procuram um lugar seguro para viver em Kalemie, cidade com cerca de 400 mil pessoas às margens do Lago Tanganyika e na província de mesmo nome, que fica ao leste da República Democrática do Congo.

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As pessoas ali não fogem do grupo rebelde M23, que ocupa parte do país, ou mesmo do exército de Ruanda, que participa da invasão da RDC e que já deixou pelo menos 17 mil pessoas mortas desde janeiro de 2025. Os congoleses naquelas tendas fogem das enchentes do Lago Tanganyika, a segunda maior reserva de água do continente africano.

“Durante a enchente do lago, a chuva estava caindo forte e enchendo as casas. Deslizamentos de terra começaram a arrastar as casas, que estavam afundando ou desabando com tudo dentro, e até crianças morreram”, recorda Fatuma Ngungwa Sarah, vice-presidenta do campo de deslocados internos.

O nível do lago começou a subir a partir de 2007, mas foi em 2020 que suas águas passaram a inundar Kalemie, sobretudo no período chuvoso, entre outubro e abril. Em 2024, diferente dos outros anos, a água não recuou no período seco. 

Crise humanitária na RD Congo:

Dados das Nações Unidas mostram que cerca de 10 mil pessoas se deslocaram da província de Tanganyika após chuvas torrenciais e alagamentos em 2025. A instituição ainda estima que existam, dentro da RDC, 6,4 milhões de deslocados, o maior número do mundo. Desse total, 4,9 milhões de pessoas saíram das suas casas por conta de guerras e 730 mil por causa de desastres climáticos.

Assim como os congoleses, os países vizinhos, que fazem fronteira com a RDC pelo lago, como Tanzânia, Zâmbia e Burundi, também sentiram os impactos do maior volume de água do Tanganyika. No Burundi, até julho de 2025, existiam 89 mil pessoas deslocadas internas, e desse total, 92% foram motivadas por desastres naturais

Congoleses enfrentam dificuldades no acesso à água no campo de deslocados em Kalemie. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Jean-Claude Hakizimana, hidrologista e pesquisador do Centro Nacional de Meteorologia e Hidrologia do Burundi, explica que as mudanças climáticas têm impactado a região, que sofre com a alteração dos padrões de chuvas.

“Hoje existe uma alteração nos padrões climáticos, e há um aumento dos regimes de chuvas em algumas áreas e uma diminuição em outras. Nessa área, a gente está encarando o aumento dos níveis de chuva”, analisa.

Os impactos das mudanças climáticas sobre o Lago Tanganyika

O campo de deslocados climáticos em Kalemie fica em uma área concedida pelo governo congolês e dividida em 78 blocos, cada um com aproximadamente 50 famílias. Kafimbo Amisi Jeano é o coordenador do bloco nº 48 do campo de refugiados, responsável por fazer o diálogo entre os moradores e o comitê de gestão do campo. Antes, trabalhava como cozinheiro, e desde março de 2025 atua como pedreiro no campo.

Ele acredita que as enchentes estão relacionadas com as mudanças climáticas. Para explicar,  aponta para o horizonte, para onde existiam árvores cobertas pelas águas. Antes do avanço do lago, elas ficavam visíveis na superfície.

“Como você pode ver naquela escola, ali é onde as palmeiras começariam. Mas no final das contas tudo isso é levado pelo Tanganyika”, lamenta.

Falamos também com refugiados da guerra:

O principal fator para essa mudança dos padrões de chuvas é a maior constância do El Niño, fenômeno causado por um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na zona da linha do Equador, que influencia todos os demais oceanos, inclusive o Índico. Essa variação pode ocorrer a cada cinco ou sete anos e durar um ano e meio, com um aumento de temperatura, sobretudo entre os meses de setembro e dezembro, de 2°C a 3,5°C. 

Avanço das águas do lago Tanganyika transformaram a antiga ferrovia em um ponto para a lavagem de roupa suja. Foto: Pedro Borges/Alma Preta

“Isso significa que, se há a expectativa de se receber durante um período 350mm de chuvas, com o El Niño esse número vai para 500mm. Com essa chuva intensa em um curto período de tempo, não é possível que os rios e lagos consigam conter o volume de água”, explica Jean-Claude Hakizimana.

O artigo “Lago Tanganyika: recentes mudanças climáticas e teleconexões com o El Niño”, desenvolvido pelos departamentos de meteorologia do Burundi e da Zâmbia, analisou as alterações de 1964 a 1990, que contou com um aumento da temperatura entre 0.7°C e 0.9 °C. Durante os anos de El Niño, como aconteceu em 1954, 1958, 1966, 1969, 1973, 1983, 1988 e 1991-94, a temperatura analisada nas estações do Lago Tanganyika ficou 1°C mais quente.

Para explicar os impactos do aumento de temperatura de um lago ou oceano, Jean-Claude Hakizimana utiliza o exemplo de uma garrafa de água fervendo para contar como isso pode aumentar a evaporação e, então, impactar nos ciclos de chuvas.

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“Quando a água está quente, as moléculas ficam agitadas, e às vezes a garrafa pode não conseguir conter essa água. Quando a água está em temperatura normal, ela fica menos agitada. Isso é o mesmo para o lago Tanganyika e para os oceanos”, conta. 

