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Martin Luther King: da luta contra a segregação racial à oposição ao imperialismo

Líder do movimento pelos direitos civis, o pastor e ativista negro foi um importante crítico do capitalismo e do imperialismo dos Estados Unidos
O líder dos direitos civis dos EUA, Martin Luther King, acena para seus apoiadores em 28 de agosto de 1963 no National Mall, em Washington D.C.

O líder dos direitos civis dos EUA, Martin Luther King, acena para seus apoiadores em 28 de agosto de 1963 no National Mall, em Washington D.C.

— AFP

4 de abril de 2026

Há 58 anos, no dia 4 de abril de 1968, um dos maiores líderes da luta por direitos da comunidade afro-americana morria assassinado aos 39 anos na sacada do Lorraine Motel, em Tennessee, nos Estados Unidos. O pastor Martin Luther King Jr. foi morto a tiros enquanto apoiava a greve de trabalhadores negros da cidade de Memphis, deixando um legado marcado pela defesa da justiça racial e da igualdade de direitos.

Nascido em 19 de janeiro de 1929, o ativista cresceu no auge do ódio racial norte-americano, durante a vigência da lei segregacionista Jim Crow.  Ao longo de sua infância e adolescência, King foi obrigado a frequentar uma escola exclusiva para pessoas negras, passagem que contribuiu para seu precoce despertar sobre a desigualdade. 

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Formou-se em sociologia pela Morehouse College, renomada universidade ligada à comunidade afro-americana, e realizou um doutorado em Teologia Sistemática na Universidade de Boston. 

Em um contexto de tensões e conflitos no Alabama, King se filiou à Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) e liderou diversos protestos por direitos civis e trabalhistas. 

Junto à estratégia de desobediência civil, a ideologia de Martin Luther King se baseou no princípio da não-violência, adotada também por Nelson Mandela, na África do Sul. 

O teólogo esteve à frente das manifestações em apoio à ativista negra Rosa Parks, presa por desobediência civil em 1955 após se recusar a ceder o lugar no ônibus para um homem branco.

Além da intensa mobilização, a resposta do movimento negro veio na criação da Associação de Melhoria de Montgomery, fundada para reivindicar o fim da segregação racial na cidade e presidida pelo ativista.

Leia mais: Igrejas negras nos EUA: resistência ao racismo e alvo do supremacismo

Com a organização, o ativista conduziu um boicote ao ônibus municipal que durou mais de 300 dias e resultou na abolição da segregação no transporte coletivo pela Suprema Corte. Até o final da década de 1950, o militante teve participação direta no acesso dos afro-americanos a parques públicos, bibliotecas, lanchonetes e restaurantes em diversas cidades. 

A marcha sobre Washington, elaborada por King, reuniu mais de 250 mil pessoas na capital estadunidense e se tornou um momento histórico para a luta pela igualdade racial em todo o mundo. 

O evento foi palco para o célebre discurso “Eu tenho um sonho”, que até hoje reverbera nos movimentos pelo fim do racismo ao redor do mundo. 

Defesa da renda básica universal e fim da pobreza

Uma parte pouco comentada de sua trajetória são as duras críticas ao sistema capitalista e imperialista, com atuação em defesa de causas trabalhistas e da redistribuição radical do poder econômico e político.

No livro “Para Onde Vamos a Partir Daqui”, publicado pelo pastor em 1967, defende explicitamente a criação de uma renda básica universal, com a “abolição total, direta e imediata da pobreza”.

Para Martin Luther King, a cidadania só seria alcançada a partir do acesso igual a bens culturais, sociais e educacionais como um direito básico, permitindo o desenvolvimento igualitário do potencial humano. 

“Precisamos entender agora que os males do racismo, da exploração econômica e do militarismo estão todos interligados… Não se pode realmente se livrar de um sem desapegar-se dos outros… Toda a estrutura da vida americana precisa ser mudada. Os Estados Unidos são uma nação hipócrita e precisamos colocar nossa própria casa em ordem”, destacou King em um relatório à Conferência de Liderança Cristã do Sul (SCLC), em maio de 1967. 

Em entrevista à Bomb Magazine, de 1994, a autora Bell Hooks destacou que, apesar da importância do ativista na articulação anticapitalista e anti-imperialista, sua proximidade com o socialismo não é amplamente divulgada, tornando-se secundária na memória coletiva. 

Leia mais: Livro ‘A pele que eu tenho’, de bell hooks, ganha edição acessível

Perseguição e assassinato

Por causa de sua persistente atuação contra o regime segregacionista, King foi classificado pelo diretor do Departamento Federal de Investigação (FBI), J. Edgar Hoover, como o “mais perigoso e efetivo líder negro no país” e passou a ser monitorado pela Agência de Segurança Nacional (NSA).

Foi acusado de manter vínculos com o Partido Comunista dos EUA e com a União Soviética, enfrentando uma dura campanha de difamação e diversas prisões. À época dos protestos por Rosa Parks, sua casa foi bombardeada. 

Quando foi alvejado na sacada do hotel Memphis, o pastor chegou a passar por uma cirurgia de emergência, mas não resistiu aos ferimentos. A autoria do crime foi atribuída a James Earl Ray, que morreu na prisão em 1998. Mesmo alegando inocência, o homem confessou formalmente o assassinato para evitar a sentença de morte. 

No entanto, os familiares do ativista expressaram dúvidas sobre o responsável pelo crime, em virtude da constante perseguição do governo. O receio é compartilhado com milhares de apoiadores, que organizaram uma onda de protestos pelo país. 

As suspeitas tomaram proporções maiores após Loyd Jowers afirmar, em 1993, que recebeu US$ 100 mil para arquitetar o assassinato, que teria o oficial da polícia Earl Clark como verdadeiro autor. 

Mais de meio século após sua morte, o legado de Martin Luther King Jr. segue mobilizando lutas ao redor do mundo, especialmente diante das persistentes desigualdades raciais e econômicas.

Suas críticas estruturais ao racismo, ao capitalismo e ao militarismo continuam atuais, reforçando que a busca por justiça social exige transformações profundas e coletivas, capazes de enfrentar as raízes históricas da opressão.

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

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