A missão independente de apuração da ONU para o Sudão divulgou nesta quinta-feira (19) um relatório que aponta a existência de “características de genocídio” na tomada da cidade de El-Fasher por um grupo paramilitar. O documento afirma que a captura da cidade na região de Darfur, em outubro de 2025, pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) provocou “três dias de horror absoluto” e pede que os responsáveis sejam levados à justiça.
O presidente da missão, Mohamad Chande Othman, classificou a operação como planejada e organizada. “A escala, coordenação e endosso público da operação pela alta liderança das RSF demonstram que os crimes cometidos em e ao redor de El-Fasher não foram excessos aleatórios de guerra. Formaram parte de uma operação planejada e organizada que possui as características definidoras de genocídio”, afirmou.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
A investigação sobre a tomada de El-Fasher, após 18 meses de cerco, concluiu que milhares de pessoas, particularmente do grupo étnico Zaghawa e Fur, “foram mortas, estupradas ou desapareceram”. Os Zaghawa são um dos maiores grupos étnicos não-árabes da região.
O relatório da missão foi divulgado dias após ataques com drones matarem dezenas de pessoas em toda a região de Kordofan, no Sudão. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) informou que pelo menos 15 crianças morreram em um campo de deslocados em Kordofan Ocidental. Defensores de direitos locais relataram que outro atentado a um mercado matou 28 pessoas em Kordofan do Norte.
O ataque em Kordofan Ocidental foi atribuído ao exército sudanês, enquanto as RSF foram acusadas pelo ataque em Kordofan do Norte. A missão da ONU alertou a necessidade de “proteção urgente de civis, agora mais do que nunca”, em Kordofan, que se tornou foco de combates desde a captura de El-Fasher, marcada por massacres étnicos, violência sexual e detenções.
Investigações e testemunhos
A missão entrevistou 320 testemunhas e vítimas de El-Fasher, incluindo visitas investigativas ao Chade e ao Sudão do Sul. Os investigadores autenticaram, verificaram e corroboraram com 25 vídeos.
Sobreviventes relataram assassinatos generalizados, incluindo tiroteios indiscriminados e execuções em massa em pontos de saída da cidade. As testemunhas descreveram estradas cobertas com corpos de homens, mulheres e crianças.
O relatório também detalhou detenções, tortura, humilhação, extorsão, sequestros para resgate e desaparecimentos. A violência sexual generalizada atingiu mulheres e meninas de comunidades não-árabes, particularmente Zaghawa.
Os estupros ocorreram frequentemente em locais onde os assassinatos em massa aconteceram, incluindo o Hospital El-Saudi e a Universidade de El-Fasher. “Testemunhas relataram que as RSF estupraram violentamente e publicamente pelo menos 19 mulheres em gangues, em salas repletas de cadáveres, incluindo os restos mortais de seus próprios maridos”, diz o documento.
Concluindo que as RSF agiram “com intenção genocida”, a missão identificou “pelo menos três atos constitutivos de genocídio”. Estes incluíram a matança de membros de um grupo étnico protegido e a causação de danos físicos ou mentais graves.