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Relatório da ONU aponta indícios de genocídio em El-Fasher, no Sudão

Missão de apuração conclui que tomada da cidade pelas Forças de Apoio Rápido mirou grupos étnicos Zaghawa e Fur; relato inclui execuções, desaparecimentos e violência sexual
Uma mulher sudanesa deslocada caminha em meio aos restos de um incêndio ocorrido em um campo em Tawila, em 11 de fevereiro de 2026.

Uma mulher sudanesa deslocada caminha em meio aos restos de um incêndio ocorrido em um campo em Tawila, em 11 de fevereiro de 2026.

— STR/AFP

19 de fevereiro de 2026

A missão independente de apuração da ONU para o Sudão divulgou nesta quinta-feira (19) um relatório que aponta a existência de “características de genocídio” na tomada da cidade de El-Fasher por um grupo paramilitar. O documento afirma que a captura da cidade na região de Darfur, em outubro de 2025, pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) provocou “três dias de horror absoluto” e pede que os responsáveis sejam levados à justiça.

O presidente da missão, Mohamad Chande Othman, classificou a operação como planejada e organizada. “A escala, coordenação e endosso público da operação pela alta liderança das RSF demonstram que os crimes cometidos em e ao redor de El-Fasher não foram excessos aleatórios de guerra. Formaram parte de uma operação planejada e organizada que possui as características definidoras de genocídio”, afirmou.

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A investigação sobre a tomada de El-Fasher, após 18 meses de cerco, concluiu que milhares de pessoas, particularmente do grupo étnico Zaghawa e Fur, “foram mortas, estupradas ou desapareceram”. Os Zaghawa são um dos maiores grupos étnicos não-árabes da região.

O relatório da missão foi divulgado dias após ataques com drones matarem dezenas de pessoas em toda a região de Kordofan, no Sudão. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) informou que pelo menos 15 crianças morreram em um campo de deslocados em Kordofan Ocidental. Defensores de direitos locais relataram que outro atentado a um mercado matou 28 pessoas em Kordofan do Norte.

O ataque em Kordofan Ocidental foi atribuído ao exército sudanês, enquanto as RSF foram acusadas pelo ataque em Kordofan do Norte. A missão da ONU alertou a necessidade de “proteção urgente de civis, agora mais do que nunca”, em Kordofan, que se tornou foco de combates desde a captura de El-Fasher, marcada por massacres étnicos, violência sexual e detenções.

Investigações e testemunhos

A missão entrevistou 320 testemunhas e vítimas de El-Fasher, incluindo visitas investigativas ao Chade e ao Sudão do Sul. Os investigadores autenticaram, verificaram e corroboraram com 25 vídeos.

Sobreviventes relataram assassinatos generalizados, incluindo tiroteios indiscriminados e execuções em massa em pontos de saída da cidade. As testemunhas descreveram estradas cobertas com corpos de homens, mulheres e crianças.

O relatório também detalhou detenções, tortura, humilhação, extorsão, sequestros para resgate e desaparecimentos. A violência sexual generalizada atingiu mulheres e meninas de comunidades não-árabes, particularmente Zaghawa.

Os estupros ocorreram frequentemente em locais onde os assassinatos em massa aconteceram, incluindo o Hospital El-Saudi e a Universidade de El-Fasher. “Testemunhas relataram que as RSF estupraram violentamente e publicamente pelo menos 19 mulheres em gangues, em salas repletas de cadáveres, incluindo os restos mortais de seus próprios maridos”, diz o documento.


Concluindo que as RSF agiram “com intenção genocida”, a missão identificou “pelo menos três atos constitutivos de genocídio”. Estes incluíram a matança de membros de um grupo étnico protegido e a causação de danos físicos ou mentais graves.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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