O Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) ordenou, nesta sexta-feira (14), que investigadores apurem supostas atrocidades em El-Fasher, no Sudão. A resolução determina a identificação dos autores para que eles sejam levados à justiça.
O principal órgão de direitos humanos das Nações Unidas adotou a resolução que ordena à missão de apuração de fatos da ONU sobre o Sudão que investigue urgentemente as violações em El-Fasher. O texto pede à equipe de investigação que “identifique, onde possível”, os suspeitos, a fim de garantir que eles sejam “responsabilizados”.
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A decisão ocorreu ao final de uma sessão extraordinária convocada para tratar da situação na cidade, em meio a alertas sobre crimes contra a humanidade e risco de genocídio.
“Manchas de sangue no chão em El-Fasher foram fotografadas do espaço”, disse o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Turk, na abertura da sessão. “A mancha no histórico da comunidade internacional é menos visível, mas não menos prejudicial”.
O texto foi apresentado por Reino Unido, Alemanha, Irlanda, Holanda e Noruega durante sessão especial convocada para analisar a situação crítica na cidade sudanesa. Alguns países, incluindo o próprio Sudão, declararam discordar dos trechos que ampliam o mandato investigativo, mas não bloquearam a aprovação.
Imagens de satélite e relatos reforçam gravidade da crise
O alto-comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, alertou que “manchas de sangue no chão de El-Fasher foram fotografadas do espaço”, como evidência da violência extrema. Segundo ele, o fracasso da comunidade internacional em reagir também produz uma “mancha no registro global”.
Desde o início da guerra entre o Exército sudanês e as RSF, em abril de 2023, dezenas de milhares de pessoas foram mortas. Cerca de 12 milhões foram deslocadas, configurando uma das piores crises humanitárias atuais.
Nas últimas semanas, a situação em El-Fasher se deteriorou rapidamente. Relatos mencionam execuções, violência sexual sistemática, saques, ataques contra trabalhadores humanitários e sequestros. As comunicações locais permanecem praticamente interrompidas.
Representante da missão de apuração da ONU, Mona Rishmawi afirmou que “centenas de mulheres e meninas foram estupradas e submetidas a estupros coletivos nas rotas de fuga, muitas vezes em público e sem qualquer receio de punição”.
Cerca de 100 mil pessoas fugiram da cidade em apenas duas semanas, segundo estimativas da ONU, buscando refúgio em locais próximos, como Tawila, a cerca de 50 km.
Acusações cruzadas e pressão por responsabilização
O embaixador britânico Kumar Iyer afirmou que o padrão da violência indica uma “campanha coordenada contra civis” por parte das RSF, incluindo assassinatos direcionados, violência sexual sistemática e uso deliberado da fome como arma.
Antes da votação, ele defendeu a aprovação do texto argumentando que, sem investigação, a impunidade persistiria.
O embaixador sudanês Hassan Hamid Hassan chamou o conflito de “guerra existencial” e acusou os Emirados Árabes Unidos de fornecerem apoio militar às RSF — algo negado por Abu Dhabi. O representante dos Emirados criticou tanto as forças paramilitares quanto o Exército sudanês, responsabilizando o governo por ataques indiscriminados em meio à fome e ao colapso humanitário.
O alerta mais duro veio de Adama Dieng, enviado especial da União Africana e assessor da ONU para prevenção de genocídio. Segundo ele, “o risco de genocídio existe no Sudão, é real e cresce a cada dia”.
A mesma preocupação foi reiterada por Volker Türk, que também advertiu para sinais de violência semelhante se espalhando para a região vizinha de Kordofan.