A República Democrática do Congo (RDC) foi eleita na quarta-feira (4) como membro não permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para o biênio 2026–2027.
A eleição ocorreu durante a 73ª sessão plenária da 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nos Estados Unidos, e marcou o retorno do país ao órgão após 35 anos. A RDC obteve 183 votos entre os 187 países votantes.
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A nova composição do Conselho inclui, além da RDC, outros quatro países eleitos: Libéria (África), Bahrein (Ásia-Pacífico), Colômbia (América Latina) e Letônia (Europa Oriental). Esses países ocuparão os assentos atualmente mantidos por Argélia, Guiana, Coreia do Sul, Serra Leoa e Eslovênia, cujos mandatos se encerram em dezembro de 2025.
Os novos membros se juntarão, a partir de 1º de janeiro de 2026, à Dinamarca, Grécia, Paquistão, Panamá e Somália, que seguem com mandatos em vigor. Juntos, comporão o bloco de dez membros não permanentes do conselho, que atua ao lado das cinco potências com assento fixo e poder de veto: China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia.
Mukwege pede justiça e responsabilização por crimes no leste do Congo
O médico congolês e vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2018, Dr. Denis Mukwege, celebrou o retorno do país ao órgão máximo de deliberação sobre paz e segurança internacional e pediu que a nova posição seja usada para promover a justiça e combater a impunidade interna.
“Depois de 35 anos, a República Democrática do Congo acaba de ser reeleita para o Conselho de Segurança da ONU. Esta eleição, que coincide com o 15º aniversário do Relatório Mapping das Nações Unidas e com os 30 anos do início das guerras no Congo, oferece às autoridades uma oportunidade histórica de avançar com a justiça de transição, incluindo o estabelecimento de um tribunal penal internacional para o país”, afirmou Mukwege em publicação na rede X (ex-Twitter).
O ativista ainda declarou que, após três décadas de massacres, deslocamentos e violência sexual em massa, o governo congolês deve colocar os interesses da população no centro da agenda política. “Exortamos os responsáveis políticos a servir o povo e a colocar suas aspirações no centro da ação do Estado.”
Experiência diplomática e cenário de conflito
A RDC, localizada na África Central, já ocupou assento não permanente no Conselho de Segurança da ONU em duas ocasiões anteriores: de 1982 a 1983 e de 1991 a 1992. Segundo o governo congolês, essa trajetória oferece experiência relevante para o novo mandato.
Apesar de não ter poder de veto, o assento no Conselho oferece influência direta na construção de resoluções, sanções e respostas a crises globais. Os membros não permanentes participam de comitês estratégicos e podem atuar como facilitadores de diálogos internacionais em regiões sob conflito — como é o caso do próprio território congolês.
Desde os anos 1990, a RDC enfrenta um conflito prolongado, especialmente na região leste do país, envolvendo dezenas de grupos armados. Estima-se que mais de 10 milhões de pessoas tenham sido vitimadas direta ou indiretamente pela guerra. O país também abriga a missão de paz da ONU com uma das maiores presenças militares internacionais no mundo, a MONUSCO, atualmente em processo de retirada.
A eleição da RDC ocorre em um momento de pressão interna e internacional pela responsabilização de crimes de guerra e violações sistemáticas de direitos humanos. O Relatório Mapping da ONU, publicado em 2010, documentou 617 incidentes graves de violência entre 1993 e 2003, mas suas recomendações continuam sem implementação.
Com o novo mandato no Conselho de Segurança, as autoridades congolesas serão cobradas a agir não apenas em relação aos temas internacionais, mas também a demonstrar compromisso com a justiça e a reconstrução interna, especialmente no leste do país.