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Caminhada em SP celebra memória de Luiz Gama 143 anos após a morte do abolicionista

Protagonista de uma história incomum, Luiz Gama foi uma das maiores figuras contra a escravização da população negra no Brasil; evento acontece no centro da capital paulista no domingo (24)
Chegada dos participantes da Caminhada Luiz Gama ao Cemitério da Consolação, em 2024.

Chegada dos participantes da Caminhada Luiz Gama ao Cemitério da Consolação, em 2024.

— Marcelo Estêvão

20 de agosto de 2025

São 5 km entre o Brás e o Cemitério da Consolação. Este foi o último trajeto que o abolicionista, advogado, escritor e jornalista negro Luiz Gama cumpriu durante seu enterro, no ano de 1882, em São Paulo. O percurso será repetido neste domingo (24), a partir das 10h, na caminhada que carrega o nome do abolicionista.

O evento, organizado pela Sociedade Luiz Gama (SLG), com o apoio de grupos e coletivos negros, saíra da Estação do Brás, na Praça Agente Cícero.

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De acordo com o pesquisador Bruno Rodrigues de Lima, coordenador da SLG e autor de obras como “Luiz Gama contra o Império“, a Caminhada Luiz Gama é uma tradição há 143 anos. “Existe desde 25 de agosto de 1882, quando uma multidão de mais de 3 mil pessoas carregou o corpo de Gama de sua casa no Brás até o Cemitério da Consolação”, conta.

“Desde então, milhares de pessoas vêm prestando suas homenagens à memória de Gama e em todos os anos, a Caminhada está, sem dúvida alguma, entre os mais significativos e duradouros cortejos cívicos da história do Brasil”, complementa.

Memória viva

A caminhada tem como tradição também a repetição de um juramento que o médico baiano, Clímaco Barbosa, fez à beira do túmulo de Luiz Gama, intimando todos os presentes a  jurar que não deixariam morrer a ideia de liberdade, justiça, educação,  defesa da igualdade e de  direitos para toda a população negra e um projeto de um Brasil mais justo e democrático para todos os brasileiros.

Segundo a Sociedade Luiz Gama, esses eram sonhos do abolicionista, que lutou contra o império racista e violento que transformou o Brasil no maior país escravocrata das Américas.

O escritor Abílio Ferreira, coordenador geral da SLG, lembra que a existência de Gama tem sido regularmente celebrada ao longo do tempo, coletiva ou individualmente, seja em São Paulo, em Salvador ou em qualquer outra cidade do país, na data de seu nascimento (21 de junho) ou de morte (24 de agosto). 

No final da Caminhada Luiz Gama de 2024, o juramento diante de sua sepultura foi encenado pelo ator Del Garcez e pela atriz Soraia Amoni, emocionando os participantes. O juramento original está registrado em uma crônica de Raul Pompéia.

Busto de Luiz Gama no Largo do Arouche, em São Paulo.
Busto de Luiz Gama no Largo do Arouche, em São Paulo. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Uma história incomum

A história de Luiz Gama é incomum.  Ele nasceu livre em 1831, em Salvador, filho de uma mulher africana escravizada (Luiza Mahin) e de um fidalgo português, que o vendeu aos nove anos para pagar uma dívida. Ele chegou no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, e foi revendido para um contrabandista e levado para São Paulo, onde ficou em cativeiro até os 18 anos, quando lutou para conquistar sua liberdade, aprendeu a ler e escrever, tendo tido inúmeras profissões, antes de se tornar advogado.  

Autodidata, na qualidade de escrivão e amanuense para o delegado e catedrático da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Furtado de Mendonça, Gama aprofundou seus conhecimentos jurídicos na biblioteca das Arcadas. E foi com estratégias jurídicas ousadas que libertou mais de 600 pessoas escravizadas e foi o maior inimigo das elites brancas do Brasil.

 Os famosos magistrados da época, como João Mendes e Rego Freitas, eram inimigos de Gama, mas ele levou até o fim a bandeira da abolição, da liberdade, da democracia, do direito à terra e ao trabalho para todos. 

Gama morreu em 1882, em São Paulo, e não viu nem a abolição, nem a República, mas deixou uma obra que o tornou um dos grandes ícones da Liberdade e do Direito no Brasil.

Com ironia, Gama expõe em seus escritos a dor que a escravidão imprimiu nas mentes e corpos dos negros escravizados,  ao dizer que “este animal maravilhoso, chamado escravo, na expressão legal, este homem sem alma, este cristão sem fé, este indivíduo sem pátria, sem direitos, sem autonomia, sem razão, é considerado abaixo do cavalo, é um racional toupeira, sob o domínio de feras humanas — os senhores (brancos)”.

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