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Encontro de mulheres quilombolas deve reunir mais de 500 lideranças em Brasília

Marcando os 30 anos da CONAQ, o maior encontro de mulheres quilombolas do país lança plano emergencial de proteção a territórios com participações de autoridades e programação extensa de atividades
Registro da Marcha de Mulheres Quilombolas.

Registro da Marcha de Mulheres Quilombolas.

— Pedro Garcês/CONAQ

9 de junho de 2026

 Entre os dias 10 e 14 de junho, Brasília sediará o 3º Encontro Nacional de  Mulheres Quilombolas. Com o lema central “Mulheres  Quilombolas na defesa por justiça climática, por reparação e  democracia: somos o começo, o meio e o começo!”, o evento marca as celebrações dos 30 anos da Coordenação Nacional de  Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

Durante cinco dias, o encontro no Divino Paraíso deve reunir mais de 500 mulheres quilombolas de 24 estados, além de delegações internacionais de sete países. O  objetivo é unificar estratégias contra os impactos das mudanças climáticas nos  territórios tradicionais, combater as violências sistêmicas e ampliar a incidência  política das mulheres nas esferas nacionais e internacionais de poder. 

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De acordo com a coordenadora do Coletivo de Mulheres e articuladora política da CONAQ, Selma Dealdina Mbaye, a agenda será uma conexão direta com a diáspora e  com o continente africano, que recebe pela primeira vez representantes do Quênia e  do Senegal, além de delegações de países da América Latina e Caribe, como Peru,  Paraguai, Trinidad, Colômbia, Equador e Honduras.

Para ela, o encontro é um  espaço de continuidade e honra àquelas que pavimentaram o caminho do movimento quilombola

“Assumimos a missão de honrar a luta que elas travaram em nível nacional e internacional. Além de conectar nossas pautas de  gênero, clima e defesa dos direitos humanos para que nenhuma liderança viva sob  ameaça, para que entendam que a nossa produção gera vida e que lutamos pela  titulação dos nossos territórios porque precisamos proteger nossos corpos e nossa  história”, afirma Selma.

Lançamento do Plano Emergencial e documentário com Maju Coutinho 

Um dos momentos de maior relevância política do encontro ocorrerá na abertura da quarta-feira (10), com o lançamento do Plano Emergencial para Mulheres Ameaçadas em seus  Territórios e a exibição do documentário institucional “CAFUNÉ”.

O plano responde  diretamente ao agravamento dos conflitos agrários e ambientais que vulnerabilizam  lideranças quilombolas femininas em todo o país. A iniciativa prevê desdobramentos práticos a curto prazo, incluindo a publicação de  uma cartilha pedagógica e a estruturação de formações integradas voltadas para a  articulação e incidência política dessas mulheres. 

Para somar voz e visibilidade a essa caminhada, o encontro contará com a  participação especial da jornalista Maju Coutinho. Ela será a principal convidada  para uma roda de conversa inspirada no formato do quadro “Mulher Fantástica”,  promovendo uma troca horizontal de vivências.

Leia mais: CONAQ denuncia descaso em escolas quilombolas no Espírito Santo

Feira de saberes e práticas tradicionais

A salvaguarda da cultura e a autonomia financeira também ganham centralidade com a realização da Feira de Saberes Tradicionais. O espaço reunirá cerca de 50  agricultoras familiares, raizeiras, benzedeiras e parteiras vindas de diferentes  realidades geográficas do Brasil, compartilhando e comercializando a diversidade  produtiva de seus territórios. 

A feira se diferencia da perspectiva apenas comercial, funcionando como um  termômetro da sociobiodiversidade nacional e um manifesto pela regularização  fundiária. A diversidade dos produtos reflete os diferentes biomas que as  comunidades protegem: desde o artesanato em capim dourado do Cerrado e as  bonecas de crochê, até a produção alimentar viva, como o marmelo, o licor, temperos  caseiros, chás fitoterápicos, sabonetes artesanais e variações únicas de farinhas  alimentares cujos modos de fazer guardam segredos seculares. 

“A CONAQ é um movimento misto, mas dentro dos territórios quem lidera a  produção são as mulheres. Seja na agricultura familiar, na medicina tradicional,  no artesanato ou na farinha, cada estado traz uma identidade única determinada  pelo seu bioma. Essa feira é o retrato vivo de por que lutamos pela regularização  dos nossos territórios: nós produzimos vida e sustentabilidade. Queremos mostrar  essa riqueza para quem não conhece os quilombos e, ao mesmo tempo, cobrar dos  governos políticas públicas de fomento e crédito produtivo, pois as mulheres ainda  enfrentam imensas barreiras para acessar esses recursos e escoar suas produções”, destaca Cida Souza, coordenadora do Coletivo de Mulheres da CONAQ.

Mulheres quilombolas unidas em agenda política. (Créditos: Pedro Garcês/CONAQ)

Moda, identidade e expressões visuais 

A celebração da identidade quilombola ganhará as passarelas do encontro. Um dos  grandes destaques da agenda será um desfile exclusivo idealizado e produzido por  Adda Victória Caetano, integrante do Coletivo de Mulheres da CONAQ. O momento  foi pensado para valorizar a beleza, a autoestima, a cultura e a riqueza ancestral das  mulheres quilombolas, apresentando figurinos que foram confeccionados e  produzidos exclusivamente para este evento.

A iniciativa promete traduzir em cores, texturas e tecidos a força da resistência e a identidade das mulheres que sustentam  os territórios em todo o país. 

Aliado a isso, ao longo de toda a programação, o público poderá companhar ensaios fotográficos temáticos e exibições exclusivas de filmes com temas diversos, que jogam luz sobre o cotidiano, as memórias e as  expressões contemporâneas das comunidades quilombolas. 

Leia mais: CONAQ lança NDC quilombola e propõe protagonismo negro na agenda climática brasileira

Incidência política e diálogo institucional 

A  programação contará com mesas de debate e grupos de trabalho compostos por ministros de Estado, defensores públicos federais e outras autoridades do Governo Federal, além de representantes de diversas embaixadas que apoiam iniciativas conduzidas pela CONAQ.

As lideranças apresentarão propostas integradas de reparação histórica, governança climática territorial e combate à violência de gênero,  cobrando compromissos firmes dos três poderes da República em defesa da  preservação dos direitos quilombolas e o fortalecimento da democracia brasileira. 

Na quinta-feira (11), às 15 horas, no auditório principal, a programação ganha um desdobramento estratégico durante  o Quitungo Literatura “Fátima Barros”. Sob o tema “Impactos das mudanças  climáticas nos territórios e na vida das mulheres quilombolas”, haverá o  lançamento oficial da publicação “Vozes Quilombolas: mulheres em defesa do clima”.

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