O grupo armado M23 anunciou, nesta terça-feira (16), a retirada de suas forças da cidade de Uvira, no leste da República Democrática do Congo (RDC). A decisão ocorre após exigência de Washington. Os Estados Unidos prometeram “ações” em resposta à violação do acordo de paz mediado pelo governo norte-americano no início de dezembro.
A milícia, que tem apoio de Ruanda, capturou a cidade estratégica na última quarta-feira (10). O avanço ocorreu poucos dias após a assinatura de um tratado em Washington entre os governos da RD Congo e de Ruanda. A ofensiva do M23 colocou em dúvida o futuro do processo de paz e elevou o temor de uma guerra regional.
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Corneille Nangaa, líder do braço político do M23, afirmou em comunicado que o grupo fará a “retirada unilateral de suas forças da cidade de Uvira, conforme solicitado pelos mediadores dos EUA”. Segundo o grupo, o movimento busca “incutir confiança para dar ao processo de paz de Doha todas as chances de sucesso”.
Relatos divergentes em Uvira
Apesar do anúncio de retirada, informações sobre a situação em solo apresentam contrastes. De acordo com fontes ouvidas pela Alma Preta, o M23 ainda permanece em Uvira. Os relatos sobre o período de ocupação também divergem entre os moradores.
Algumas fontes descrevem uma presença sem grandes incidentes ou violência direta. Outros depoimentos, contudo, indicam um clima de insegurança e restrição. Nesses relatos, as pessoas afirmam que não se sentiram livres e optaram pelo isolamento dentro de casa para evitar o contato com os milicianos.
O balanço oficial de ONGs e da Organização das Nações Unidas (ONU) indica que a ofensiva em Kivu do Sul, iniciada em dezembro, resultou em dezenas de mortes, pelo menos 100 feridos e mais de 200 mil pessoas deslocadas de suas casas.
Geopolítica e recursos minerais
A cidade de Uvira possui importância estratégica por permitir o controle da fronteira terrestre com o Burundi. A ocupação isolou a RDC do apoio militar de seu vizinho. No sábado (13), o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que Ruanda violou de forma clara o acordo de 4 de dezembro. Mike Waltz, embaixador dos EUA na ONU, acusou Ruanda de levar a região para a instabilidade.
Ruanda nega o apoio militar ao M23. O governo ruandês alega que enfrenta ameaças de milícias hutus baseadas no Congo. No entanto, especialistas da ONU afirmam que o exército de Ruanda desempenha papel fundamental nas operações do M23.
O interesse dos Estados Unidos na região também envolve a segurança do suprimento de minerais críticos. O leste da RDC possui depósitos de cobre, cobalto, coltan e lítio, essenciais para a fabricação de baterias de carros elétricos, celulares e armamentos. O governo norte-americano busca assegurar o acesso a esses recursos frente à presença da China no setor mineiro congolês.
O M23 declara que seu objetivo final é a queda do governo do presidente Felix Tshisekedi. Apesar do anúncio de saída de Uvira, ambos os lados do conflito trocam acusações de violação do cessar-fogo em outras frentes de batalha.