A pesquisa, realizada entre 1993 e 1995, ainda chama atenção para a maior frequência de fenômenos como El Niño, que passou a acontecer de maneira recorrente, como entre 1991 e 1994, sem intervalos de tempo. O fato era observado como uma possível ponte com as mudanças climáticas.

Esse cenário tem potencializado um fenômeno natural da região. O nível do Lago Tanganyika oscila naturalmente, com um movimento de inundação há cada 50 anos, com o último registro em 1964, quando as águas subiram em seis metros do nível normal.

Naquele período, a ONU estimou a inundação de 800 casas, com o deslocamento de mais de 1.600 pessoas. Em Bujumbura, no Burundi, as águas avançaram mais de 1km sobre a cidade, e cerca de 20 mil pessoas foram evacuadas de uma região da cidade. Nesta temporada recente, o Tanganyika avançou os 6.6 metros, segundo o Centro Nacional de Meteorologia e Hidrologia do Burundi.

Visão geral do campo de deslocados climáticos em Kalemie, no leste da República Democrática do Congo. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Crispin Michel Ilunga, pesquisador independente com trabalhos para o ministério do planejamento do país, acredita que a expansão natural do lago é impulsionada pelo aquecimento global.

“O aquecimento global vem aumentar a situação em termos de abundância de água, que é impactado pela ocupação humana de áreas de risco”, conta.

A destruição persiste durante a seca

Mesmo durante a temporada seca, a cidade de Kalemie vive sob a destruição. Casas abandonadas e em pedaços, avenidas destruídas e pessoas sem emprego. 

Nos bairros às margens do lago, a maior parte das casas está abandonada. Em algumas, dá para ver a lama até metade da porta de entrada, lodo pela parede e nenhum sinal de que alguém ali habita. Até uma caminhonete, estacionada em frente a uma dessas residências, estava soterrada pela lama.

Os escombros das casas servem de apoio para pescadores solitários. Eles se apoiam em um teto ou janela, e mesmo sem varas, apenas com uma corda de nylon, insistem na busca de peixes. 

Kafimbo Amisi Jeano é coordenador de um dos blocos que teve as casas queimadas. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

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Kafimbo Amisi Jeano aguarda ajuda por parte do governo congolês para melhorar a infraestrutura de vida dos habitantes de Kalemie atingidos pelas enchentes.

“Até hoje estamos ainda esperando, para a gente ir morar em outro lugar. Aqui não temos nada”, conta.

Essa realidade de destruição também está presente no Burundi e em Bujumbura, capital do país. Jean-Claude Hakizimana descreve os impactos disso na principal cidade burundesa, com cerca de 1,2 milhão de pessoas.

“Existem alguns quarteirões, mesmo o aeroporto, que foram impactados pelas inundações de 2024. Mesmo prédios das Nações Unidas tiveram que ser evacuados por conta do avanço das águas. Algumas áreas que ainda não retornaram ao normal até hoje”, relata.

Deslocados lidam com a falta de trabalho e o perigo do fogo

No meio da tarde, o campo parecia vazio, com poucas pessoas pelas ruas improvisadas do espaço. A maior parte dos adultos estava na cidade em busca de qualquer serviço, ou às margens do lago, na busca de areia para vender para a construção civil. 

As praias do lago ficam repletas de pessoas com sacos de nylon, que os enchem pelas manhãs e depois vendem a matéria-prima para empresas da região. A atividade é mais frequente durante o período seco, mas ocorre durante todo o ano.

Congoleses buscam areias às margens do Lago Tanganyika para vender e reconstruir casas destruídas pelas enchentes. Foto: Pedro Borges/Alma Preta

Uma das pessoas que estava presente era Elisabette Mpanzo Kayambi, de 46 anos. Antes de viver no campo de deslocados, ela vendia farinha e aplicava produtos para alisar o cabelo de outras mulheres como formas de conseguir renda.

Desde que passou a morar no campo, ela levanta cedo todos os dias às 4h para pegar areia às margens do Lago Tanganyika e lá permanece até as 12h.

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“Se eu for com os meus filhos, eu consigo 10 mil francos congoleses. Se eu for sozinha, eu consigo 5 mil”, explica. Os 5 mil francos congoleses equivalem a aproximadamente R$ 11. Com o dinheiro, compra farinha de milho ou de mandioca para fazer o fufu, uma espécie de polenta que é base da alimentação de muitos países africanos. Quando a lenha acaba, ela vai procurar mais madeira nas matas para cozinhar.

Elisabette Mpanzo Kayambi, de 46 anos, levanta cedo todos os dias às 4h para pegar areia às margens do Lago Tanganyika e lá permanece até as 12h.

Preparar alimentos também se torna um risco, sobretudo durante o período seco, entre abril e setembro, quando as chuvas são mais escassas e as matas ficam ressecadas. 

Na semana do dia 15 de junho de 2025, um incêndio tomou três blocos do campo, o 47, o 48 e o 49. A suspeita dos moradores é de que uma pessoa tentou cozinhar, colocou fogo em pedaços de madeira e, por isso, as brasas logo se espalharam para as casas. Uma encosta da colina estava com chão preto, coberto de fuligem, que se misturava com a grama amarelada por falta de chuva.

“Não sabíamos onde o fogo começou, mas foi trágico”, afirma Kafimbo Amisi Jeano.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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