PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Gasto com supersalários de magistrados cresce 49,3% em 1 ano e ultrapassa teto constitucional, aponta estudo

Pesquisa inédita do Movimento Pessoas à Frente revela que gastos com remunerações extras no Judiciário saltaram de R$ 7 bi para R$ 10,5 bi em um ano e aponta falhas legais que alimentam privilégios
Sessão Solene de Abertura do Ano Judiciário do STF.

Sessão Solene de Abertura do Ano Judiciário do STF.

— Antônio Cruz/Agência Brasil

1 de julho de 2025

Um estudo divulgado pelo Movimento Pessoas à Frente, em parceria com o pesquisador Bruno Carazza, revelou que os gastos com remunerações acima do teto constitucional no Judiciário somaram R$ 10,5 bilhões em 2024. O valor representa um aumento de 49,3% em relação ao ano anterior (R$ 7 bilhões). No mesmo período, a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 4,83%.

O levantamento, intitulado “A corrida além do teto: Supersalários, verbas indenizatórias e a necessidade de resgate da autoridade constitucional”, mostra que o crescimento dos chamados supersalários ocorreu em todos os tribunais do país, com exceção do Tribunal de Justiça do Piauí, cujos dados não foram incluídos.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

O valor médio líquido recebido por magistrados passou de R$ 45.050,50 em 2023 para R$ 54.941,80 em 2024. Em fevereiro de 2025, esse valor atingiu o pico de R$ 66.431,76.

Verbas indenizatórias impulsionam pagamentos acima do teto

Segundo o estudo, o avanço nos rendimentos foi provocado principalmente pelo uso de verbas indenizatórias classificadas de forma indevida. Esses pagamentos extras, conhecidos como “penduricalhos”, não se submetem ao teto constitucional — atualmente fixado em R$ 46.366,19 — e muitas vezes não sofrem incidência de imposto de renda.

O aumento contínuo fez com que o rendimento líquido médio dos magistrados superasse o valor do teto desde setembro de 2022. As verbas indenizatórias representam 43,67% dos rendimentos líquidos e tendem a ultrapassar a metade nos próximos ciclos.

Falta de controle e ausência de transparência

A pesquisa previa a inclusão de dados sobre membros do Ministério Público, mas essa parte foi inviabilizada pela indisponibilidade e baixa qualidade das informações públicas relacionadas ao órgão.

O Movimento Pessoas à Frente aponta que o avanço dos supersalários reflete a ausência de controle efetivo e transparência nas remunerações do setor público. A diretora-executiva da entidade, Jessika Moreira, afirmou que, mesmo com quatro tentativas legislativas desde a Constituição de 1988 para regular esse tema, o país ainda falha em conter os abusos.

“Não podemos esperar mais 40 anos para finalmente resolver esse desafio estrutural dos supersalários no Brasil. Se considerarmos o aumento que foi identificado entre 2023 e 2024, de 49,3%, em apenas dois anos, esse valor terá dobrado”, declarou Moreira em nota de divulgação do estudo.

Propostas para conter a escalada dos supersalários

O Movimento Pessoas à Frente defende que a Reforma Administrativa, atualmente em debate na Câmara dos Deputados, inclua medidas para enfrentar a proliferação dos supersalários. A entidade faz parte de uma coalizão formada por dez organizações da sociedade civil que elaborou o Manifesto pelo Fim dos Supersalários. O documento apresenta nove propostas consideradas essenciais para uma regulamentação eficaz.

Entre as medidas propostas estão a necessidade de classificação precisa entre verbas remuneratórias e indenizatórias, com critérios objetivos. Para as indenizações, a recomendação é que só possam ultrapassar o teto constitucional se atenderem a três exigências: natureza reparatória, caráter eventual e transitório, e previsão expressa em lei. A coalizão também defende que qualquer adicional só possa ser criado por meio de lei aprovada pelo Congresso Nacional.

Outras propostas incluem a aplicação correta do Imposto de Renda sobre verbas indevidamente isentas, o fortalecimento de mecanismos de transparência ativa e passiva sobre remuneração, e a extinção de verbas classificadas de forma inadequada como indenizatórias.

O grupo propõe ainda a proibição de vínculo automático entre os subsídios de agentes públicos — o chamado efeito cascata — e o enquadramento como improbidade administrativa para autorizações de pagamentos acima do teto sem respaldo legal.

Além disso, o manifesto propõe a criação de uma barreira para o pagamento de valores retroativos, com critérios transparentes e limites temporais. O estudo também recomenda o fim de benefícios concentrados no sistema de justiça, como férias de 60 dias convertidas em pecúnia, licenças e adicionais por tempo de serviço, aposentadoria compulsória como punição sem perda de rendimentos, e gratificações por acúmulo de ofícios.


As organizações alertam que o Projeto de Lei 2.721/2021, atualmente em tramitação no Senado, caso aprovado, poderá legalizar a continuidade dos penduricalhos. Para o grupo, é necessário enfrentar de forma estruturada esse modelo de remuneração que se distancia dos princípios constitucionais e amplia desigualdades dentro do serviço público.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano