O Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) anunciou, em Salvador (BA), a segunda fase do programa de fomento ao afroempreendedorismo. O lançamento ocorreu na programação do Preta Talks, durante o Festival Feira Preta, e marcou o avanço de uma iniciativa que, em 2024, produziu o primeiro levantamento regional sobre negócios liderados por pessoas negras na América Latina.
A nova fase inclui a expansão da pesquisa, a implementação de ações formativas e o fortalecimento de redes de negócios liderados por pessoas negras. O CAF investirá US$ 250 mil (cerca de R$ 1,3 milhão) enquanto o Instituto Feira Preta complementa o equivalente, com infraestrutura, metodologia e expertise acumulada.
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Segundo Eddy Bermúdez, diretor de Diversidade do Banco CAF, a etapa atual atua diretamente sobre os obstáculos identificados no primeiro estudo. “Vamos formar, apoiar e conectar empreendedores de todos os países envolvidos. Com Equador e Uruguai, damos mais um passo rumo à construção de uma afroeconomia latino-americana sólida, inovadora e integrada”, afirmou em comunicado à imprensa.
Primeira fase revelou padrões estruturais do afroempreendedorismo
Lançada no fim de 2024, a fase inicial estudou o perfil e os desafios de empreendedores negros da Argentina, Brasil, Colômbia, Panamá e Peru. O levantamento consultou cerca de 3 mil afroempreendedores, combinando dados quantitativos e entrevistas qualitativas para identificar barreiras estruturais.
Os resultados expuseram desigualdades no acesso ao crédito e na inserção no mercado financeiro. No Brasil, 44% dos pedidos de crédito de empreendedores negros foram negados, contra 29% dos apresentados por pessoas brancas. A expansão de negócios durante a pandemia também se destacou: quase 60% dos empreendimentos surgiram nesse período, motivados pela busca por renda.
Mulheres compõem a maior parcela do ecossistema afroempreendedor latino-americano, representando 80% dos participantes do estudo. Apesar desse protagonismo, 48% dos empreendimentos liderados por mulheres registram faturamento mensal de até um salário mínimo.
O relatório identificou forte dimensão identitária nas iniciativas, com empreendedores que criam negócios vinculados à cultura, ancestralidade e fortalecimento comunitário. No Brasil, oito em cada dez empreendedores afirmam atuar alinhados a práticas ESG — conjunto de critérios que avalia o desempenho de uma empresa em relação à sustentabilidade e responsabilidade corporativa.
A pesquisa apontou ainda ambientes bancários restritivos, ausência de garantias e discriminação racial como obstáculos recorrentes.
Segunda fase prioriza formação e redes regionais
Com o anúncio em Salvador, o CAF iniciou a fase de implementação das recomendações do estudo. A nova etapa inclui programas de formação voltados a capacitar empreendedores negros nos sete países agora incluídos — Brasil, Argentina, Colômbia, Peru, Panamá, Equador e Uruguai — com previsão de ampliação futura para dez nações.
A agenda também prevê a criação de uma rede latino-americana de afroempreendedores. A proposta é conectar iniciativas, fomentar parcerias, ampliar a circulação de conhecimento e estimular oportunidades econômicas transnacionais.
Outra frente envolve o apoio ao desenho de políticas públicas baseadas em evidências. O CAF pretende auxiliar governos locais e nacionais na formulação de ações para enfrentar desigualdades raciais que atravessam o empreendedorismo na região.