Dos tatames do jiu-jitsu ao octógono mundial do MMA, a atleta Ana Brito, ainda como amadora, conquistou o título pan-americano no México e o mundial no Uzbequistão, ambos em 2024. Natural do Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo, ela construiu uma identidade em um esporte que, por muito tempo, foi um território majoritariamente masculino e com pouca representatividade racial.
Em entrevista à Alma Preta, Brito compartilha sua trajetória no esporte, a identidade como ferramenta de afirmação, as desigualdades e a meta de chegar ao UFC.
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Atualmente treinando na Fighting Nerds, a lutadora conta que, em sua equipe, há entre oito e nove mulheres e que luta para ocupar esse espaço como mulher negra.
“Tem poucas mulheres pretas, então a cada dia a gente vai lutando para ter nosso espaço e diferenciar o esporte que ainda é muito masculino. O nosso corpo ainda é muito masculinizado também”, conta.
Além de ser um espaço de competição, o octógono também é utilizado por ela como afirmação da identidade negra.
A atleta ficou conhecida como “Black Queen”, apelido que surgiu pela comemoração em que faz uma “coroa” na cabeça e pela reafirmação da representatividade e de sua essência.
“Black Queen porque o octógono é minha área, é meu reinado. Fico muito confortável, então eu sou a realeza ali dominando o centro. Trouxe para esse lado, mas também porque eu comemorava fazendo a coroinha, então pegou o ‘Queen’ e o ‘Black’.”, afirma.
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A carreira no MMA e o desejo de chegar ao UFC
No início, Ana não imaginava seguir carreira no MMA. Influenciada pelo irmão, Jonathan, começou no jiu-jitsu no projeto social “Apenas um Filho”, aos dez anos, e hoje é faixa-preta. Depois, migrou para o MMA em 2021 e decidiu investir na carreira ao enxergar maior potencial de crescimento.
Sobre conquistar os títulos do Pan e, depois, o mundial ainda como atleta amadora, Brito destaca a experiência internacional como estratégia na carreira.
“Quis fazer essa passagem para ganhar mais experiência, lutar fora e conquistar títulos internacionais. Também busquei vivenciar a experiência de enfrentar atletas de outros países, o que é diferente de lutar no Brasil, fora de casa”, afirma.
Atualmente, ela tem como objetivo chegar ao UFC daqui entre dois a três anos e vem potencializando o crescimento da carreira por meio de iniciativas.
Em 2025, Ana foi uma das dez atletas selecionadas para receber apoio da Afro Esporte, iniciativa que acelera a carreira de atletas negros, oferecendo mentorias, apoio psicológico e formação em letramento racial.
“Potencializou muito a minha carreira de todas as formas possíveis. Eu já tinha um plano de longo prazo, mas não estava detalhado. Por exemplo, não tinha a questão financeira estruturada, faltavam mentorias, psicólogos, coisas que a Afro Esporte trouxe e que, com certeza vão prolongar minha carreira”, projeta.
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Ana também se tornou referência no local onde iniciou sua trajetória, inspirando outras meninas da comunidade.
“Fico feliz de abrir essa porta pra outras meninas construirem a própria história. É uma representatividade muito grande, porque eu sinto que toda vez que eu falar, vou estar influenciando pessoas. Para mim é um privilégio. É muito legal chegar lá na quebrada onde eu cresci e ter um muro com a minha foto”, destaca.

Estilo para além do octógono
Seu estilo vai além do desempenho como atleta e reverbera em sua identidade pessoal, conectando cultura e moda.
“Já existe um padrão de lutadores ou de como um lutador deve se vestir. Quis trazer algo diferente, porque gosto muito de me vestir do meu jeito, fazer sobreposições de roupas, de cores e me expressar também.”
Para ela, o estilo dialoga diretamente com o esporte e contribui para a construção de sua personalidade, incluindo referências da música e do rap feminino como Ajulia Costa, Duquesa, Lai Rosa, Cae e Erykah Badu.
“Tenho muitas referências de mulheres pretas, das músicas que escuto, ouço muito rap feminino. Trazer toda essa bagagem comigo só potencializa e une dois lados que parecem distantes, mas estão totalmente conectados: música e esporte. A gente está sempre ouvindo música para treinar, então está tudo ligado.”