O grupo armado M23 manteve a ofensiva no leste da República Democrática do Congo (RDC) no último sábado (13), poucos dias após a assinatura de um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos entre Kinshasa e Kigali. O movimento ocorre depois da tomada de Uvira, cidade fronteiriça com o Burundi, capturada na quarta-feira (10), e amplia o risco de expansão regional do conflito.
O acordo, firmado em Washington em 4 de dezembro, foi apresentado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um passo para encerrar décadas de instabilidade no leste congolês. Trump é um dos maiores interessados nos minerais estratégicos no território democrático-congolês
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Segundo o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, Ruanda violou os compromissos assumidos ao manter apoio ao M23. Em publicação na rede X (ex-Twitter), Rubio afirmou que Washington adotará medidas para garantir o cumprimento do tratado.
O chefe das operações de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), Jean-Pierre Lacroix, alertou que o avanço do M23 reaviva o risco de um conflito regional com consequências amplas e levanta a possibilidade de fragmentação territorial da RDC, sobretudo em sua porção oriental
Importância estratégica de Uvira
Com a tomada de Uvira, o M23 passou a controlar a fronteira terrestre da RDC com o Burundi, o que limita o apoio militar de países vizinhos ao governo congolês. A cidade fica às margens do lago Tanganica, em frente à capital econômica burundesa, Bujumbura, área considerada sensível para a segurança regional.
Após a captura de Uvira, o grupo avançou para o oeste e assumiu o controle de Kipupu, centro administrativo do setor de Itombwe, sem resistência, depois da retirada de tropas burundesas. A ofensiva integra uma operação lançada no início de dezembro na província de Kivu do Sul, que já havia registrado a queda de Goma e Bukavu ao longo do ano.
Ao sul de Kipupu, combatentes do M23 entraram em confrontos com milícias locais alinhadas ao governo congolês nas áreas elevadas próximas a Fizi e Baraka. As cidades passaram a enfrentar a possibilidade de avanço conjunto do M23 com aliados da milícia Twirwaneho, que atua na região.
Fontes militares do Burundi informaram que milhares de soldados burundeses ficaram cercados após a queda de Uvira e receberam ordem de recuo em direção a Baraka. Durante a retirada, grupos da Twirwaneho passaram a assediar as tropas, que enfrentam dificuldades logísticas e falta de reabastecimento de munição.
Apoio de Ruanda e alerta internacional
Nas Nações Unidas, o Burundi eleva o tom e adverte Ruanda. “A moderação tem limites. Se esses ataques prosseguirem, a escalada direta entre nossos dois países se torna difícil de evitar. O Burundi não tolera violações repetidas de sua integridade territorial e reserva o direito de usar a legítima defesa, conforme o artigo 51 da Carta das Nações Unidas.”
O embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, acusou Ruanda de “levar a região a mais instabilidade e à guerra”. Waltz disse ao Conselho de Segurança da ONU que as forças de defesa de Ruanda forneceram material, logística e treinamento ao M23. Ruanda também combate ao lado do M23 na RDC com cerca de 5 mil a 7 mil soldados. O poder de fogo de Ruanda incluiu mísseis terra-ar, drones e artilharia.
Desde a retomada das armas em 2021, o M23 tomou faixas de território, o que leva a uma crise humanitária. Mais de 200 mil pessoas, a maioria civis, foram deslocadas pelos combates. Especialistas da ONU relatam que o exército de Ruanda e o M23 realizaram execuções sumárias e deslocamentos forçados de pessoas na região.
Ruanda nega o fornecimento de apoio militar ao M23. O país alega enfrentar uma ameaça existencial da presença, na fronteira congolesa, de militantes hutus com ligações ao genocídio tutsi de 1994.